Monday, 04 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

A arara ufanista do Brasil

(Foto: Arquivo pessoal Norma Curi)

No dia do meu aniversário, 1º de maio, em lugar de presente recebi um petardo. Veio do ministro Teich. Do pouco que falou, eu quase nada entendi, mas ouvi que podemos, sim, chegar a mil mortos por dia. Eu e os parentes dos mais de 7.100 mortos do Brasil ficamos esperando um pronunciamento do presidente, que, lacônico, costuma responder com aquela expressão de quatro letras reconhecidas no idioma inglês como palavrão. Mas nem o “e daí?” veio. Estamos com 45 dias de quarentena e ainda não ouvi um sinal de solidariedade de Bolsonaro.

Isso não é normal. Lembro de uma anotação de Franz Kafka no seu diário, em 2 de agosto de 1914, “Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar”. Mas Kafka não era presidente. Estamos sendo atacados por dois tipos de vírus – a diferença é que só para o da saúde temos esperança de descobrir a vacina. Para o vírus da política, não. Como o Financial Times escreveu num editorial, o presidente do Brasil não precisa de inimigos, ele se destrói sozinho.

Teich fala de polarização e heterogeneidade, diretrizes e parâmetros, e eu continuo sem entender. Vago, escorregadio. Foi Bernardo Mello Franco no Globo de quinta (30/4) que disse: “em caso de dúvidas, evite consultar o ministro da Saúde”. Se o ministro ocupar a pasta da Economia, uma secretaria de informática, a chefia da seção de linha produção, vai dar no mesmo.

O silêncio de Bolsonaro é mais fácil de traduzir: um genuíno descaso. Enquanto o presidente está preocupado em descarregar a culpa do colo, a pandemia aumenta. Ainda não se pode prever o pico da doença. O presidente lava as mãos e culpa os governadores que decretam quarentena (Witzel e Doria) e o Brasil pode chegar a 100 mil mortos por mês. Enquanto ele exprime o seu lamento, “sou Messias, mas não faço milagre”, o milagre do vírus se multiplica e os casos, que chegam a 100 mil infectados, podem beirar 1,2 milhão, segundo pesquisadores.

Bolsonaro recebe a carreata na porta do Palácio (como não alimentar seu eleitorado?), aperta mãos, emite partículas de saliva, apóia atos antidemocráticos, diz ter apoio militar, desafia o STF e diz ter chegado “ao limite”. Bolsonaristas agridem profissionais da saúde que pedem isolamento e batem, chutam, socam e xingam jornalistas e fotógrafos no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (03/05). Todos na porta do Palácio.

O presidente emudece, a pandemia acelera e a pesquisa da piauí mostra que sua aprovação desacelera. Cai para 28%, e 44% da população avaliam o governo como ruim ou péssimo. Bolsonaro é um anão perto da premiê da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, que se dirige todos os dias à nação; suas medidas contra o corona recuperaram 1.180 pessoas entre 1.122 doentes.
O Brasil se torna um dos epicentros mundiais do corona. Não dá para medir o abandono dos brasileiros. Sobram poucos amigos a seu lado no mundo. Trump acaba de anunciar que cogita restringir voos para cá. De janeiro até hoje, a imprensa internacional já contabiliza 228 matérias negativas sobre o Brasil. Aqui dentro, os ataques à imprensa desde janeiro passam longe de 160. Bolsonaro parece ecoar a frase famosa do primeiro-ministro português Marcelo Caetano, sucessor do ditador Oliveira Salazar, quando anunciou na televisão, em 1973, que não negociaria a libertação com as colônias africanas, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau. “Orgulhosamente sós”, o ministro disse estar, com o mundo contra a colonização e a guerra perdida há muito.

Bolsonaro não comenta a falta de UTIs, os mortos embrulhados em sacos pretos e enterrados sem velório, o pânico da disputa por respiradores. Sua obsessão é o débito da economia pesando na campanha presidencial de 2022. Ele tem razão quando vislumbra que vai ser grande. O que dizer se nem gigantes como Microsoft, Facebook, Apple, Google conseguem prever o faturamento no semestre que vem, e calculam que a queda será grande? Paulo Guedes, recém-reanimado pelo presidente depois da crise Moro no Planalto, projeta emitir moeda se a inflação for a zero. Espera-se o pior. Mas o presidente se esquece de que mortos não consomem e também não falam nem votam. Morrem jovens, velhos, ricos e pobres, foi vítima fatal do corona até o matemático americano John Conway. Conway inventou o famoso Jogo da Vida e morreu.

Não é hora de analisar a pão-durice da nossa elite e a falta da cultura de doação nos trópicos. Guedes festeja: “pela primeira vez, a Receita Federal dá dinheiro a alguém. É preciso solidariedade contra a covid-19”. (Epa, cadê o ministro da Saúde?)

As pessoas vão ter de se habituar a viver no modo simples e pobre. O vírus corona pode levar meio bilhão de pessoas para a pobreza. Meio mundo.

Difícil. Mas isso fica para depois. O difícil, agora, é ouvir o chanceler Ernesto Araújo comparar a reclusão pelo vírus aos campos de concentração – e receber pito da comunidade judaica pela relativização da memória do Holocausto. Ou ler nas redes sociais o ministro Weintraub, da Educação, usar o Cebolinha da Turma da Mônica para postar agressão ao povo chinês, ridicularizando o sotaque do português falado pelos asiáticos, que trocam o R pelo L. E acusar a China de se aproveitar da pandemia para dominar o planeta.

Difícil é ver, no meio do caos, Bolsonaro pressionar a Receita para perdoar dívidas das igrejas evangélicas aliadas. Difícil é engolir a ameaça de Bolsonaro de demitir quem, nos seus ministérios fraturados, não der cargos para o Centrão, que poderá tirar o poder do Rodrigo Maia e amaciar seu impeachment. Tereza Cristina, da Agricultura, por exemplo, negou. Maia já recebeu 31 pedidos de impeachment, medida que racha o país. Será que, com essa última agressão à democracia no domingo, 3/5, agora vai?

Entre os vários abandonos está o de Regina Duarte, cuja nomeação como “secretária” Bolsonaro já ameaça. A Cultura, até agora, não viu nem aquela definição que a atriz deu no discurso de posse, “aquele pum produzido com talco espirrando no traseiro do palhaço e fazendo a risadaria feliz da criançada. Cultura é assim, é feita de palhaçada”.

Nada. Montesquieu (1689-1755) escreveu, no livro 11 de O espírito das leis: ”a experiência eterna mostra que todo homem que tem poder é tentado a abusar dele; vai até onde encontra limites”.

“Limite”, como disse Bolsonaro. O limite, para Winston Churchill, foi ensinar Charlie, uma arara azul comprada em 1937, a insultar Hitler. Com 121 anos, a ave continua a xingar “maldito Hitler” o dia inteiro, 55 anos depois da morte do primeiro-ministro britânico que derrotou o alemão de verdade.

A arara azul do Brasil não xinga, canta. Às vezes, cantos ufanistas. A História reserva hinos aos presidentes. Retrato do velho foi o jingle que marcou a volta de Getúlio Vargas ao poder, em 1950. Para Juscelino Kubitschek, ficou o folclórico Peixe vivo, cantado pelos mineiros quando ele foi eleito presidente, em 1956. Collor e a trapalhada do sequestro da poupança e dos bens da população foram brindados com o bolero Besame mucho, dançado em 1990 pela ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, e o ministro da Justiça, Bernardo Cabral.

Nossa arara azul, hoje, tem canto ufanista. Bolsonaro, que bateu continência até para Sergio Moro quando se encontraram pela primeira vez num aeroporto – e o juiz o ignorou -, só nos remete ao ufanismo de Miguel Gustavo em Pra frente, Brasil ou Eu te amo, meu Brasil, de Dom e Ravel, marchinhas vagabundas criadas nos primeiros anos da década de 1970 para exaltar o período mais sangrento da ditadura conduzida pelo general Médici. Os camisas amarelas de Bolsonaro estão tentando sequestrar o hino nacional para o ufanismo.

Alguém tem uma arara azul para ensinar O bêbado e a equilibrista?

PS – Na véspera do 1º de maio, outro petardo: a morte de Nirlando Beirão. O jornalista que transitou, como ele mesmo dizia, “por toda publicação que se possa imaginar”, morreu aos 71 anos. O Observatório está republicando a matéria que escrevi em julho passado, quando saiu um dos melhores livros do ano, Meus começos e meu fim (Companhia das Letras). A Carta Capital que saiu dois dias depois da sua morte (2/5) trouxe a última matéria de Nirlando, “A volta do maldito livrinho”, com o subtítulo “O Almanaque do Exército pode decifrar, como nos anos da ditadura, o que pensam os generais que acobertam Bolsonaro?”. Imperdível até o fim, Nirlando.

***

Norma Couri é jornalista.