Monday, 17 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Quando são intensas as preferências

Acho que todos conhecem a distinção entre opinião pública e opinião publicada. A primeira é difusa e difícil de identificar com precisão, caso a caso, a não ser em pesquisas ou quando o povo vota.

A segunda é a que aparece na mídia, em manifestações de ambos os lados do balcão (exemplos: um editorial na imprensa e as cartas de leitor a seu respeito; um texto em um blog e os comentários que ele provoca).

Quando a opinião publicada reforça os pontos de vista dos publicadores, estes tendem a chamá-la de opinião pública – o que é uma esperteza. Quando os contesta, deixam de ser considerados significativos porque não se sabe que fatia da população pensa da mesma forma – o que é verdade.

Mas quando se fala na opinião publicada daqueles que não são pagos para exprimir o seu pensamento, nem o fazem a convite específico dos publicadores, geralmente se omite um dado importante que dá um colorido especial, por assim dizer, às idéias que os demais querem compartilhar com o público.

Esse dado é a sua intensa necessidade de se exprimir – porque intensas são antes de mais nada as suas preferências (em relação aos assuntos sobre os quais se exprimem). Explico.

Vamos supor que um artigo na Internet – a arena por excelência do jogo interativo de opiniões – seja lido por 100 internautas. Vamos supor também que o texto mexeu de alguma forma com todos eles, fazendo-os pensar ou sentir – pensar e sentir, melhor dizendo – seja lá o que for.

Mas daí não se segue que todos os 100 se sentirão compelidos a externar seus pensamentos e emoções. Apenas uma parcela – variável, mas sempre pequena – o fará.

Tintas fortes – e reveladoras

Para citar um caso concreto, 52 mil pessoas visitaram pelo menos uma vez este blog no dia 24 de outubro, quando publiquei o artigo “Vitória do NÃO gera surto de plebiscitismo”.

Não há como saber quantas delas o leram de cabo a rabo, quantas apenas bateram o olho nele e quantas fizeram qualquer coisa entre esses dois extremos.

O que se sabe é que o texto gerou algo como 330 comentários – um número expressivo em termos absolutos, mas o equivalente a 0,6% do total de leitores presumíveis.

Aqueles 330 ou tinham tempo ou arranjaram tempo para dar o seu recado, porque lhes era imperativo fazê-lo. E a maioria dos recados continha tintas fortes, indicando a intensidade das preferências dos seus autores.

É isso, penso eu, que os distingue. Eles são defensores aguerridos, ou acusadores aguerridos. Já a grande maioria parece menos combativa – não uso a palavra nem para elogiar, nem para criticar. Portanto, menos motivada a soltar o seu verbo, embora não necessariamente indiferente às questões tratadas no blog.

Ontem, por exemplo, escrevi sobre a pesquisa do Vox Populi segundo a qual não só a confiança dos brasileiros na imprensa aumentou em relação ao ano passado, como também é muito elevada a credibilidade do noticiário sobre a crise da corrupção. [Ver nota abaixo].

Não faltou quem escrevesse para contestar a pesquisa – porque são intensas as preferências desses leitores a propósito do assunto: julgando facciosa, para dizer o menos, a atitude da mídia em relação ao governo – no que têm razão, inequivocamente, no caso da revista Veja – tendem a achar que os que elogiam a imprensa em geral estão sendo ludibriados ou não enxergam um palmo adiante do nariz.

Mas esses outros, provavelmente por estarem satifeitos com a mídia, mas sem a intensidade dos insatisfeitos, não têm a mesma motivação para se pronunciar. É a síndrome da chamada maioria silenciosa, a parcela da opinião pública que não se sente compelida a fazer parte da opinião publicada.

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