Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Frangos de padaria podem se tornar elefantes na sala

Foto: Lula Marques

Gestos, piadas e sarcasmo representam perigo de saia justa no mundo das relações internacionais. Assim como as próprias expressões podem não ter a mesma tradução em outros idiomas, lançar mão de imagens que remetem a um componente cultural específico com o intuito de palestrar para audiências internacionais é confundir o interlocutor desavisado.

Trata-se, no mínimo, de convite ao mau entendimento, passando por prejuízo no mundo dos negócios e quiçá gafe diplomática.

O elefante na sala, expressão em inglês que significa desconforto, só se agiganta e gera ainda mais incômodo.

Quando o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, apresentou um slide de frango assado à equipe de Joe Biden, ele ultrapassou a barreira da boa comunicação para audiências interculturais.

Em seu PowerPoint, havia o desenho de um cão diante da máquina de frango de padaria. O resultado, para usar mais uma expressão talvez literalmente intraduzível: “os gringos viajaram”. No terreno da comunicação intercultural, a questão é: por que os estrangeiros boiaram?

Simplesmente porque o princípio básico de contexto foi ferido. Escapa ao repertório de outros países, a figura do vira-lata plantado na calçada, salivando e implorando por restos.

Mensagem truncada é erro comum em contextos interculturais. Paradoxalmente, viver entre culturas é ser capaz de sobreviver e navegar em comunicação dúbia. Mas o que se deve evitar, a todo custo, é exatamente a dubiedade; o melhor é explicar tim tim por tim tim.

Nós, mortais, que não temos uma assessoria diplomática, estamos sujeitos a esses contratempos. Vão desde piadas de mau gosto, gestos, a assuntos tabus. Cada sociedade tem seus pontos sensíveis.

Adaptar imagens a contextos locais precisa ser cuidadosamente considerado quando se transpõem fronteiras, especialmente as de cunho sarcástico.

Lição: não existem piadas universais; o que é engraçado para um grupo pode não ser para outro.

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Liliana Tinoco Bäckert é jornalista, mestre em Comunicação Intercultural pela Universidade da Suíça Italiana, e comentarista da Rádio CBN