Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Na política ou onde quisermos estar, respeite a voz das mulheres

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

“A senhora está totalmente descontrolada!”. Esta frase que repercutiu, nos últimos dias, devido ao depoimento do ministro da Controladoria Geral da União (CGU), Wagner Rosário, à CPI da Covid, infelizmente, é ouvida, de modo corriqueiro, por muitas mulheres. Sob a aparência de uma racionalidade e controle necessários para uma argumentação “civilizada”, o que esta frase e suas variações escondem é, de fato, a intenção de deslegitimar os questionamentos das mulheres. Isso porque nos consideram “emocionais demais” e, consequentemente, inferiores para práticas de liderança, quer no ambiente doméstico ou em espaços públicos.

Além de uma explícita demonstração de machismo e de negação às mulheres do direito de fala e ocupação de lugares de decisão, quando essa expressão é usada na arena parlamentar, ganha uma nomenclatura específica: violência política de gênero. Este tipo de violência pode ser expresso em outras ações, como nos comentários desrespeitosos de colegas, na priorização de informações sobre a vida privada das parlamentares em detrimento de sua atividade política, na interrupção de seus pronunciamentos, no menosprezo de suas ideias e contribuições pelo partido ao qual se é filiada, no assassinato de mulheres atuantes na política institucional, entre outras situações.

A frase que abre este texto poderia ter como alvo qualquer uma de nós, mas, neste caso, foi ouvida pela senadora Simone Tebet (MDB-MS) após questionar o ministro Wagner Rosário sobre sua atuação (ou a falta dela) frente às possíveis irregularidades no Ministério da Saúde para a compra de imunizantes contra a Covid-19 pelo governo federal. A líder da Bancada Feminina no Senado e sua representante na CPI destacou, em sua fala, que, ao invés de exercer o papel de fiscalizar, que lhe é devido no cargo que ocupa, o ministro agia como “advogado de defesa” de órgãos públicos e de seus potenciais parceiros comerciais, como era o caso da Precisa Medicamentos, na compra da vacina Covaxin. E, além de ter sido “orientada” pelo depoente a reler os documentos, quando replicou, indignada pela ofensa, foi acusada de descontrole.

O ministro ainda tentou remendar seu feito num pedido público de desculpas à senadora e às mulheres que tenham se sentido ofendidas, mas sua fala espontânea, no calor da discussão, só demonstra aquilo que está mais evidente em sua postura: a deslegitimação da senadora para lhe questionar, mesmo baseada em argumentos. É um sinal direto de que essa hierarquização está sempre ali, à mão, para silenciar aquela voz feminina que teima em ocupar um espaço de poder. É um mecanismo de “ajuste” da estrutura que nos classifica a partir da incapacidade de agir dentro “das regras racionais” de convivência. Como se o corpo masculino sempre o fizesse. Mas, nesses casos, o timbre imponente, a fala exasperada, o punho em riste, a chacota e a ironia são símbolos de força e altivez.

Cabe lembrar que ainda temos muito a caminhar. De acordo com o ranking do Fórum Econômico Mundial, divulgado em março deste ano, o Brasil ocupa o 122º lugar entre os 156 países no número de mulheres eleitas para o Congresso e em 120º em relação à participação em ministérios. Em números percentuais, as mulheres representam apenas 15% de parlamentares do Congresso Nacional, somando Câmara dos Deputados e Senado Federal, o que não chega nem à metade da média dos outros países da América Latina e do Caribe.

Mas a violência política de gênero também alcança as redações e chega às manchetes e coberturas jornalísticas, reforçando estereótipos e naturalizando que o lugar da mulher (no singular, em razão de, muitas vezes, nos taxarem como um modelo universal) seria bem distante da vida pública. A partir de uma vasta pesquisa sobre o tema, Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli, ambos professores da Universidade de Brasília (UnB), publicaram o livro Caleidoscópio convexo: mulheres, política e mídia (Editora Unesp, 2011). Entre as conclusões dos autores, está que “as estruturas do campo político e as rotinas da prática jornalística resistem à inclusão efetiva, mantendo as mulheres em posição periférica e impondo ônus simbólicos especiais à sua ação”, como a cobrança por ser uma “mãe exemplar” e manter a “boa aparência”, além de ocupar, prioritariamente, cargos vinculados ao cuidado.

Também nos últimos dias, outra parlamentar, a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) teve os holofotes voltados para si. Não por um projeto de lei que apresentou ou por algum pronunciamento em sessão do plenário, mas porque sua troca de partido — saiu do PDT e foi para o PSB — ter sido atrelada ao fato de seu namorado, o prefeito do Recife (PE), João Campos, ser uma liderança da legenda. É preciso que se aprofunde a compreensão sobre os méritos reais das mulheres que se inserem na política e que o jornalismo saia do lugar comum de vinculá-las à sombra de seus pais, namorados, maridos ou companheiros. Para além de ser namorada de João Campos, Tabata Amaral foi a sexta candidata mais votada do Estado de São Paulo para ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados e, em 2019, foi indicada pela BBC como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo.

O jornalismo já foi considerado o quarto poder e o poder moderador de sociedades democráticas. Mas, justamente por não estar envolto em uma bolha, mas imerso nesse contexto, tem seus vieses inconscientes e seus preconceitos cristalizados. Sua obrigação, nesse sentido, é rever posturas anacrônicas e defender que o lugar das mulheres (no plural) é onde cada uma de nós quiser estar.

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Viviane Gonçalves Freitas é jornalista, doutora em Ciência Política (UnB), com residência pós-doutoral em Ciência Política (UFMG). É professora no curso de Jornalismo e na especialização Comunicação, Diversidade e Inclusão nas Organizações, ambos da PUC Minas. Pesquisadora associada à Rede de Pesquisas em Feminismos e Política e ao Margem – Grupo de Pesquisa em Democracia e Justiça (UFMG). É coordenadora do GT Mídia, Gênero e Raça da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política (Compolítica). Tem pesquisas e publicações nas áreas de mídia, política, gênero e raça. Instagram: @vivianegf14

Lucy Oliveira é jornalista e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Tem estágio de pós-doutorado pela FAPESP no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e, atualmente, desenvolve pesquisa e trabalhos nas áreas de mídia, política, discurso, gênero e representatividade. É vice-coordenadora do GT Mídia, Gênero e Raça da Compolítica. Instagram: @lucy_olivr