Tuesday, 16 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Bolsogate e a imprensa maldita

(Foto: Divulgação)

O mundo todo já desconfiava de um problema neurológico do presidente do Brasil. Esta semana ficou claro que Bolsonaro é um caso perdido. Como Roberto Pompeu de Toledo perguntou na Veja, como conter um desmiolado, destrambelhado, desembestado?

Quem, no meio da maior crise epidemiológica do planeta, desmontaria seu próprio governo investindo contra a ala que estava dando certo, justo por isso?

Tirar Mandetta já foi um crime pelo qual o presidente terá de acertar contas no futuro. Mas foi suicídio, depois de várias derrotas impostas, como a mexida no pacote anticrime, testar até onde o ministro da Justiça resistiria. E colocar sua assinatura digital falsificada na demissão não consentida do diretor-chefe da Polícia Federal.

A história reescreve a biografia do país a partir deste momento de caos dentro do caos da pandemia. Tudo pode acontecer. Em suspense, até a escolha dos cargos vagos, agora sob suspeita. As opções mais prováveis são amigos da família: para a Polícia Federal, o delegado Alexandre Ramagem, diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e, para o cargo de Moro, o Secretário-Geral da Presidência, Jorge Oliveira. “Amigos, sim, e daí?”, rebate Bolsonaro. Já havia uma coleção de 25 pedidos de impeachment antes do embate com Moro. Agora juntam-se mais alguns, incluindo o do presidente da Associação Brasileira de Imprensa. Maldita imprensa.

Para completar, Bolsonaro calculou mal seu poder. Imaginou que Sergio Moro ou se calaria, mais uma vez, ou faria como Mandetta, que saiu com elegância, embora escancarando com essa atitude a pobreza de caráter do presidente.

Moro também teve elegância, aquela que fez de Will Kane (Gary Cooper) um herói em Matar ou morrer (High noon, 1952, Fred Zinnemann). O delegado abandonado pelo povo da cidade do Novo México, que se recusou a ajudá-lo, enfrenta e mata sozinho um perigoso bandido.

Esta semana, Moro acertou em Bolsonaro, fazendo uso de uma coletiva – maldita imprensa – para acusar o presidente de desejar o que não conseguia até agora. Não conseguia furar a barreira imposta pelo ministro da Justiça e pelo diretor-geral da Polícia Federal. Eureka: Bolsonaro resolveu exonerar Maurício Valeixo contra a vontade dele, apostando que ou Moro silenciaria, ou sairia calado. Demitir, por quê?

Bolsonaro queria interferir nos inquéritos, ter contato com a chefia para “colher informações, relatórios de inteligência”. ”Não é papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação”, disse Moro. Uma clara interferência política assumida por Bolsonaro. Em uma coletiva de 38 minutos e meio, Moro deflagrou sete crimes do presidente: falsidade ideológica (ao assinar a demissão de Valeixo por ele), advocacia administrativa, prevaricação, corrupção, crime de responsabilidade, coação, obstrução de justiça.

Bolsonaro queria ter alguém na Polícia Federal com quem pudesse “ligar, conversar”, saber o andamento dos inquéritos. Sobre os que já estão rolando, a conclusão de alguns pode atingir o presidente no peito. Como o da indústria das fake news utilizada para catapultar a eleição de Bolsonaro. Este mira diretamente como articulador Carluxo, o Zero 2. Também a investigação sobre quem estava por trás da última manifestação em Brasília, que clamava pelo AI-5. Aqui, a denúncia bateria no próprio presidente. E ainda o inquérito que investiga as rachadinhas do deputado Flávio Bolsonaro, que teria lucrado com financiamento de prédios ilegais da milícia no Rio de Janeiro através de repasses do ex-assessor Fabrício Queiroz e do ex-delegado do Bope Adriano da Nóbrega. Queiroz evaporou-se e Adriano foi assassinado como queima de arquivo.

Agora, o Procurador-Geral da República, Augusto Aras, quer saber se Moro tem provas das acusações contra Bolsonaro. E ele tem. No próprio contra-ataque de Bolsonaro – diante da maldita imprensa -, ele se incrimina afirmando interferência no inquérito que apurou e negou que houvesse alguém por trás de Adélio Bispo, autor da facada que, afinal, o ajudou a se eleger. E pressionando o porteiro do seu condomínio que o vinculou a um ex-policial envolvido na morte de Marielle. Sobre Marielle ainda, mandou a Polícia Federal tirar a limpo a informação de que o Zero 4, Renan, teria namorado a filha de um policial reformado, Ronnie Lessa, preso no ano passado pelo assassinato. “Eu é que tenho de correr atrás disso?”, revoltou-se no seu discurso da última sexta feira. “Ou é o ministro (Moro) ou a Polícia Federal (Valeixo)?”

Bolsonaro reuniu diante das câmeras quem pôde do seu ministério – onde está Regina? – para passar a ideia de que está tudo bem em Brasília. Pelo menos a outra perna do tripé de equilíbrio do seu governo, Paulo Guedes, não está nada satisfeito com a pressão dos bolsonaristas em sua política de ajuste fiscal e teto de gastos. A leitura dos sinais no ato revela protesto até no comparecimento do ministro, que veio sem paletó e sem sapatos, único de máscaras para enfrentar a “gripezinha”. O embate entre as visões econômicas foi escancarado com o Plano Pró-Brasil, idealizado pelo desafeto de Guedes, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. O plano “de recuperação econômica” foi apresentado como um novo “Plano Marshall” pelo general Braga Netto, ministro da Casa Civil. E não contou com a presença de Guedes, que rebateu curto e grosso a ideia de financiar obras de infra-estrutura com R$ 30 bilhões do Tesouro para criar empregos e amaciar a crise pós-corona. “Querem sair do buraco cavando mais fundo.” Sinal da crise com a saída de Moro e Mandetta, o dólar dispara e a Bolsa despenca.

Para soprar no incêndio, o presidente disparou, três dias depois do discurso desconexo: “Quem manda na economia é Guedes”. Ninguém acreditou. A verdade que Bolsonaro estabeleceu foi de que não sabe distinguir entre o público e o privado. Tudo tem de passar “pelas minhas mãos”. “Eu interajo com a Abin, com a inteligência das Forças Armadas, por que não com o primeiro escalão da Polícia Federal?”

Porque, presidente, a primeira a receber inquéritos encomendados seria a maldita imprensa. Seus desafetos. Porque tudo, presidente, é examinado pelo lado pessoal, “eu” – e não mais Deus – acima de tudo. E porque, presidente, assustou aquele final sobre a defesa da pátria, “se for preciso, sangue”.

Mais sangue, não, presidente. As mortes por corona – lembra? – já passam de 4.000, 2.000 óbitos ainda sob análise, e mais de 60.000 infectados. O país tem 3,5 milhões de acordos de redução de salário e ainda estamos no meio da crise, ápice do vírus. E, por causa da hostilidade de seu governo, o Brasil caiu para a posição 105, atrás de Angola, Montenegro e Moçambique, no ranking de liberdade de imprensa. Maldita imprensa.

O presidente não contava com o estouro de um Bolsogate como o que tirou Nixon do poder. Em Washington, o caso começou em 1972, com a invasão do escritório do Partido Democrata instalado no complexo Watergate. Cinco homens foram grampear telefones para usar os dados como chantagem política. Dois repórteres do The Washington Post descobriram as ligações com o presidente que proibia entrada de jornalistas como eles na Casa Branca e, dois anos depois, Nixon caiu. Maldita imprensa.

Para não se isolar, Bolsonaro se aproxima do Centrão, os partidos PP, PL e a sigla Republicanos, que agora abriga Carluxo e Flávio Bolsonaro. O objetivo é buscar apoio de uma ala do Congresso considerada inimiga de fé durante a campanha de eleição: Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto e Arthur Lira, todos condenados ou réus em processos que investigam quadrilhão, mensalão ou petrolão. Tudo o que o presidente prometeu varrer do Congresso na campanha. Para os novos aliados, Bolsonaro oferece cargos em troca de apoio, como o controle, entre outros, do Fundo Nacional de Desenvolvimento na Educação, FNDE, que rege o maior orçamento do MEC, R$ 54 bilhões. Se não é a “velha política”, só pode ser coisa da maldita imprensa. A intenção é varrer o presidente do Congresso, Rodrigo Maia, que, com apoio dos ministros de tribunais superiores, pode abrir um processo de impeachment contra ele.

O jurista Miguel Reali Jr. quer avaliar a sanidade mental do presidente. Fernando Henrique Cardoso quer que ele renuncie para não submeter o país a um longo processo de impeachment. O historiador José Murilo de Carvalho acha cada vez menos provável a permanência dele até o final de 2022. Clima tenso, previsão de insubordinação da PF. Pelo menos três inquéritos do STF podem revelar a atuação do presidente e de seu clã na política brasileira, como acusou Moro. O Ministério Público apura a ordem do presidente para revogar três portarias que permitiriam rastreamento de armas para abastecer os quartéis. O Brasil se desequilibra.

E lembrar que há onze anos, em 2009, The Economist trazia na capa o Cristo Redentor disparando do Corcovado feito um foguete para ilustrar a projeção do Brasil, país destinado a brilhar neste século. Hoje, a revista reserva um espaço para as novelas suspensas na TV durante o coronavírus e chama Bolsonaro de BolsoNero. Maldita imprensa.

***

Norma Couri é jornalista.