
Telas: o que começou como uma solução para entreter os filhos está se transformando em um dos maiores desafios da parentalidade contemporânea. (Foto: FreePik/CódigoLide)
A reportagem sobre hiperestimulação digital e autodiagnóstico entre crianças e adolescentes nasceu como toda boa pauta: no debate coletivo. Em uma reunião de pauta, duas propostas com temáticas convergentes foram discutidas e reunidas. As duas propostas tinham em comum o incômodo com o apelo à atenção em plataformas como o TikTok e a curiosidade por tentar entender os efeitos decorrentes.
A matéria investiga os desdobramentos do consumo de conteúdos rápidos e fragmentados no desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes, mapeando como o design de plataformas digitais estimula o cérebro de forma contínua e exaustiva. Ao cruzar as perspectivas da neuropediatria e da psicologia, o material detalha o fenômeno do autodiagnóstico, em que jovens passam a identificar em si mesmos transtornos como TDAH ou autismo com base em vídeos curtos e sem validação clínica.
Na disciplina de Ciberjornalismo II da UFRGS, espaço de elaboração da reportagem, trabalhamos os diferentes formatos da produção jornalística em ambientes digitais, com atenção especial às lógicas de consumo noticioso contemporâneo e às exigências de circulação nas plataformas. Isso significa pensar no contexto atual da audiência, com menos disposição para leitura linear e mais dependente de experiências visuais e sonoras.
Essa proposta é especialmente complexa quando falamos de temas multifacetados, como a pauta escolhida. As estudantes Ana Carolina Nascimento, Isabela Daudt e Júlia Campos responderam a esse desafio com uma reportagem efetivamente multimídia, publicada em 10 de julho de 2025, que integra texto, links, vídeos e recursos visuais sem sacrificar sua apuração. O tema exigiu colocar em diálogo campos de natureza distinta (psicologia do desenvolvimento, neuropediatria, sociologia, psiquiatria infantil) e sustentar a complexidade sem perder a clareza jornalística. Esse esforço rendeu o segundo lugar na categoria texto do Prêmio de Comunicação da Fundação José Luiz Setúbal.
O CódigoLide, laboratório experimental onde o trabalho foi publicado, parte da premissa de que tecnologia não é apenas produto ou cultura de consumo. Ela é uma dimensão central de disputas políticas, de transformações culturais e da produção de cidadania. Por isso, o projeto se esforça para produzir com os estudantes um olhar editorial contextualizado, que recuse tanto a celebração acrítica quanto o pessimismo fatalista.
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Willian Fernandes Araujo é professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
