Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Quem tem medo de lula?

(Foto: Foto: Ricardo Stuckert/FotosPúblicas)

Quem é da minha geração não esqueceu o medo de se deparar com um policial fardado na rua e saber “vou perder”. Em 21 anos, de 1964 a 1985, vivemos todos os abusos entre fechamento do Congresso, Lei de Segurança Nacional, Estado de Sítio, Censura, Golpe, Tortura, Exílio, Morte e mais alguma coisa. Agora estamos vivendo 21 anos em dois, com todos os ingredientes macabros que fizeram daqueles os piores anos de nossas vidas. E o que nos conduziu a este holocausto foi o medo de Lula nas eleições de 2018. Agora, quando Lula foi libertado por Fachin, uma reviravolta tomou conta dos adversários que correm para se posicionar em 2022, o Centrão disputa o trono e os eleitores se dividem. Lula, o temido, dirigiu-se aos empresários em seu discurso garantindo “não tenham medo de mim”. E a coluna de Delfim Netto — imaginem — na Folha de S. Paulo (17/3/21) demonstrou espanto pelo medo do mercado avisando “não parece razoável…não houve ruptura…”:

“…comparando o fim do primeiro ao fim do segundo mandato de Lula, houve redução do déficit nominal (de 3,6 % do PIB para 2,4% do PIB) e da dívida bruta (de 55 % do PIB para 52% do PIB) com alguma diminuição do déficit primário (de 3,1% do PIB para 2,6% do PIB)… A média de crescimento do PIB no período foi próxima a 4%, e a taxa de inflação média, 5,8%”.

Esta semana empresários, banqueiros e economistas endossaram uma carta pedindo “o país exige respeito” — cobram mais ciência e menos medidas estapafúrdias do presidente.

Já estamos no terceiro outono de Bolsonaro e a nossa taxa de felicidade despencou 12 posições do ano passado para cá no ranking global da Gallup. Ocupamos o 41º lugar perdendo na América Latina para Uruguai e Chile. Finlândia em primeiro lugar, a França em 20º, mas dá inveja dos franceses que entraram em lockdown mantendo entre os “essenciais” que permanecem abertos, as livrarias. Aqui o governo taxou os livros em 20% e os que estão aprendendo a ler ainda vão demorar a aprender: foi vetado o repasse de R$3,5 bilhões da União para que estados e Distrito Federal melhorassem a conectividade da rede pública de ensino básico — escolas de comunidades indígenas e quilombolas inclusas.

Dos policiais fardados sabíamos que íamos perder. Agora, perdemos em tudo.

O chanceler Ernesto Araújo busca apoio dos Estados Unidos contra o “narcossocialismo”, segundo ele o Brasil optou por esta via nos “últimos 30 anos”.

A boiada de Ricardo Salles revela uma situação fundiária caótica na Amazônia, segundo estudos da Imazon.

Para 65% dos brasileiros a situação econômica vai piorar e o pessimismo se alastra. O Brasil sai da lista das dez maiores economias do mundo, terminamos no ano passado na 12º posição e a agência de classificação de risco Austin Rating projeta queda de mais duas este ano.

A pesquisa Datafolha concluiu que 57% acreditam que Lula é culpado. Mas 67% acham que vai haver mais corrupção no governo hoje. De pai para filhos, o esquema das “rachadinhas” rola debaixo do nosso nariz e há mais. Renan, empresário de 23 anos, se envolve em possíveis crimes de tráfico de influência e lavagem de dinheiro. Eduardo, deputado federal (PSL-RJ) de 36 anos, é alvo de uma apuração sobre a compra de dois imóveis em dinheiro vivo. Carlos, vereador (Republicanos-RJ) de 38 anos, é investigado pela suspeita de ter empregado funcionários fantasmas na Câmara Municipal. Flavio, senador (Republicanos-RJ), 39 anos, foi denunciado no caso das “rachadinhas” e levanta suspeitas na compra da mansão de R$ 6 milhões sem renda familiar para obter o financiamento que conseguiu. Jair, “não comenta”.

O que aumenta no Brasil é a demonização e os ataques a jornalistas, o extremismo de direita, o número de evangélicos de tocaia para a próxima vaga do STF, o comércio de armas, o salário e o número de militares no governo (a república brasileira nasceu de um golpe militar), os elogios a governantes autoritários como o príncipe saudita Mohammed bin Salman, o premiê da Hungria Viktor Orbán, o torturador Brilhante Ustra.

Aumenta o número de profissionais que se demitem da Fundação Palmares por discordar do presidente Sérgio Camargo, que entende ser sua prerrogativa “exonerar esquerdistas, desaparelhar o órgão” — o “câncer chamado esquerda, esta mamata” como descreveu o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) antes de ser preso.

Aumenta a desativação da Lei Rouanet, o estado moribundo da Cinemateca Brasileira, a paralisação da Casa de Rui Barbosa, o silêncio do Conselho Superior de Cinema no comando de Mário “Malhação” Frias. Aumenta a transformação em hotéis e boutiques dos prédios “pouco rentáveis”, como o museu do Meio Ambiente no Jardim Botânico.

Aumenta a nomeação de criacionistas para comandar órgãos de educação como a de Sandra Ramos que assumiu a coordenação de materiais didáticos do MEC defendendo “uma perspectiva conservadora cristã”, a retirada de toda menção às culturas africanas e indígenas da Base Nacional Comum Curricular, o combate a ideologia de gênero.

Quem tem medo de Lula? Bolsonaro, por medo de Lula, estimula o aumento de inquéritos com base na famigerada Lei de Segurança Nacional ressuscitada pelo terrivelmente evangélico e ministro da Justiça, André Mendonça. Nesses dois anos bolsonaros a aplicação da lei aumentou 285% enquadrando jornalistas, cartunistas, advogados e acadêmicos. No começo do mês a Volkswagen publicou um anúncio nos jornais se redimindo de seu papel de fomentador da ditadura e se comprometeu a apoiar projetos de promoção da memória e verdade em relação a violação de Direitos Humanos de 1964 a 1985. Mas o golpe militar foi publicado no site do Ministério da Defesa como marco da democracia e agora, com 54% de rejeição na última pesquisa Datafolha, Bolsonaro resolveu acenar com o Estado de Sítio.

Por medo de Lula — que pediu vacinas — Bolsonaro trocou pela terceira vez o ministro da Saúde. Morrem quase 3 mil brasileiros por dia, são os “otários”. Não temos vacinas, insumos, remédios, respiradores, leitos e coordenação nacional,  o cientista Miguel Nicolelis prevê a morte de 500 mil em julho — este, o medo real. Bolsonaro acredita que as pessoas morrem para prejudicá-lo. E basta chamá-lo de pequi roído ou genocida, que é a escala mais baixa dos adjetivos atribuídos ao presidente, para ser agraciado com a Lei de Segurança Nacional.

Machado de Assis escreveu em Memórias Póstumas de Brás Cubas “Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis”. Por quanto tempo os bolsonaristas amaram o presidente? Quantos réis sobraram? E por que ele ainda está lá e nós aqui desfolhando nossa taxa de felicidade? A microbiologista Natália Pasternak comenta que nosso histórico de impeachment diz muito sobre os valores da sociedade brasileira. “Os dois presidentes impedidos desde a redemocratização caíram por questões que envolviam dinheiro. Nossa incapacidade de depor um presidente que, por sua atitude, segue responsável por ceifar a vida de milhares de brasileiros, sugere uma reflexão sobre o quanto nos resta de humanidade.”

Quem tem medo de Lula é Bolsonaro, “só Deus me tira daqui”. Nós, temos medo é das reações paranóicas de Bolsonaro. Temos até 2022 para aprender, como o corvo de Edgar Allan Poe, a dizer “Nunca Mais”. Ou você até pode estar ainda aqui, mas o chão não será o mesmo.

***

Norma Couri é jornalista.