Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

No saguão do hotel, rolou uma enrolação

“Vai rolar”, anunciou com um sorriso o porta-voz do presidente, André Singer, para confirmar que Lula ía se deixar entrevistar pelos jornalistas que o acompanhavam em mais essa viagem ao exterior.

Era noite de segunda-feira, e o presidente havia acabado de jantar com o seu homólogo anfitrião, Óscar Berger, na Cidade da Guatemala.

Quando os repórteres pediram para entrevistá-lo começou a rolar então um clima de família reunida, todo mundo numa boa, que terminaria numa ruim – com um ato de desrespeito do chefe de Estado na pele de pater familias.

A primeira reação de Lula ao pedido foi fazer uma brincadeira. “Só se o André deixar”, disse. Pelo relato do enviado especial do Estadão, Leonencio Nossa, na edição de hoje, os jornalistas se comportaram como um bando de crianças, quando a mãe (ou o pai) diz que só dá o doce se o pai (ou a mãe) deixar: ““Ele deixa, presidente”, responderam os repórteres.””

Foi aí que o contido porta-voz se permitiu a sorridente condescendência do “vai rolar”.

O rolamento, na tarde de ontem, não teve lugar em algum auditório, como nas conferências de imprensa de presidentes que se prezam e até interesseiramente prezam a opinião pública a que se dirigem em última análise.

Foi no saguão do hotel, quando Lula já se dirigia para o carro que o levaria ao aeroporto, de onde seguiria para Nova York. Foi uma rapidinha: 5 minutos e 25 segundos cronometrados pelo diligente Leonencio. E foram 8 perguntas e 7 respostas – pura enrolação, com algumas pitadas de bazófia.

Uma: “Fosse outro presidente que estivesse vivendo estas circunstâncias, possivelmente estivesse [sic] abaixo de zero” [a aprovação a Lula caiu de 60% para 50% em dois meses, segundo pesquisa do instituto Sensus hoje na imprensa.]

Outra: “O PT tinha mais era obrigação de pagar a minha passagem.” [O Estadão divulgou no domingo que recursos do Fundo Partidário, dinheiro público portanto, custearam despesas do casal da Silva, dos seus filhos e acompanhantes e ainda do ministro Palocci, que mais do que depressa disse que iria devolver o valor recebido indevidamente.]

E aí se chega ao fecho inglório da não-entrevista. Repórter: “O senhor poderia dizer quem o traiu?”

Do enviado do Estado: “Lula se retira. O repórter volta a fazer a mesma pergunta, mas o presidente não a responde.”

É evidente que, para usar o lulês, ele tinha mais era obrigação de responder. Nem o deputado Severino deixou perguntas no ar na coletiva de domingo.

A única explicação possível é que Severino sabia que está com a corda no pescoço e Lula, imaginando-se invulnerável, só fala o que quer, quando quer e para quem quer – e não pode retrucar.

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