Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Palocci admite erros – e comete mais um

Antes de dizer, no discurso de ontem à Câmara Americana de Comércio (Amcham), em São Paulo, que ‘todos nós temos de pagar pelos erros que cometemos’, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, cometeu mais um.


O erro foi encurralar, literalmente, a imprensa. A menos que se imagine que os seus assessores fazem coisas à sua revelia ou contra a sua vontade, Palocci queria que os jornalistas fossem confinados a uma sala ao lado daquela onde iria discursar, vendo tudo por um telão, como informa o repórter Gabriel Manzano Filho, no Estado de hoje.


‘Os anfitriões tentaram amaciar o clima. Ao final, valeu uma sugestão da Amcham de se criar um espaço à esquerda do palco, onde ficariam fotógrafos e cinegrafistas, a quase 10 metros da mesa onde estaria o ministro’, diz a matéria. ‘O ministro chegou atrasado e entrou por uma porta lateral. Depois de seu discurso de 40 minutos, foi-se embora sem falar com ninguém.’


A vítima do autoritarismo do ministro não foi a imprensa. Foi a sociedade a quem ele, como toda outra figura pública, deve explicações – o que não fez no seu discurso nem pela mídia, impedindo o acesso dos repórteres à sua augusta pessoa.


As explicações devidas, no caso, têm tudo a ver com os ‘erros que cometemos’. Admitidas as faltas, resta saber quais são.


Uma, a esta altura, três testemunhas já apontaram: a sua presença na casa de má fama que a sua patota montou em Brasília.


A outra, derivada dessa, foi ter mentido ao Congresso sobre o fato. (Porque, se não mentiu, onde o erro pelo qual, segundo as suas palavras, tem de pagar?)


No mais, a sociedade que lhe paga o salário tem o direito de saber se ele frequentou a mansão por motivos estritamente pessoais ou se lá esteve para, como se diz, misturar trabalho com divertimento. Considerando os trabalhos que sabidamente ali se faziam, de duas uma: ou errou ao fazer no lugar errado coisas com as quais o público nada tem a ver; ou errou por motivos outros, esses sim de suma gravidade.


Em qualquer caso, numa sociedade que a duras penas vai exigindo dos seus eleitos e companhia bela a separar o público e o privado, o fato de Palocci se queixar de que ‘está mais para o lado do inferno’, enquanto a economia voa em ‘céu de brigadeiro’, é secundário.


O essencial, como ele teria dito quinta à noite ao presidente Lula, segundo o repórter Kennedy Alencar, da Folha, é que ele perdeu as condições políticas de continuar ministro.


Enquanto isso, a tal ponto a Caixa Econômica Federal leva a sua operação de esconde-esconde que até o delegado da Polícia Federal que apura a violação e o vazamento do sigilo bancário do caseiro Francenildo achou que era o caso de denunciar o abafa à imprensa.


P.S. Inadequado o comentário do presidente da OAB, Roberto Busato – que o Estado de hoje usa no título de seu principal editorial – segundo o qual o comportamento do governo em relação ao ex-caseiro Francenildo é ‘coisa de gângster’. Façam os horrores que fizerem, gângsteres são entes privados. Governo é outra coisa. Portanto, se é para acusar, o certo é dizer, como consta aliás do citado editorial que ‘o Estado aparelhado pelo petismo abateu-se sobre ele com uma truculência sem precedentes no Brasil desde o fim da ditadura militar. [Acrescentado às 13h53 de 25.3]


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