Friday, 12 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1283

O NYT voltou a Anapu. E a nossa mídia?

Coisa difícil de digerir para um jornalista é topar com uma matéria sobre assunto nacional feita – e bem feita – por um correspondente estrangeiro.

É o caso da reportagem de Larry Rohter, no New York Times de hoje, sobre o que mudou – ou melhor, não mudou – em Anapu, sete meses depois do assassínio da freira americana Dorothy Stang.

“Promessas grandiosas depois da morte de freira se revelam ôcas”, diz o título. “Fé em um futuro melhor e mais seguro está desaparecendo”, começa o texto. [Vale a pena ler a tradução em português no site www.uol.com.br]

Rohter é bom no tipo de matéria “o que aconteceu depois”. Passado um ano da visita e das promessas do presidente Lula à favela Brasília Teimosa, no Recife, numa de suas primeiras viagens como chefe de governo, acompanhado de grande comitiva ministerial, o repórter foi ver se algo tinha mudado ali. Descobriu que nada mudou.

Não é preciso ter uma imaginação fora do comum para sacar pautas do gênero. Mais uma razão para estranhar não serem feitas por jornalistas brasileiros, substituíndo, nas edições de domingo dos jornalões pelo menos uma das entrevistas pingue-pongue de que estão saturadas.

Claro que entrevistar é mais barato e mais cômodo do que gastar sola de sapato, em lugares não propriamente aprazíveis, atrás de fatos, sobretudo quando não falta quem queira escondê-los, como na região paraense dominada por grileiros, madeireiros e seus capangas. Por isso se diz que entrevistas demais numa publicação é sinal de jornalismo preguiçoso.

Por falar em apurar fatos atrás dos quais é preciso ir, a Folha deu ontem, com justo destaque, uma história de racismo e homofobia em Curitiba. Trata do aparecimento, no centro da cidade, de adesivos repugnantes.

Num deles se lê: “Mistura racial? Não, obrigado. Orgulho Branco.” Em outro, “Homossexuais molestam crianças”, mostrando uma pessoa jogando ao lixo as letras GLS, e a legenda “Grato”. O Ministério Público Federal investiga o caso.

Se o jornalismo brasileiro hoje em dia fosse menos declaratório e mais apuratório, seria de esperar que daqui um tempo algum órgão de mídia apareceria com uma reportagem reveladora sobre esse tal de Orgulho Branco ou sobre o terrorismo antigay.

Grupelhos racistas e homofóbicos existem em não poucas cidades brasileiras. Expô-los é uma pauta legítima para a mídia e um serviço de utilidade pública.

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