Wednesday, 24 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

SIM!

Em tempos de decisão sobre questões de interesse público, quem se comunica publicamente, ainda mais na primeira pessoa do singular, tem, penso eu, a obrigação de deixar clara a sua posição, se tiver uma e se se achar capaz de defendê-la.

Mesmo que isso nada acrescente ao debate do assunto, pelo menos o leitor, ouvinte ou espectador saberá melhor com quem está lidando.

Por isso, transcrevo aqui o artigo “Ao desarme, cidadãos” escrito para o Jornal da Tarde de 26 de junho de 1999. [No mesmo ano, escrevi “Baixando as armas”, para o Estadão de 27 de outubro.]

Fiquei tentado a atualizar os dados que utilizei, o que até reforçaria meu ponto de vista pelo SIM – em matéria de violência quase tudo só ficou pior – mas no fim decidi deixar como estava, porque, embora mais breve do que o outro, o texto traduz direito ainda hoje o que penso.

Em memória da jornalista Sandra Gomide, assassinada com 2 tiros em 20 de agosto de 2000, aos 32 anos, pelo namorado com quem rompera, o também jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves. A arma que utilizou era legal. Ele ainda não foi julgado.

Ao desarme, cidadãos

Reduzido o problema aos seus termos elementares, são três os motivos por que se deve apoiar o projeto que acaba com a posse de armas de fogo.

Nenhum deles, diga-se desde logo, têm a ver com a diminuição dos índices de criminalidade: o efeito da eventual proibição sobre o banditismo é com toda a probabilidade negligenciável.

No limite, do mesmo modo que ninguém deixa de assaltar hoje em dia de medo que o assaltado reaja a bala, ninguém passará a assaltar em dobro só por saber que o assaltado teve de entregar o revólver ao governo.

Todos os três motivos têm a ver, isso sim, com a proteção que se supõe seja proporcionada a quem não é bandido pelo porte de uma arma.

Recorro à primeira pessoa do singular para apresentar com simplicidade os argumentos em favor do projeto. Primeiro: ao me proibir de ter um revólver, o projeto reduz o risco de que, ao sofrer um assalto, eu perca, junto com meus bens, a vida.

Todo estudo isento confirma a suspeita, compartilhada pela maioria absoluta dos entrevistados numa pesquisa nacional do instituto MCI, de Pernambuco, segundo a qual a posse de arma de fogo antes prejudica do que beneficia a segurança pessoal.

A menos que me transforme em algo assemelhado a um profissional do revólver, é superior a 90% a chance de que eu morra ao tentar reagir a um assalto no gatilho.

Um advogado criminalista de São Paulo, citado em reportagem da revista Veja, investigou 16 casos de pessoas que, abordadas por ladrões, tentaram se defender a mão armada. Quinze acabaram mortas.

Não por acaso, essa também parece ser a proporção de brasileiros que não sabem manejar os revólveres de que são portadores legais.

Mesmo dando o devido desconto ao fato de que as estatísticas raramente incluem casos de defesas armadas bem sucedidas, pela simples razão de que tais situações não costumam chegar ao conhecimento da autoridade policial, como sustentam os porta-vozes do lobby pró-armas, a Polícia sabe o que diz quando aconselha manter a calma e não reagir em caso de assalto.

Segundo argumento: ao proibir pessoas iguais a mim (isto é, não-delinquentes) de andar armadas, o projeto reduz o risco de que eu seja morto por uma delas, por “motivos fúteis” — isto é, numa das inumeráveis situações de conflito cotidiano que desatam o que há de pior em cada um de nós e exacerbam além do controle racional o já precário senso de civilidade que entorta o comportamento de uma parcela assustadoramente grande de moradores das selvas urbanas brasileiras. Briga de trânsito é o exemplo óbvio.

Terceiro e correlato argumento: ao me proibir de ter arma, o projeto reduz a chance de que eu próprio cometa um crime contra alguém como eu numa dessas situações cada vez mais freqüentes de desvario socialmente induzido.

Creio não ser um caso excepcional ao revelar que, não uma, nem duas vezes, já passou pela minha cabeça a fantasia do revide absoluto: “Ah, se eu estivesse armado, teria dado um tiro naquele sujeito!”

Prefiro remoer pelo resto da vida a frustração de não ter tido os meios de manifestar minha justa ira, como imagino que gostaria, do que sofrer — ou, pior ainda, não sofrer — o remorso de ter acabado com a vida alheia.

Em suma, se o revólver é uma arma que tende a se voltar contra mim mesmo, de uma forma ou de outra, não concebo motivo razoável para que me seja dado o direito de ter um.

Saindo, enfim, da primeira pessoa e levando a questão para a ponta do lápis: a já citada reportagem da Veja calcula que 10% dos 22 mil homicídios a bala que ocorrem por ano no Brasil deixariam de acontecer se as armas fossem banidas da vida normal.

Como é de todo improvável que o banimento acrescente outros 2.200 cadáveres a essa infame contabilidade, só pela presumível diferença positiva entre vivos e mortos o projeto já seria bem-vindo em um país em que se morre de tiro proporcionalmente mais até do que nos Estados Unidos (89% do total de homícidios contra 70% na terra onde só não saca da arma quem não quer).

Por último, uma observação sobre a crítica ao governo por querer desarmar a população em vez de acabar com a bandidagem e seus arsenais.

Por esse critério, nenhuma iniciativa se justificaria, a menos que desse plena conta do recado. Mas entre o tudo e o nada sempre há o que fazer — ainda mais quando se trata de civilizar o Brasil.

P.S.

Duas palavras sobre referendo e imprensa. O Estado, o único dos mais importantes jornais brasileiros a apoiar o NÃO, publicou ontem um caderno especial a respeito do assunto. A Folha publicou o seu hoje. O Globo, ainda não.

Normalmente, a Folha é craque no gênero especiais. Desta vez, porém, perdeu a parada para o concorrente paulista. Em formato revista semanal – maior que um gibi, menor que um tablóide – o caderno “Armas” do Estadão, com 20 paginetas, é um prêmio para o leitor: atraente, original, interessante, informativo, fácil de ler e isento. Parabéns a todos que nele trabalharam.