Tuesday, 25 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

‘Dói, mas é assim que se aprende’

O economista Luiz Paulo Santana, de Belo Horizonte, escreveu para esse blog sobre o ‘desvelamento’, a retirada do véu, que expôs publicamente vergonhas do PT e do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Muitos brasileiros honestos desconfiavam que as tramóias existentes em governos anteriores foram substituídas por outras, mas relutavam em ver. Em uma palavra, o tipo de cego ideal para as aproveitadores de todos os tipos.

Aprendemos, ‘à custa de muita desilusão (mas é assim que se aprende)’, escreveu Luiz Paulo, ‘que somos um povo cheio de defeitos, que temos uma cultura de corrupção a ser — e tem sido, e deve continuar sendo — combatida com toda a severidade, que precisamos fazer a reforma política, que não há novidade no espectro político depois da derrocada do PT e outros, que os candidatos para 2006 nada disseram sobre as lições de 2005. E o povo, que cada vez mais não é mesmo bobo, por enquanto não quer fazer troca. Trocar por quem?’

A ponderação do leitor sobre a ‘cultura da corrupção’ e a desilusão expressa no ‘trocar por quem?’ descobre a ferida que, apesar de exposta nas nossas relações cotidianas, evita-se lancetá-la definitivamente, pois nunca se sabe quando chegará nossa vez para aplicar o ‘jeitinho’ para burlar o estabelecido. Essas pequenas indecências das relações entre os cidadãos não causam repulsa – pelo contrário, são glorificadas como exemplo de nossa esperteza atávica, como pôde ser visto no Jornal Nacional de ontem à noite, quando uma inocente dona-de-casa foi exposta com a confissão de que bolara esquema para comprar um número maior de frangos a menos de R$ 1 do que o limite fixado pelo supermercado. Palmas para ela, faltou dizer.

Além de ser festejada, a ‘cultura da corrupção’ raramente é pauta para reportagens nos meios de informação mais importantes do país. Por opção, as empresas jornalísticas ilumina a corrupção do estado mas esconde sob o tapete a corrupção que permeia as relações cotidianas.

A limpeza da ferida dói, ‘mas é assim que se aprende’, lembra Luiz Paulo Santana.

A bola está, pois, de novo com os leitores. Discutir esse estigma que nos marca como povo manipulado por políticos corruptos talvez ajude a lapidar a discussão com outros argumentos, além da guerrinha PT x PSDB que tem se multiplicado pelos blogs do Brasil afora. Os leitores e cidadãos merecem mais do que a habitual troca de hostilidades nos valiosos espaços que a Internet dispôs para a sociedade. Com um mínimo de esforço, será possível enriquecer o debate sobre o país que se pretende erguer.

Para mudar de assunto, embora não saindo dele, uma pergunta:

A imprensa espelha a realidade do país que o cidadão vê em seu cotidiano?