Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Golpismo: jornais cedem ao atraso na opção pelo corporativismo


Quando surge a oportunidade, os jornais brasileiros não titubeiam em apontar o corporativismo das demais instituições como um dos grandes males do estado brasileiro. Na maioria das vezes (seria injustiça não reconhecer), os ataques se justificam – e por um motivo óbvio: o espírito de corpo é sempre o último recurso de grupos sociais ou econômicos que resistem às mudanças que a evolução exige.


Hoje, sábado, todos os jornalões cedem ao atraso na explicação da mal-arranjada menção do presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre ‘golpismo’ da oposição e a comparação de suas dificuldades para governar com a fracassada quartelada da Fedecámaras (a Fiesp venezuelana), de 2002, contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Todos, sem exceção, cedem ao corporativismo e, num lapso coletivo, esquecem-se de dizer que a mídia foi a principal arma da sedição contra Chávez. Sequer mencionam que o líder empresarial do setor de comunicações da América Latina e quinto homem mais rico do mundo, Gustavo Cisneros, liberou os sinais de suas redes de rádio, televisão, jornal e internet para os golpistas. O camarada empresário Pedro Carmona Escanga, presidente da Fedecámaras, que sentou na cadeira de Chávez por pouco mais de 48 horas, também é mencionado superficialmente. Não há uma vírgula que o desaponte, nem qualquer citação à ‘fraude jornalística’ citada pelo colunista Elio Gaspari (leia post anterior) que foi decisiva para a derrubada de Chávez.


A armação das empresas de comunicação foi das mais tenebrosas. Com a rede estatal destituída de sinal de transmissão, as duas redes privadas tentaram transformar espectadores em revoltosos. Nos jornais, as reportagens não escondiam seu alívio com o que parecia ser o fim de Chávez. Até a CNN entrou na farsa com uma ‘entrevista ao vivo’ de Carmona, na qual dizia que ‘os focos rebeldes estavam sob controle’, quando era ele que, na ilegalidade, preparava sua fuga Miami. Os Estados Unidos ficaram sem tinta e com a broxa na mão. Bush apoiou os amotinados primeiro com o silêncio, depois com a defesa aberta do novo governo (inconstitucional) de seu subsecretário de Estado para a América Latina, Roger Noriega.

O que levou Chávez de volta ao poder para o qual foi eleito deveu-se principalmente à reação regional de vários governos vizinhos da Venezuela, principalmente o de Fernando Henrique Cardoso, no Brasil, e Ricardo Lagos, no Chile. Eduardo Duhalde, então recém-empossado para gerir a falência da Argentina, também não reconheceu o governo dos golpistas. O golpista Carmona deu no pé, primeiro para Miami, depois para a Colômbia, de onde continua conspirando.


Tudo isso é história que os jornais deixam de contar para não reconhecer erros de seus pares. Não apontam a quebra da normalidade democrática, e optam pelo atraso. Cedem ao corporativismo poupando as empresas-irmãs da Venezuela.

Um passeio pelos trechos dos jornais que ‘explicam’ a menção feita por Lula mostra a conveniente desmemória dos grupos empresariais que controlam a mídia no Brasil.


Folha de S.Paulo



Oposição promove ‘golpismo’, afirma presidente no Uruguai
CLÁUDIA DIANNI
FLÁVIA MARREIRO
ENVIADAS ESPECIAIS A MONTEVIDÉU


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que seus adversários estão ‘tentando fazer golpismo’ contra ele, a exemplo da ação que resultou na queda momentânea de Hugo Chávez na Venezuela, em 2002.
Ao deixar a 29ª Cúpula do Mercosul ontem, em Montevidéu, que incorporou a Venezuela ao bloco, Lula disse que seus adversários dizem que ele age como o presidente Chávez, mas que, na realidade, são eles que se comportam como a Fedecámaras, instituição empresarial que orquestrou o golpe contra Chávez em 2002.


A comparação foi motivada por uma entrevista dada pelo presidente à revista ‘Carta Capital’ que começou a circular ontem. ‘O Chávez é o Chávez, e eu sou eu. Agora, eles estão agindo no Brasil como a Fedecámaras agiu na Venezuela, sem respeitar o jogo da democracia’, disse Lula à revista.
(…)
A Fedecámaras é a união nacional das indústrias venezuelanas, equivalente à CNI (Confederação Nacional da Indústria) no Brasil. Em 2002, o então presidente da instituição, Pedro Carmona Escanga, organizou uma greve geral no país que culminou com um golpe contra o governo de Chávez com a colaboração dos generais da Força Armada Nacional.


Chávez foi enviado a uma ilha no Caribe, onde foi preso, e seria enviado para fora do continente por seus opositores. Mas o golpe durou apenas 48 horas. A população saiu às ruas para protestar e militares de baixa patente desobedeceram às ordens dos superiores. Um helicóptero resgatou Chávez da prisão na ilha e o venezuelano voltou ao poder. Carmona está exilado na Colômbia.





Jornal do Brasil



‘Lula: oposição faz golpismo’
COM AGÊNCIAS


(…)
A comparação foi motivada por uma entrevista concedida pelo presidente à revista Carta Capital, que começou a circular ontem.
– Fico pensando que um dia a história vai julgar o que aconteceu em 2005. Como sou defensor da liberdade de imprensa, concluo: ´´Juiz será o leitor´´. Um dia levantaram: ´´Ah, o Lula está indo para a rua porque quer imitar o Chávez´´. O Chávez é o Chávez e eu sou eu. Agora, eles estão agindo no Brasil como a Fedecámaras agiu na Venezuela, sem respeitar o jogo da democracia. Você pode não gostar do Chávez por ´n` motivos, agora, o cidadão faz uma eleição, faz uma Constituição, faz um referendo, ganha o referendo, faz outro referendo, e ainda assim acham que não é democrata? – disse Lula à revista.


Depois de conversar sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, Lula respondeu a uma pergunta sobre a comparação feita à Carta Capital.
– Tem alguns que ficam dizendo que eu, quando vou fazer um ato público, ajo como se fosse o Chávez. Não estou agindo como o Chávez. Agora, os meus adversários estão agindo como agiu a Fedecámara contra o Chávez, tentando fazer golpismo – afirmou.


A Fedecámara é a união nacional das indústrias venezuelanas … (repete descrição da Folha com as mesmas palavras)





O Estado de S.Paulo



Lula chama oposição de golpista e diz que não age como Chávez
DENISE CHRISPIM MARIN
ARIEL PALACIOS
Em seu ataque mais duro à oposição desde o início da crise política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que seus adversários são golpistas. Durante rápida entrevista à saída de reunião de cúpula do Mercosul, ele comparou o modo de agir de seus opositores ao dos setores que, em abril de 2002, conseguiram derrubar temporariamente o coronel Hugo Chávez da presidência da Venezuela, em abril de 2002. Foi a primeira vez que afirmou publicamente que vê, na atitude dos adversários, um componente antidemocrático e desestabilizador.


‘Alguém fica dizendo que eu, quando vou fazer um ato público, ajo que nem o Chávez. E eu digo: não estou agindo como o Chávez. Agora, os meus adversários estão agindo como a federação contra o Chávez’, afirmou Lula, referindo-se à Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela (Fedecámaras), a maior entidade empresarial do país e também o foco de maior resistência à eleição de Chávez. ‘Ou seja, eles estão tentando o fazer golpismo.’
Em abril de 2002, o presidente da Fedecâmaras, Pedro Carmona Escanga, foi o principal articulador do golpe de Estado que derrubou Chávez e o levou à prisão. Sem apoio internacional, Carmona acabou destituído dias depois, e Chávez retomou o poder. O líder empresarial refugiou-se na Colômbia, mas a Fedecámaras prosseguiu sua atuação antichavista. Suas iniciativas foram mais contundentes durante o plebiscito do mandato de Chávez, em agosto passado, que igualmente confirmou a permanência do coronel no poder.


Até o momento, Chávez valeu-se desse mal sucedido golpe de Estado e da oposição cerrada dos setores empresariais como argumento para posar de vítima e para justificar seus recorrentes ataques contra os Estados Unidos, a quem acusa de patrocinar as campanhas e iniciativas da oposição.
O presidente venezuelano vinha sendo, na prática, o ‘titular’ dessa posição de vítima das pressões adversárias – no caso, externas – à qual parece aderir, agora, o presidente brasileiro. Desde o retorno da democracia ao Brasil, soube-se de um único caso em que um presidente expressões temores de um golpe de Estado: foi Itamar Franco, em declarações desmentidas no dia seguinte





O Globo



Lula acusa oposição de golpismo
CRISTIANE JUNGBLUT
Enviada especial MONTEVIDÉU



O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou ontem seus adversários políticos de golpistas ao afirmar que a oposição no Brasil age como a Fedecámaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), que é contra o governo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e já deu um golpe que o tirou do poder por 48 horas. Amigo de Chávez, o presidente rechaçou comparações com o colega, mas considerou que a oposição brasileira atua de forma semelhante à venezuelana, apesar de as denúncias de corrupção contra seu governo e o PT terem partido de um aliado, o ex-deputado Roberto Jefferson.
Os ataques de Lula provocaram forte reação da oposição, que ameaçou não votar o Orçamento de 2006 este ano e ainda ajudar a aprovar, na CPI dos Bingos, a convocação do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para que explique denúncias de corrupção em sua gestão.
O presidente fez a acusação durante rápida entrevista ao término da 29ª Cúpula do Mercosul, encerrada ontem na capital do Uruguai.
(…)
A Fedecámaras faz uma oposição sistemática a Chávez e esteve diretamente envolvida na tentativa de golpe na Venezuela, em abril de 2002. Na ocasião, o golpe foi liderado por Pedro Carmona Estanga, então presidente da Fedecámaras. A confusão durou 48 horas, mas Chávez, com a ajuda dos militares, voltou ao governo e ao Palácio de Miraflores. Carmona se refugiou na Colômbia.
No plebiscito de agosto de 2004, que decidiu sobre a permanência de Chávez como presidente da República, novamente a Fedecámaras defendeu o voto ‘Não’. Mas Chávez saiu vencedor, com a vitória do ‘Sim’ ao seu governo. No último domingo, houve eleição na Assembléia Nacional, quando a oposição boicotou e não participou, o que garantiu a maioria para Chávez no Parlamento. (…)





De todos os trechos acima, apenas O Globo cita que uma das razões do ‘golpismo’ mencionado por Lula pode estar no impedimento sistemático que o PSDB e o PFL estão patrocinando contra a apreciação e votação do Orçamento Geral da União do ano que vem. A matéria está sendo bloqueada há dez dias no Congresso, e tem, hoje, apenas 21 dias (contando sábados, domingos, e a folga das Festas) para ser votada.


Hoje, o boicote ao Orçamento também é lembrado no editorial do O Estado de S.Paulo, ‘Respeitem o orçamento’, de leitura recomendada, apesar de poupar os partidos de oposição de adjetivos do mesmo calibre que reserva ao governo . O jornal anota que, nos últimos 15 anos, o Brasil entrou no ano novo sem a votação da proposta orçamentária, e emenda:



Desta vez a explicação é a crise política. A oposição prefere atrasar a votação da proposta orçamentária para forçar a convocação do Congresso em janeiro. Assim, as comissões de inquérito poderão trabalhar normalmente e a atenção do público não será desviada. O governo, em princípio, rejeita a convocação, mas com isso se arrisca a adiar seu programa de investimentos.


Além do mais, será preciso pagar um bom dinheiro extra aos parlamentares, se o presidente os convocar para trabalhar no recesso. Isso seria malvisto pela maioria dos cidadãos. Há um nó complicado, portanto, e é preciso desatá-lo.


No meio desse jogo, é fácil esquecer um dado fundamental. O orçamento público é um instrumento de governo e não apenas deste ou daquele governo. A máquina oficial pode até funcionar parcialmente sem uma lei orçamentária, mas só poderá realizar os gastos obrigatórios e manter a prestação mínima de serviços indispensáveis. Isso é bem pouco, especialmente num país carente de infra-estrutura e necessitado, em grau extremo, de maior ação governamental em várias frentes.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem um motivo a mais – além daqueles ditados pelo senso comum – para querer cuidar dos investimentos logo nos primeiros meses. Em ano de eleição, é preciso fazer deslanchar os projetos com rapidez, porque há limites legais para a contratação de despesas.


Há, portanto, um componente eleitoral na pressa do governo, mas isso não é justificativa legítima para a criação de empecilhos como a obstrução dos trabalhos parlamentares, anunciada pela oposição. Se os investimentos forem úteis ao País – esse é o critério razoável de julgamento -, será errado impedir ou atrasar sua realização. Se forem maus projetos, a oposição poderá denunciar a tentativa de esbanjamento de recursos públicos. Poderá, de fato, combater os projetos meramente eleitoreiros nos próximos dias, se houver um esforço para a aprovação do orçamento antes do fim do ano.


Neste ano, como em ocasiões semelhantes, não se pode atribuir o atraso na tramitação do orçamento à falta de tempo. Se algo faltou, foi um real interesse na discussão de um componente fundamental da vida pública, especialmente nas democracias ocidentais modernas. Governo e oposição falharam, mais uma vez. Deveriam ter sido capazes de isolar dois aspectos de seu trabalho. Não deveriam ter deixado o trabalho das comissões de inquérito interferir nas atividades essenciais ao funcionamento das instituições.


Crises políticas em democracias bem estabelecidas não impedem a discussão e a negociação de projetos orçamentários ou de outras matérias fundamentais para a vida normal da sociedade. A operação normal das finanças públicas é tão essencial à vida cotidiana quanto os serviços de água, saneamento, energia, ensino e assistência médica. Tudo isso é de uma obviedade constrangedora, mas é necessário lembrar as obviedades quando os homens públicos parecem esquecer suas obrigações mínimas.


Só há uma solução sensata para o imbróglio. O primeiro passo é tentar concluir a discussão do projeto e aprovar o orçamento antes do fim do ano. Se for preciso, prolongue-se a atividade normal dos parlamentares até o último dia de dezembro. Esse esforço é apenas uma obrigação elementar. Se não for suficiente, caberá ao Congresso a autoconvocação, sem remuneração extraordinária, para a aprovação da proposta de lei orçamentária nos primeiros dias do ano.


O funcionamento do Conselho de Ética e das Comissões de Inquérito pode ser politicamente importante, mas é uma questão de conveniência. O confronto entre oposição e governo em torno desse ponto é um fato normal da vida democrática. O anormal, numa democracia madura, é tratar o orçamento como questão secundária e subordinada, na sua tramitação, aos interesses político-eleitorais. Oposição e governo devem brigar pelo tamanho e pela destinação de recursos do orçamento. Deixar o País sem lei orçamentária, sem que exista para isso uma causa extraordinariamente importante, é o descumprimento de um dever.