Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Desonestidade, ignorância ou preguiça? O que explica o menosprezo da imprensa aos números e estatísticas?


A imprensa brasileira tem sido pródiga na publicação de interpretações equivocadas a partir de números e percentuais. Graves erros de interpretação vêm sendo apresentados como verdades sólidas, por se basearem em números que, a princípio, estendem credibilidade à conclusão que se oferece ao leitor. Em alguns casos, trata-se de manipulação deslavada. Outros, pura ignorância aritmética ou ainda, como terceira possibilidade, apenas preguiça.



O primarismo dos disparates deixa suspeita sobre seu real propósito. Eles têm no DNA a intenção de enganar o leitor. Tão grave quanto essa desconfiança é que esses erros sustentam reportagens de capa, contornam argumentações em editoriais e ganham celebridade em colunas tidas como sérias e responsáveis.



Os exemplos abaixo foram colhidos de três veículos de informação: Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e Veja.



Folha de S.Paulo


O editorial de 20 de agosto passado, ‘A vez de Palocci’, que versa sobre o envolvimento do ministro da Fazenda na propinagem da empresa Leão & Leão, de Ribeirão Preto. No sexto parágrafo, ao comparar o percentual de crescimento da economia brasileira com a de outros países emergentes, a batatada: ‘Embora o Brasil no ano passado tenha crescido 4,9% – um número que pode parecer muito positivo diante da média de 2,4% dos últimos dez anos –, tratou-se de uma expansão claramente inferior à registrada pelos países emergentes. Além da China, da Índia e da Rússia, também Argentina, Venezuela, Uruguai, Chile e Cingapura – para citar alguns – fecharam o ano de 2004 com crescimento superior ao do Brasil’.



Ora, comparar o crescimento do Brasil com o da Argentina e o da Venezuela é o mesmo que comparar o crescimento da velocidade de três veículos, sendo que dois deles não partiram da linha de largada, mas sim estavam em marcha-a-ré. É evidente que os PIB da Argentina e da Venezuela cresceram mais do que o do Brasil. Entre 1999 e 2002, o PIB argentino encolheu 20%, sendo 10% deles somente em 2002. Em 2003 e 2004, o PIB argentino cresceu 8,8% em cada ano, voltando aos mesmos patamares do colapso de 2002. Logo, a economia não saiu da linha de largada. Já o PIB da Venezuela caiu 9,2% durante o ano de 2003 e cresceu 17,3% no ano passado. De novo, a comparação recai sobre um índice negativo do ano anterior.



O relatório anual do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) relativo a 2004 deixa bem claro:



‘Depois de cinco anos de crescimento extremamente lento, a América Latina e o Caribe cresceram 5,5% em 2004, segundo estimativas da CEPAL. Pela segunda vez em 20 anos, as seis maiores economias da região cresceram mais de 3%. Argentina, Brasil, Equador, Uruguai e Venezuela tiveram suas melhores taxas de crescimento em dez anos. Somente o Haiti teve crescimento negativo, enquanto em nove países a economia se expandiu a uma taxa superior a 5%. Contudo, as três maiores taxas de crescimento da região (18% na Venezuela, 12% no Uruguai e 8% na Argentina) decorreram de recuperações ainda incompletas, já que esses países ainda têm de atingir os níveis de PIB anteriores à recessão. Os outros países em que o crescimento superou 5% foram Brasil, Chile e Equador, na América do Sul, Panamá e Belize na América Central, e Trinidad e Tobago no Caribe.’



O Estado de S.Paulo



O exemplo de malbarato com quantidades está na coluna de Dora Kramer, de 30 de agosto, com o título ‘Um olhar estrangeiro’. A colunista tenta transmitir opinião da ‘comunidade de diplomatas europeus acreditados em Brasília’ sobre a crise política, mas não traz uma indicação sequer, driblando a precisão da informação com expressões como ‘entre os embaixadores’, ‘os diplomatas’, ‘numa embaixada’ , ‘raciocínio de viés europeu’, ou ainda ‘nossos amigos embaixadores’.



O artigo não traz um indicador numérico sequer sobre o número de entrevistados para sustentar a visão generalizada que o texto tenta apresentar como sólida e criteriosa.



Veja



O mesmo truque, porém aprimorado com um exercício de lógica que pretensamente dá maior sustentabilidade ao texto, encontra-se em dois textos da revista Veja sobre a crise política.



Em 15 de junho passado, a reportagem ‘O PT assombra o Planalto’ inaugurou o estilo assertivo dizendo que havia conversado com três ministros, cinco deputados e um senador e que ‘todos confirmaram, com a condição de não ter a identidade revelada, a existência do mensalão. As nove fontes ouvidas pela revista pertencem a cinco partidos diferentes – são eles: PT, PMDB, PSB, PP e PFL –, mas todas informam que o pagamento era feito pelo PT’.



O ponto curioso da conclusão antecipada é que, dois meses depois de depoimentos e investigações, a profusão de opiniões colhida no anonimato durante uma semana de reportagem não se confirmou em nenhuma das três CPI em andamento. Nenhuma conseguiu comprovar a existência do mensalão denunciado pelo deputado Roberto Jefferson.



Na edição de 27 de julho passado, a revista inovou. Ao contrário de apresentar as fontes antes da reportagem, primeiro contou todo o enredo da capa ‘A chantagem – 200 milhões para ficar calado’, com a sombra de Marcos Valério sobre o Planalto, e o subtítulo: ‘A história secreta de como Marcos Valério emparedou o governo ao ameaçar contar tudo’.



A sustentação à história, que também não se confirmou posteriormente, está no seguinte trecho publicado:



Veja ouviu seis personagens centrais do enredo contado da página 58 até aqui (João Paulo Cunha, Marcos Valério, Márcio Thomaz Bastos, Antonio Palocci, Marcelo Leonardo e Arnaldo Malheiros). Uns não deram resposta à revista. Os outros preferiram negar que tenham sabido ou participado da chantagem ou da farsa. Pela qualidade de suas fontes e pela proximidade delas com os fatos, Veja decidiu narrar o que se leu aqui’.



Lápis e papel na mão. É preciso fazer conta. A revista diz que ouviu seis pessoas, mas ‘uns’ não falaram e ‘outros’ negaram. Considerando-se que uns é mais do que um e que outros indica pelo menos mais de uma pessoa, tem-se, no mínimo, dois ‘uns’ e dois ‘outros’, perfazendo quatro. Subtraindo-se do total de seis pessoas que a revista diz ter ouvido, tem-se apenas duas que efetivamente falaram alguma coisa. Logo, conclui-se que Veja triplicou o número de pessoas que deram base às denúncias que veiculou naquela semana.