Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

The Economist elogia o Bolsa Família, mas, no Brasil, nenhum jornal repercute


Antes, uma observação: o texto abaixo não pretende falar bem do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas tão somente apontar como a grande mídia brasileira reage quando informações vindas do exterior contradizem as ‘verdades estabelecidas’ geradas pela repetição de estereótipos, pela preguiça em apurar a realidade e pela predisposição condenatória das grandes empresas jornalísticas.


O comentário a seguir pretende apenas demonstrar (mais uma vez) o uso de dois pesos e duas medidas que a grande imprensa empresa para amoldar a realidade aos seus interesses.
Como prévia, é necessário dizer que a publicação estrangeira da qual se tratará – a revista britânica The Economist – serve de modelo para muitos jornais e revistas do mundo inteiro. No Brasil, centenas reportagens das publicações semanais são inspiradas totalmente no que ela informa, apesar de somente o jornal Valor Econômico anunciar que paga pelos direitos de reprodução.


Não é por acaso que todas as revistas sonham em ser como a The Economist. A revista existe desde antes do Brasil tornar-se República. Fundada em 1845, ultrapassou recentemente a tiragem do 1 milhão de exemplares com um ideário que defende francamente o liberalismo na concepção do século 19, quando essa corrente de pensamento representava o que hoje poderia ser chamado de pensamento progressista. Em resumo, o ideário da revista baseia-se na defesa da liberdade individual em todas as circunstâncias, desde liberalização total das drogas, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, passando pelo livre-comércio e pela interferência mínima do estado na vida dos cidadãos.


Feitas as observações, os fatos:

Nesta semana, a The Economist traz dois textos em que o Brasil é referência, ambos com conclusão elogiosa sobre um assunto que, na imprensa brasileira, já está morto e sepultado por culpa da incompetência do governo Lula: o programa de treansferência de renda.


A revista diz que um dos principais argumentos da campanha eleitoral de Lula está tomando prumo e produzindo resultados positivos. Mas, ao contrário do comportamento que se renova todas as vezes em que a The Economist trata de assuntos brasileiros – às vezes, já nas sextas-feiras, um dia depois de ter chegado às bancas dos EUA e da Europa, suas reportagens repercutem nos jornais – nesta semana, o silêncio é absoluto.


‘Os governos democráticos da América Latina começaram a produzir grandes e inovadores esforços para tratar da pobreza’, diz a revista britânica. ‘Eles se baseiam nos programas que oferecem às famílias pobres pagamentos em dinheiro mediante a condição, por exemplo, da manutenção das crianças na escola ou da realização de exames de saúde com regularidade. No México, as famílias de 5 milhões de pessoas usufruem desse tipo de pagamento; no Brasil, são 7,5 milhões’, quantifica a revista, em sua editoria ‘Leaders’, o espaço nobre onde expressa sua opinião sobre as reportagens da edição.

O combate à fome na América Latina ganha duas páginas, fotos e gráficos. Mas todo esse destaque foi ignorado até o momento. Em contrapartida, vários jornais de hoje julgaram ser mais importante divulgar que mais de 50% dos adolescentes norte-americanos praticaram sexo oral.

‘Pobreza na América Latina – Nova abordagem sobre um problema antigo’, anuncia a reportagem, que começa na cidade de Ocara, no agreste cearense, com a apresentação da família de Maria Rita Albino da Silva, para quem os R$ 120 que recebe por mês ‘fazem a diferença entre ter quase nada e o suficiente para comer’.

Diz ainda a revista, textualmente:

‘A senhora Silva, junto com a maioria da população de Ocara, é uma das beneficiárias pelo Bolsa Família, um programa criado em 2003 que provê a renda básica de 7,5 milhões das famílias mais pobres do Brasil. (…) O êxito do Bolsa Família’, continua a revista, ‘é quase vital tanto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto para a garantia de dinheiro da senhora Silva (não há relação entre os dois). Lula, ele próprio filho da pobreza do Nordeste, se apresenta como cruzado contra a pobreza e a corrupção. Mas seu governo está no centro de um escândalo de financiamento partidário, e seu primeiro revés na luta contra a pobreza era o fome zero, um programa de alimentação colocado no ridículo como antiquado e ineficiente. Bolsa Família, que oficialmente faz parte do Fome Zero, é uma oportunidade para recuperá-lo, e é o maior da nova geração de programas sociais da América Latina, conhecidos como de ‘transferência condicional de dinheiro’ (CCT, na sigla em inglês de Conditional Cash Transfer).


Em outro trecho, a reportagem informa que os programas de transferência de renda são uma invenção brasileira, mas que o primeiro programa de aplicação em larga escala aconteceu no México.

Diz ainda:

‘Vários governos latino-americanos gastam muito pouco para promover uma redução séria da pobreza e da desigualdade social (o Brasil e o Uruguai são exceções). Pior, a maior parte do que é feito é por meio da seguridade social e beneficia desproporcionalmente aqueles que já têm dinheiro. Comparado com a maioria dos programas de assistência social, a transferência condicional de dinheiro está muito mais próxima dos pobres, por não se limitar ao sistema formal de empregos, que exclui a maioria dos pobres, diz Kathy Lindent, do Banco Mundial. O custo fiscal é relativamente modesto:o Bolsa Família do Brasil custa ao governo federal 0,36% do PIB, muito menos do que o sistema de previdência social. A transferência não se limita a dar dinheiro para os pobres, mas também serve como incentivo ao uso dos serviços governamentais.’
(…)
‘No Brasil, quando Lula tomou posse em 2003 herdou uma engrenagem de transferência de renda espalhada por vários ministérios, com listas diferentes de beneficiários e condições para o recebimento. Seu feito foi transformar todos os programas anteriores em apenas um, ao mesmo tempo em que se procurou aperfeiçoar sua qualidade . ‘Nós não partimos de zero,’ diz Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social, dando ao governo precedente mais crédito do que é habitual entre oficiais de Lula. ‘Nós integramos e consolidamos’ os programas de transferência anteriores, com aumento do valor dos benefícios’.


A reportagem registra também que, no início, as ações do governo Lula para unir os programas sociais ‘produziram mais confusão do que consolidação’, e que ‘sob uma tempestade de críticas, o governo reconsiderou’ sua estratégia, consumada com a nomeação de Patrus Ananias no lugar de outros dois ministérios ‘que morreram antes de nascer’.


‘As auditorias governamentais e a mídia detectaram fraude na distribuição dos benefícios e relaxamento na cobrança das condições’, lembra a revista. ‘Com milhares de beneficiários inscritos e a triplicação dos benefícios para R$ 65, parecia-se mais com uma intenção declarada para conquistar popularidade do que uma política social realmente séria’.

‘Com uma nova equipe de funcionários de carreira e o apoio do Banco Mundial, que entrou com uma ajuda de US$ 572 milhões para aprimorar o programa, o Bolsa Família endireitou. Com isso, há fina sintonia na elaboração de um sistema que inclui órgãos do governo federal, municípios, Organizações Não-Governamentais e os próprios beneficiários, cada qual cumprindo o seu papel’.
(…)
‘Outra vantagem do Bolsa Família, dizem seus apoiadores, é que critérios objetivos estão substituindo o que os brasileiros chamam de ‘clientelismo’ – a prestação de favores por potentados locais em troca de fidelidade política. Em Ocara, isso parece ser verdade, particularmente porque o ex-prefeito, que governou a cidade na maior parte de seus 19 anos de vida, perdeu as eleições no ano passado. De acordo com a gerente local do Bolsa Família, Maria de Sousa Brasil, o recadastramento feito na igreja local irá eliminar entre 20% e 30% dos que eram irregularmente servidos pelo antigo regime’.


Há diferenças monumentais quando se compara a reportagem da revista britânica com as dos grandes jornais brasileiros sobre o tema. A mais notável é que a empresa que controla a revista investiu na viagem de seu jornalista, para que ele tivesse o trabalho de se locomover até a cidade de Ocara e checar o que ocorre na região mais miserável do Brasil. Esse empenho não se manifesta nas empresas que controlam os maiores órgãos de informação do Brasil. Sai mais barato pagar um ou mais colunistas sediados em Brasília, Rio de Janeiro ou São Paulo para escrever aquilo que, por coincidência, os donos das empresas querem divulgar.