Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Reportagem a distância 

Não vai dar certo. E se der certo é porque algo está errado.


 


Um dia desses, James Macpherson, dono do jornal online Pasadena Now – da cidade do mesmo nome, com 140 mil habitantes, a menos de 20 quilômetros do centro de Los Angeles – demitiu os seus sete empregados americanos, entre eles cinco repórteres a quem pagava cerca de US$ 2.800 mensais, e os substituiu por seis indianos.


 


Que moram na Índia.


 


É isso mesmo. Ele terceirizou para o outro lado do mundo, a 10 mil quilômetros de distância, a cobertura de sua cidade.


 


Os free-lancers indianos, que aceitam trabalhar pela miséria de US$ 7,50 por mil palavras de texto, foram contratados a partir de anúncios – na internet, claro. Um deles, no caso uma mulher de Mysore, no sul da Índia, nem se considera jornalista. “Eu tento fazer o melhor, mas nem sempre acerto”, admitiu ela à colunista Maureen Dowd, do New York Times, que conta a história no jornal deste domingo, 30.


 


A “repórter”, por exemplo, imaginou que Rose Bowl fosse um evento gastronômico (Bowl é terrina, prato fundo) e não um importante acontecimento esportivo em Pasadena (Bowl é também estádio).


 


Mas como é que funciona?


 


Pautados por Macpherson e sua mulher, os terceirizados apuram o que se lhes pede, falando com as fontes por telefone, skype e e-mail, depois de mergulhar nos sites e blogues de Pasadena. Na internet eles também pegam press-releases, dados e entrevistas, além de acompanhar as transmissões ao vivo da Câmara Municipal.


 


Com isso eles acompanham desde o trivial variado, como a inauguração da árvore de Natal da cidade, aos assuntos mais quentes, como os debates na Câmara sobre a proibição do uso de sacolas plásticas por lojas e supermercados.


 


Todos, naturalmente, falam e escrevem inglês fluentemente. Nenhum jamais pôs os pés em Pasadena.


 


Para Macpherson, tanto faz como tanto fez. Ele diz que o seu jornalismo é “g-local”. O gê é de global. Reconhece que o seu jornalismo a distância é menos acurado que o tradicional, em papel ou online. “Alguma coisa se perde”, concede, mas acha que isso é detalhe. A propósito, ele está convencido de que muitos jornais impressos são cadáveres ambulantes e que o negócio é investir em alternativas menores, mais ágeis e “internetcêntricas”. “Precisamos todos nos preparar para o inevitável”, profetiza.


 


É o que parece achar também o presidente do conglomerado de comunicação MediaNews Group, Dean Singleton, dono de 54 diários americanos, entre eles um de Pasadena e o mais conhecido Denver Post, do Colorado. Ele disse numa conferência que a idéia da empresa é terceirizar praticamente todas as atividades relacionadas à produção jornalística.


 


“E se tiver que terceirizar para o estrangeiro, que seja”, deu de ombros. “No mundo computadorizado de hoje, se a sua mesa fica no fim do corredor ou do outro lado do planeta, isso não tem a menor importância”.


 

Para o que essa gente deve entender por jornalismo, claro que não tem.