Saturday, 25 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Xô, metrô: tudo pelo apartheid social

Faz uns bons cinco anos que uma pesquisa da revista inglesa The Economist mostrou que não é tão verdadeira como parece a hipótese de que a grande maioria dos motoristas deixariam os carros em casa, nos dias de trabalho, se as cidades onde vivem tivessem sistemas de transporte público de qualidade – como se ouve a toda hora também no Brasil.

Melhor do que pesquisas é um fato muito bem contado pelo repórter Alencar Izidoro na Folha de ontem.

”Moradores de classe média alta” dos bairros paulistanos de Instituto da Previdência, Jardim Christie e Jardim Guedala, na zona oeste da cidade, informa a reportagem, pressionaram – com sucesso – o governador tucano Geraldo Alckmin para riscar do mapa da linha 4 (amarela) do metrô, em obras, a estação Três Poderes, que seria construída entre as estações Morumbi e Butantã.

O motivo, nas palavras de uma moradora do Jardim Christie: “É um bairro bem residencial, [a estação] poderia trazer muito movimento, viriam camelôs, além da quantidade de ônibus [por sua planejada integração a um terminal]. É um transtorno. Tinha um pessoal que já queria fechar as ruas.”

Antes suportar horas em congestionamentos, dentro do automóvel particular, do que livrar-se disso para suportar cheiro de povo.

Com o terminar de ônibus anexo, a estação receberia 50 mil passageiros diários – entre eles, decerto, boa parte do pessoal que trabalha para os donos das casas do “bairro bem residencial” e a massa dos estudantes de uma grande faculdade nas imediações.

Extintos os Três Poderes – a estação, a estação – a parada mais próxima ficará ou a 1,5 quilômetro (para quem vier da parada Morumbi) ou a 900 metros (a contar da Butantã).

Azar da galera. Se não tem metrô, pensaria com a sua bela cabeça a rainha Maria Antonieta, andem de carro.

Em grandes metrópoles desenvolvidas, compara o professor Jaime Waisman, da USP, “ricos também andam de metrô e ônibus. Aqui há uma visão de que [meios coletivos de transporte] são coisa de pobre”.

Eis um retrato rigorosamente fiel do apartheid social brasileiro.

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