Thursday, 13 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1291

Hora de pensar no futuro

Pergunta de uma leitora um tanto distraída, diante da nota emitida por Marcos Valério: se tudo que ele fez foi emprestar ao PT dinheiro de suas empresas, “a pedidos” de Delúbio Soares, dentro da lei, e “não tem conhecimento, muito menos envolvimento’ com o mensalão, por que ele não disse isso logo que foi denunciado por Roberto Jefferson?

A nenhum dos grandes jornais parece ter ocorrido fazer hoje a mesma singela indagação. Quem mais perto chegou de chamar a atenção para o fato de que está se montando uma farsa – que a meu ver não aguentará um assoprão bem dado – foi o colunista Valdo Cruz, da Folha.

O primeiro objetivo de Valério, argumenta Valdo, é “blindar ainda mais o presidente Lula”. E o segundo, simultâneo, pode-se acrescentar, é blindar a si mesmo: pela versão dele, destaca o colunista, “os recursos não seriam nem de contratos publicitários irregulares nem de empresas que fariam doação utilizando as empresas de Marcos Valério como laranjas”.

Na semana entrante, Delúbio vai depor na CPI. No que a todo mundo e seu pai pareceu um jogada ensaiada com Valério, o ex-tesoureiro disse ao procurador-geral da República que todas as campanhas de candidatos petistas, menos a de Lula, foram financiadas pelo caixa 2. Também Valério voltará à CPI.

Mas não é preciso esperar os seus interrogatórios para se começar a pensar no futuro. Vamos chamar as coisas pelos nomes: Delúbio era homem de Dirceu. É impossível ter ele feito seja lá o que for no seu departamento à revelia dele. Idem no caso do ex-secretário Sílvio Pereira.

Quando a crise não era uma fração do que está aí, a Veja atribuiu a Dirceu o que poderá vir a ser a inscrição na sua pedra tumular como figura política: “Não há hipótese de uma CPI minimamente bem feita não apanhar o Delúbio e o Silvinho.” E ele, por extensão.

Será que há hipótese de “não apanhar” o presidente Lula? Cada qual traduza como queira o verbo apanhar. Mas, conforme a resposta que os fatos derem a essa questão, o futuro sobre o qual definitivamente chegou a hora de pensar poderá ser criação do Coisa-Ruim para provar, como se precisasse, que Deus não é brasleiro.

P.S. Já que estamos em maré de perguntas, mais uma: será que existe mesmo um abismo cósmico entre qualquer dos trogloditas que arrebentaram a avenida Paulista na madrugada de ontem e a distinta cliente da Daslu que disse, depois de tudo que veio à tona sobre as práticas de sonegação da loja, que “a gente vai continuar vindo e comprando até mais para ajudar a Eliana”?