Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Polêmica das armas nas maiores revistas traz saudável controvérsia sobre o que é opinião e o que é reportagem

São elementos bastante distintos, mas andam embaralhados na mídia nacional. Ao ler um texto que acredita ser reportagem fruto de apuração rigorosa, o leitor brasileiro está lendo editoriais travestidos de reportagem. A revista Época desta semana passa ligeiramente sobre tema, ao mesmo tempo em que apresenta alguns princípios editoriais das publicações do conglomerado Globo, mas sua intenção maior é cutucar a concorrente Veja. Na Istoé, cuja credibilidade está arranhada depois de seu envolvimento com protagonistas e figurantes das denúncias contra Marcos Valério, o xeque à revista mais vendida no país está na capa. A chamada ‘7 razões para dizer Sim e 7 razões para dizer Não’ remete para Veja a lembrança de que faltou imparcialidade no libelo armamentista da semana passada, não por meio da análise de prós e contras, mas com a desqualificação do referendo do próximo dia 23 – um ‘disparate’, segundo a Veja.

O título da Carta do Editor da Época desta semana , ‘O desafio da imparcialidade’, demonstra boas intenções em separar o joio no trigo e apresenta informações que desarticulam a defesa da concorrente pela venda de armas. O debate tende a esquentar e a produzir novas tomadas de posição. Um dos sinais de elevação da temperatura e do distanciamento entre as maiores empresas de mídia é a justificativa antecipada da revista Veja desta semana em sua Carta ao Leitor, ‘Sintonia com os leitores’.

O texto aponta o de recorde na ‘manifestação dos leitores’ alcançado pela capa ‘7 razões para dizer Não’, dizendo que a redação recebeu 2.306 cartas em seis dias e, de quebra, sem reconhecer enganos da semana anterior quando à conveniência para a realização de referendos. De quebra, o editorial ainda traz o resultado de sua própria eleição – isso sim, um disparate descomunal – em ‘O NÃO venceu entre os eleitores de VEJA’. A revista anuncia a adesão de 59% das mensagens à sua tese pró-venda de armas, como se o fato significasse alguma coisa além do que fato de que 59% das cartas que recebeu contêm opinião favorável ao que a revista publicou.

O resultado poderia ser qualquer um: fosse qual fosse não deixaria de significar coisa alguma – e por uma razão trivial: não há qualquer sinal de rigor científico do levantamento. Em resumo, o resultado das ‘opiniões dos leitores a respeito da tentativa de desarmar a população por referendo popular’ é igual a nada. Faltou decoro no tratamento da matéria.

Da troca de alusões ética jornalística entre as revistas semanais mais vendidas, talvez o leitor saia ganhando, na medida em que todas deverão ser mais transparentes para justificar suas posições de parcialidade ou imparcialidade diante do referendo.