Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Lula lesou a mídia nacional

É uma ofensa à imprensa brasileira a entrevista de 11 minutos que o presidente Lula deu na sexta-feira à jornalista Melissa Monteiro, que trabalha para uma TV francesa. A TV Globo, que exibiu a entrevista ontem no Fantástico, diz ter comprado os respectivos direitos.

Lula se recusou a falar sobre o Brasil aos enviados especiais e corrrespondentes brasileiros na França.

O máximo que dele um jornalista brasileiro conseguiu arrancar, andando ao seu lado, foi o desastrado comentário de que “o Brasil não merece o que está acontecendo”.

O jornalista foi Mario Sergio Conti (ex-Veja). Ele mora em Paris e frila para a BandNews e o Estadão. O comentário foi desastrado porque a oposição apanhou imediatamente o mote para glosar o governo Lula. A frase vai render.

Pela data e pelo conteúdo, a entrevista tem o mesmo cheiro da armação construída pela dupla Delúbio-Valério, em dias sucessivos, na Procuradoria-Geral da República e no Jornal Nacional.

Ainda não conheço a “inside story” da entrevista. Não conhecendo a história, não tenho elementos para dizer se a jornalista brasileira participou conscientemente de uma operação preparada pelo Planalto para reforçar a blindagem em torno de Lula. Não quero julgar pelas 7 perguntas feitas.

Mas elas estão mais para levantada de bola do que para encostada na parede.

Exemplos: “Infelizmente o Brasil atravessa uma nova crise política, nós já atravessamos outras crises no passado, ligadas a corrupção. Quando é que o Brasil vai se livrar definitivamente dessa doença, qual é a cura definitiva?”, “O senhor acredita que há males que vêm para o bem?”, “O senhor estima que tem alguma culpa nesta crise do PT e do país?”

Agora vejam só. O que Lula diz em Paris bate rigorosamente com o que Valério disse na sexta e Delúbio no sábado à Globo. Domingo o presidente investe a sua credibilidade na versão valeriano-delubiana, já apelidada de Operação Paraguai.

Hipótese. Todo esse raciocínio é furado. Lula só disse a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade à jornalista Melissa. Mas fica a pergunta escancarada: por que dar uma entrevista sobre a crise brasileira a uma jornalista que trabalha para a TV francesa? E isso depois de criar um verdadeiro cordon sanitaire em torno de si durante a sua estada em Paris para que a imprensa brasileira não tivesse ocasião de aborrecê-lo.