Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Furo: agora é com o Palocci

Fazia tempo que o Estadão não dava um furo como este – se for rigorosamente verdadeira, é claro, a notícia publicada hoje de que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, assumiu o comando da ofensiva do Planalto contra a instalação da CPI dos Correios.


 


Reportagem assinada por Tânia Monteiro e João Domingos informa que Palocci assumiu o papel que os seus homólogos José Dirceu, da Casa Civil, e Aldo Rebelo, da Coordenação Política, exerceram sem sucesso na tentativa de abafar a investigação parlamentar.


 


Impossível subestimar a importância da novidade – que, espantosamente, o jornal nem chamou na primeira página.


 


Primeiro, porque nunca antes o ministro mais badalado do governo Lula se entregou por inteiro ao corpo-a-corpo político numa questão que, em senso estrito, nada têm a ver com seu (avantajado) pedaço.


 


Segundo, porque, em se tratando do que se trata – abater a golpes de borduna uma CPI sobre corrupção, apoiada maciçamente pelos brasileiros a par do assunto – a exposição pessoal de Palocci é um tremendo fator de risco não só para a sua influência no governo, mas principalmente para aquilo por que ele mais se bate: a manutenção tal-e-qual da política econômica. (Ainda mais agora que a desaceleração do PIB faz transbordar o moinho das queixas do empresariado contra a alta contínua da taxa básica de juros.)


 


Terceiro, porque indica o tamanho da aflição – para não dizer desespero – do governo diante da possibilidade de ficar nu diante dos seus inimigos no Congresso, na mídia e na opinião pública, no curso de uma CPI que, ensinam os políticos, se sabe como começa, mas não como acaba.


 


Quarto, por sinalizar que faltam ao governo batedores de pênalties em jogo de taça. Ou, quem sabe, por sinalizar que esses batedores existem, mas já não metem medo nos goleiros, de tanto que as trapalhadas do time planaltino (e a falta de traquejo político do seu chefe) os desmoralizaram.


 


Quinto, porque, ao botar as tropas na rua – para paralisar a CPI na Comissão de Justiça da Câmara, que deve julgar a sua constitucionalidade, e depois fulminá-la no plenário do Congresso – no mesmo dia, por assim dizer, em que aumenta a proporção dos que acham que a corrupção aumentou na gestão Lula (31% das opiniões), o Planalto dá razão a todos quantos, na imprensa, sugerem que, nessa matéria, a oposição pode não saber direito por que bate, mas o governo sabe por que apanha.


 


O ministro José Dirceu ficou uma arara com a Veja por ter a revista dado como fato inconteste que ele teria dito a um aliado que uma CPI minimamente bem feita não deixará de pegar o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e o seu secretário geral, Sílvio Pereira.


 


OK, faça-se de conta de que ele não disse isso. Mas o pivô da história, o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson, disse à mesma Veja que se tentarem incriminá-lo no esquema de cobrança de propina nos Correios, vai sobrar para os mesmos Delúbio e Sílvio.


 


E tem a história do presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) que disse que pediu o boné por não aguentar as pressões de que ele era alvo. Para que, não se sabe, positivamente. Mas tem a história de que a estatal deveria contribuir com R$ 400 mil para o caixa do PTB.


 


O ponto é que quanto mais o governo se municia de pás para enterrar, como dizem os jornais hoje, a CPI, menos credibilidade parece ter a versão oficial de que tudo isso é feito para impedir a antecipação da campanha eleitoral de 2006, que adviria do inquérito parlamentar (os planaltinos pelo menos pararam de falar em conspiração das elites, golpismo e quetais).


 


Mesmo porque a oposição não vai enfiar o rabo entre as pernas e ficar num canto lambendo as feridas se, como é possível, a CPI dos Correios for arquivada. Ao contrário, ela promete dar o troco em dobro no Senado, onde o governo não tem maioria, fazendo aprovar uma modalidade amplificada daquela e ainda instalando a dos Bingos (leia-se Waldomiro/José Dirceu) assim que o Supremo Tribunal der o sinal verde que o então presidente da Casa, José Sarney, se recusou a dar, muito antes pelo contrário.


 


Em suma, a entrada em cena do Super Palocci só deverá reforçar a percepção de que o governo não quer apurar maracutaias no seu pedaço – pelo menos enquanto não terminarem o inquérito da Polícia Federal e a investigação aberta na Controladoria-Geral da União.