Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Lobby contra dólar barato ressuscita nos jornais. Mas, mais uma vez, números derrubam argumentos

O lobby contra o dólar-livre voltou a se mover na grande imprensa. O tiro de largada foi dado anteontem, no Valor Econômico, repicou ontem no O Estado de S.Paulo e já está em voga novamente. Hoje, a ameaça do dólar barato continua em destaque, sem exceção, em todas as colunas de economia dos jornalões. A maioria pede a urgente intervenção do Banco Central no mercado financeiro, fazendo eco às queixas dos setores da indústria que vêem na valorização do real um perigo para a balança comercial. A saída, dizem, é o BC comprar dólares no mercado interno para tentar interromper a valorização do real, causada principalmente pelo excesso de moeda norte-americana no Brasil.

A gritaria esconde outro receio dos vários setores industriais que dizem ter investido pesado na ampliação das exportações e, agora, correm o risco de perder clientes no exterior e enfrentar concorrência externa no interior, com prejuízos na certa para muito breve. Todos acenam com o aumento do desemprego, particularmente os setores que estão sendo obrigados a enfrentar a avassaladora máquina de exportação chinesa.

Não há setor manufatureiro, seja no Brasil ou em qualquer país do mundo, que não tema a inundação de produtos chineses. Têxteis, confecções, calçados, eletrodomésticos, som e imagem, além de uma infinidade de produtos e aparelhos, estão entre os mais ameaçados.

O lobby contra o dólar recomeçou meio atrapalhado no Valor de anteontem, com o truque – facilmente identificado – que residiu na inclusão e exclusão de uma palavrinha do quê foi dito pelo presidente da Ford do Brasil, Antônio Maciel Neto, durante encontro de ministros brasileiros, altos executivos de multinacionais, empresários e diplomatas, nos Estados Unidos.

Um advérbio condicional – ‘certamente’ – fez a diferença.

Na primeira página, sob o título ‘Dólar recua para R$ 2,251 e cresce a pressão sobre o BC’, assinada por Tatiana Bautzer, Raquel Salgado e Luiz Sérgio Guimarães, De Washington e São Paulo, o jornal publicou que ‘Maciel Neto, disse que ‘a atual taxa de câmbio reduzirá as exportações de manufaturados’ e representa ‘pressão tremenda’ sobre as montadoras’.

Na reportagem, muda o tom: ‘Maciel, disse numa palestra que ‘a atual taxa de câmbio certamente reduzirá as exportações de manufaturados’’.

Como pode ser visto, a inserção do apêndice incerto na boca do presidente da montadora sobre uma hipotética situação futura faz uma tremenda diferença.

Na Gazeta Mercantil, a pressão expressa na manchete principal do Valor Econômico ganhou menção apenas na última linha da reportagem ‘Maciel reitera que Ford decide neste ano se fará produto de entrada’. Carente de informações consolidadas, mas com alguns indicadores esparsos interessantes, a reportagem traz:

. a montadora ampliou sua participação no mercado interno de 8% para 13% nos três últimos anos (salto de 62,5% no pulo de 8 para 13)
. a expansão na produção foi mantida neste ano, com crescimento de 28%
. as exportações subiram de US$ 1,1 bilhão, no ano passado, para US$ 1,3 bilhão, neste ano

Sobre exportações, a Gazeta traz: ‘Maciel acrescentou ser possível que em 2006 as exportações recuem, caso o real continue a se valorizar frente ao dólar’.
O centro da preocupação exposto pelo jornal é outro: Maciel diz que a Ford não tem ‘carro de entrada’ para oferecer ao consumidor brasileiro, e este é o segmento que mais cresce no mercado.

Como na onda anterior  que comandou contra a desvalorização do dólar, o Valor Econômico ficou devendo números convincentes para sustentar a intervenção urgente do BC no mercado financeiro.
Apesar das queixas dos empresários, os números apontam para o oposto e a balança comercial continua registrando recordes.

Os jornais não dizem com todas as letras que a intervenção que se exige do Banco Central não representa todas os setores industriais, nem que a paridade da moeda nacional ao dólar, seja qual for o país que órbita em torno da economia dos EUA, como é o caso do Brasil, é uma decisão soberana dos países – desde que haja recursos ou modelo econômico que viabilize a estratégia.

A China, por exemplo, manteve sua moeda com o mesmo valor durante de dez anos, e só valorizou o iuane, ha poucos meses, depois de mais de um ano de pressão dos EUA, que compram 22% de tudo que a China vende ao exterior.
Para sustentar a pressão, o estado comunista chinês estabeleceu que os investimentos diretos no país só poderiam ser realizados em moeda nacional, obrigando os investidores a converter o dinheiro que traziam em iuane nos guichês do governo. Com média anual de investimentos diretos de US$ 50 bilhões na última década, o governo encheu os cofres de dólar e se tornou um dos maiores compradores e estocadores de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que também lhe rendeu lastro para impor o valor que quisesse para sua moeda.
Mas, além dólares e o maior mercado consumidor do mundo, a China tem um estado ditatorial comunista, que não dá oxigênio para que movimentos reivindiquem mudanças na política econômica, por exemplo. O governo impõe dentro e fora. Entre os chineses, quem têm juízo obedece – do contrário, pode encarar até pena de morte; para o resto do mundo quem quiser explorar o mercado chinês, que atenda às suas exigências – do contrário, não vende.

Ontem, os setores que pedem a intervenção do Banco Central voltaram à carga no O Estado de S.Paulo – e com números. Não foram apresentados, mais uma vez, os efeitos danosos do real valorizado – mesmo porque, os números indicam o oposto – mas sim uma pesquisa que sustenta a primeira página do caderno de Economia, em ‘Exportadores temem real valorizado’. O jornal resume: ‘Pesquisa inédita feita pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) com 841 empresas do setor indica que a desvalorização da moeda nacional seria a principal medida capaz estimular fortemente as vendas externas. Em questionário de múltiplas respostas, a medida foi a mais defendida pelos empresários, com 46% das citações. Em seguida, vieram a desoneração completa das exportações (38%) e a diminuição da burocracia (37%)’.

A exposição dos percentuais estão acompanhada por avaliações de diretores da Ciesp, que vem a ser um anexo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Assim como aconteceu quando o dólar começou a cair abaixo dos R$ 3, as poucas fontes ouvidas corroboram os números da pesquisa que antecipa tempos tenebrosos, caso o governo aja imediatamente e não compre dólares para reverter a valorização do real. Esse mesmo cenário assustador foi apresentado quando a moeda norte-americana atingiu os R$ 2,70, quando caiu para R$ 2,50, R$ 2,30 – e agora pode bater nos R$ 2. Desde janeiro, caiu 15,8%.

O medo impresso nos jornais, durante esta semana, veio acompanhado por reportagens que sublinhavam que a cotação atingira o mesmo valor de maio de 2001. Nenhum jornal ou coluna, entretanto, se deu ao trabalho de mostrar a quantas andava a economia brasileira quatro anos atrás, para que o leitor pudesse ao menos imaginar a gravidade da ameaça. Como ocorre nas reportagens e artigos que tratam da polêmica e dão voz aos setores atingidos, mais uma vez faltaram os números.

O assunto é polêmico, e pode render dias seguidos de discussão entre os economistas que atendem e escrevem para a imprensa – sejam quais forem os interesses que defendam. Mas, por falta de informação ou excesso de preguiça, os jornais não estão conseguindo provar a veracidade dos porta-vozes do lobby, que podem até ter razão em suas previsões assustadoras.

A impressão que fica – principalmente porque os números mostram exatamente o contrário – é que os setores afetados impuseram um discurso oco aos jornais, elegendo a valorização do real como inimiga, quando, na verdade, querem se esconder de outra inimiga muito mais perigosa: a concorrência da China.

A voz isolada do colunista Celso Ming, que não embarcou na onda crítica dos colegas de outras colunas, lembra que a compra de dólar os setores atingidos exigem também tem seu preço. O primeiro é a eficácia da medida em si. Depois de meses de ausência no mercado, o BC voltou a comprar dólares em março passado – e o resultado foi zero. O dólar não saiu do lugar. Em compensação, cresceu a dívida pública.

Diz Celso Ming em sua coluna de hoje, ‘Vertigem Cambial’:

‘Aflitos, exportadores e consultores desfilam recomendações destinadas a blindar seus interesses contra a valorização do real: compra de dólares pelo Banco Central ou pelo Tesouro; redução drástica dos juros; e restrição à entrada de capitais.
Se fossem postas em prática, essas sugestões teriam eficácia limitada ou produziriam efeitos colaterais. A compra de dólares tem custo fiscal: exige contrapartida em recursos ou eleva a dívida pública.

A redução dos juros é bemvinda e é recomendação correta como execução de política monetária, mas de duvidoso retorno na área cambial. Parte do pressuposto de que o câmbio só está derretendo porque bancos e empresas estão fazendo operações de arbitragem de juros. Ou seja, porque levantam empréstimos externos mais baratos ou para evitar a tomada de empréstimos mais caros no mercado financeiro interno. Enfim, seria essa entrada de dólares que estaria contribuindo para a derrubada das cotações do câmbio.

Não dá para negar que os empréstimos estão chegando do exterior em maior volume e melhor preço. Nesse sentido, contribuem, sim, para a valorização do real. Mas é improvável que, ao longo deste ano, a entrada líquida de capitais de empréstimo seja superior a R$ 20 bilhões. No entanto, só de superávit comercial (exportações menos importações) teremos este ano algo em torno dos US$ 43 bilhões’.
Recomenda-se a leitura na íntegra.