Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

O problema não são os atos. São os desmentidos

Está na hora de a mídia fazer a comparação inevitável.


Em 1997, a oposição tentou destituir o então presidente Bill Clinton não porque ele se entregou a folguedos extra-conjugais com a estagiária Monica Lewinsky, mas porque mentiu ao depor publicamente sobre isso.


Agora há pouco, antes que uma liminar do Supremo, pedida pelo PT, suspendesse o depoimento à CPI dos Bingos do caseiro da República de Ribeirão Preto em Brasília, Francenildo Costa, ele disse que confirmava ‘até morrer’ tudo o que declarara em duas entrevistas sobre a presença do ministro Antonio Palocci naquele verdadeiro clube privé.


Quando falou à mesma CPI, Palocci só faltou jurar que nunca pôs os pés na mansão. Contraditado pelo caseiro, que afirmou tê-lo visto chegar ali quase sempre guiando ele mesmo um carro com vidros escurecidos, o ministro disse que não guiava em Brasília. Quem o transporta pela capital, além do motorista da Fazenda, é a sua mulher, Elizabeth.


Como deu no Estado de hoje, ‘Palocci vive refazendo versões’.


No Congresso, o baluarte paloccista acaba de desmoronar: os tucanos, seus maiores aliados, entregaram o ministro à própria sorte.


O que definitivamente sugere que Francenildo diz a verdade e Palocci não é um ‘pequeno detalhe’, como escrevem os jornalistas de mal com o idioma.


Trata-se do episódio descrito pelo caseiro em que o ministro precisou lhe pedir pelo interfone que o ajudasse a sair do casarão de tolerância. Saiu, simbolicamente aliás, pela porta dos fundos.


Por mais que a mídia deva respeitar a intimidade alheia e por mais que não haja provas de que Palocci frequentasse a mansão para participar das maracutaias – financeiras, bem entendido – de sua tchurma, já não dá para escrever sobre o imbróglio sem dizer por que Palocci ia lá, até nos fins de semana, e por que a patota deixava que ele usufruísse da casa sozinho. Em termos, bem entendido.


E sem dizer por que o seu velho amigo e companheiro Rogerio Buratti o acusou na polícia de receber um mensalinho da Leão & Leão, que prestava serviços à prefeitura de Ribeirão, e ele, Palocci, não só não o processou, como ainda a ele se referia com delicadeza e circunspecção.


Os franceses têm uma expressão que resume perfeitamente a encrenca da qual se duvida que o ministro consiga sair inteiro – muito menos pela porta da frente. A expressão não é lá muito chic, mas é de uso corrente na Gália:


Histoire de cul.

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