Tuesday, 25 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Bolsonaro, o invisível

Foto: Alan santos/PR

Parece que Mandrake, o mágico das antigas histórias em quadrinhos, podia ficar invisível. Se não me engano, nem Jesus ficou invisível, uma vez que fosse, e me apoio nos testemunhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, todos os quatro, evangélicos dignos de fé. Nada a ver com o Silas Malafaia, cujo vídeo mais recente mostra o pastor vociferando e esbravejando na defesa do jogador homofóbico Maurício Souza.

Me lembro, agora, do escritor peruano Manuel Scorza, que conheci em Paris, quando havia acabado de escrever e lançar na Europa seu livro Redoble por Rancas. Scorza, definido como um autor do realismo mágico, escreveu sobre o massacre dos indígenas pré-colombianos nas cordilheiras do Pasco, no Peru, uma versão andina do drama atual dos assassinatos dos nossos indígenas da região amazônica. E, num outro livro, contava como o líder das comunidades destruídas se transformou no seu libertador: Garabombo, como passou a se chamar, podia se tornar invisível na luta contra a versão peruana e feudal do que são hoje nossos agropecuaristas. Nem os cachorros podiam sentir sua presença! Garabombo, o Invisível, era o título do livro.

Ora, nós não temos o herói Garabombo, mas temos um presidente que consegue também se tornar invisível. Todos podem confirmar terem visto, pela televisão ou redes sociais, o presidente Bolsonaro tomar o avião para Roma, a fim de participar de um encontro internacional reunindo os países com as economias mais desenvolvidas do mundo, o G20. No dia seguinte, as redes sociais bolsonaristas mostravam o presidente passeando com uma pequena comitiva pela praça Navona, ainda pouco movimentada.

Bolsonaro agia como um garoto propaganda do Brasil, abraçando turistas que por ali passavam, fazendo fotos com crianças e se deixando filmar com um músico e cantor ali instalado para ganhar uns trocados dos turistas. Como não havia imprensa por perto, só alguém filmando, as imagens mostravam um presidente passeando tranquilamente, sem proteção, uma figura extremamente simpática, que se deixava mesmo abraçar pelos passantes. Que maravilha deve ser o Brasil, com um senhor tão simpático e amável, deviam pensar. A Embratur, sem dúvida, poderia contratá-lo para animar excursões e passeios.

O problema surgiu logo depois. Quando chegou a hora das chamadas coisas sérias, Bolsonaro se tornou invisível. Era impressionante. Ninguém, nenhum dos presidentes conseguia vê-lo. Nenhum bonjour, nenhum good morning… Bolsonaro atravessava o salão, se metia mesmo no meio dos grupinhos formados, mas ninguém se dava conta de sua presença. Nem um olá, como estás! Nem o presidente português conseguiu vê-lo e para Bolsonaro seria mais fácil bater um papo, falar daquelas amenidades que ele gosta…bacalhoada…

Um tanto desesperado, não entendendo porque tinha virado invisível, Bolsonaro atravessou o salão e foi ao buffet tomar um copo d ‘água para se acalmar. Na falta de assunto, perguntou aos garçons se eram italianos. A pergunta era meio idiota, um garçom lhe deu o copo d’água mas fez cara de quem não viu para quem e nem respondeu se era italiano. “Não deixei de ser invisível”, pensou Bolsonaro.

Foi quando teve a idéia de pisar no pé de alguém para saber se era ou não um fantasma. Aie, disse a senhora vestida de amarelo, fazendo cara de brava. Era Angela Merkel, logo ela, a chanceler alemã! Ah, é você, disse ela já sorrindo! Foi tudo muito rápido; logo depois, Bolsonaro voltou a ser invisível. Nem tanto; de repente um de seus conselheiros lhe apresentou um senhor de nome bem complicado, Receb Tazzip Erdogan, presidente da Turquia.

Sujeito curioso, queria saber como ia o Brasil. Bolsonaro não ia fazer feio: disse estar indo tudo muito bem. Num momento de crise com o petróleo e sendo os derivados do petróleo os principais causadores do CO2, Erdogan lembrou que o Brasil tem muito petróleo. E daí?, deve ter pensado Bolsonaro, mas decidiu responder falando da Petrobras, a pedra no seu sapato, que espera privatizar antes do término do mandato. Erdogan parece não ter entendido nada e foi conversar com gente mais interessante. Felizmente, Bolsonaro, naqueles seus lampejos popularescos de mau gosto, adorados por seus seguidores, não falou dos mascates turcos do seu bairro quando criança…

Ia ser difícil explicar para a imprensa porque não participou dos debates do G20 e nem de uma negociação bilateral com os Estados Unidos ou a China. Quem ia acreditar ter virado invisível? Só mesmo os evangélicos que acreditam nessas coisas…

Domingo à noite, depois de não ter sido convidado para ir com os outros presidentes jogar uma moeda na Fontana de Trevi, Bolsonaro foi à janela da luxuosa embaixada brasileira e viu haver lá fora um grupo de brasileiros com bandeiras brasileiras. Pelo visto, deviam ter marcado encontro entre eles por whatsapp. Como o grupo lhe acenava, concluiu não ser mais invisível e decidiu descer para se juntar aos seus seguidores, imigrantes brasileiros. Durante o governo Bolsonaro, o número de imigrantes brasileiros na Itália praticamente dobrou, de 85 mil para 161 mil. Nas eleições presidenciais de 2018, a maioria dos imigrantes eleitores brasileiros optou por Bolsonaro. Os que depois imigraram parecem ter se desiludido com o “mito”…

Nessa altura, o clima na Piazza Navona não era o mesmo do dia anterior, sábado, no qual Bolsonaro distribuía sorrisos e abraços. Já era noite e o grupo de jornalistas, que acompanharam os trabalhos do G20, aguardava também a descida do presidente para fazer algumas perguntinhas indiscretas… Queriam saber porque se tornara invisível e não participara efetivamente do G20, nem de um encontro bilateral. E porque não iria à conferência COP26 em Glasgow, na Escócia.

Bolsonaro, além de poder ser invisível deve ter também bom faro. Assim, os seguranças italianos e os seguranças privados da embaixada receberam ordem de não deixar os jornalistas se aproximarem do presidente. Isso acabou provocando atos de violência contra os profissionais da imprensa. As imagens do domingo à noite, de empurrões e agressões, filmadas pelos jornalistas, foram o contraponto às cenas pacíficas do sábado, mostrando a demagogia do contato direto do presidente populista com as pessoas.

Mas não foi tudo. Um clima de confronto entre favoráveis e contrários a Bolsonaro, brasileiros e italianos, ocorreu na pequena localidade de Anguillara Veneta, antes de Bolsonaro receber o título de cidadão honorário, concedido pela prefeitura local, por ser o lugar onde nascera seu bisavô antes de emigrar para o Brasil. A cidade tem prefeito da Lega, partido da extrema-direita italiana, havendo, portanto, afinidade com Bolsonaro.

Nessa altura, ao que parece já não havia jornalistas brasileiros na região, tinham todos viajado para Glasgow, mas um vídeo feito pela imprensa italiana, distribuído na Europa, mostrou a polícia lançando jatos d’água nos manifestantes anti-Bolsonaro, que jogavam laranjas e limões contra o carro no qual ele estava, ao chegar à prefeitura. Uma dessas frutas atingiu de leve o presidente.

A pontaria certeira de um dos manifestantes mostrou que Bolsonaro não era mais invisível. Acostumado a não governar e viajar pelo Brasil em campanha eleitoral antecipada, parece que Bolsonaro só fica invisível nos compromissos internacionais. Outra versão é a de que, para a comunidade internacional, Bolsonaro é o 00 (zero zero), não possui mais credibilidade, razão pela qual os líderes fazem de conta não vê-lo. Tanto uma como outra versão, a do Bolsonaro invisível ou invisibilizado, confirmam não ter Bolsonaro nem formação e nem competência para o cargo, razão pela qual para o Brasil e seus compromissos internacionais, a G20 foi um fiasco.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.