Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Homem mordeu cachorro

As lentes que servem para observar a imprensa têm, entre outras, função semelhante à das lentes que a imprensa usa para observar a realidade.

A mídia perscruta o mundo à procura do que nele seja “notícia”, conforme uma pá dos tais critérios jornalísticos, ou nem tanto (mas essa é outra história).

Um acontecimento inusitado, por exemplo. Conforme a velha regra, cachorro que morde homem não é notícia; o contrário, sim.

Do mesmo modo, o leitor profissional percorre um jornal ou revista – a realidade de que ele se ocupa – de olho também no que possa haver de diferente na edição que manuseia.

É um garimpo mais difícil do que o anterior. Sabendo onde procurar, acha-se todo dia na vida real pencas de situações do tipo “homem morde cachorro”. Já na mídia, a mesmice prevalece. Mesmo quando os fatos de que ela se ocupa são incomuns, a sua abordagem tende a ser óbvia, rotineira, cansada.

Mas nesta quinta-feira há uma “notícia” no Estadão. Meia dúzia de páginas depois de um daqueles editoriais caracteristicamente agressivos contra as figuras públicas que o diretor Ruy Mesquita abomina – no caso, o governador paranaense Roberto Requião -, surpresa: numa sóbria e bem-editada matéria do repórter Fausto Macedo, aparece o próprio invectivado dando (ontem) a sua versão dos fatos que motivaram o editorial publicado (hoje).

[Ver, neste blog, “TV Educativa não é ringue”].

“Sou um governador amordaçado”, diz Requião na passagem da entrevista que daria o título de página inteira da reportagem. “Denunciei supersalários, aí surgiu a ação da censura”.

Ontem, Requião não podia saber que o jornal sairia hoje com um editorial sobre o caso. Mas podia prever o que diria, se e quando saísse.

Por isso, não poupou o jornal:

“Fico mais triste ainda quando vejo que jornais como o Estadão festejam tudo isso [a proibição, determinada pelo juiz federal Edgar Lippmann Jr., de usar a TV Educativa do Estado para criticar políticos e membros do Ministério Público e do Judiciário]. Não gostam das minhas posições. Eu sou nacionalista, um governador aguerrido em defesa do interesse público, combato com dureza a corrupção. E vejo a imprensa se colocar contra mim porque não cedi a uma pressão para gastar recurso do erário em comunicação […].”

Deu sorte o leitor, portanto. Pode, na mesma edição, comparar o que o Estado diz do governador e o que ele diz do Estado.

Pela raridade, isso é notícia.