Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Golpe, a contagem regressiva já começou

(Foto: Isac Nóbrega/PR)

Nesta altura, não se pode fechar os olhos. Se existiam algumas dúvidas sobre o projeto golpista do presidente Bolsonaro, elas foram desfeitas com sua decisão inequívoca de provocar uma crise institucional ao desafiar o Supremo Tribunal Federal, concedendo o perdão ao deputado federal Daniel Silveira, mesmo antes de divulgada sua condenação a 8 anos e nove meses. A decisão foi elaborada no Planalto, ao chegar ao presidente a informação de que o ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça não iria pedir vista do processo e assim impedir o julgamento do parlamentar delinquente. A informação só não dizia que Mendonça iria votar pela condenação de Daniel Silveira, embora com uma pena mais leve.

Para Bolsonaro, que se vangloriava de já ter seus 20% no STF e esperava chegar a mais de 50% depois de reeleito, a insubmissão do seu pupilo escolhido, mais que uma bofetada foi uma traição e a percepção de que pelos meios legais não chegaria à maioria na suprema corte à maneira de Donald Trump. A partir da divulgação da quase unanimidade na condenação de Silveira, esse sim um fiel seguidor e também golpista, Bolsonaro, ainda com as bochechas quentes, quis revidar logo a seguir, mesmo que para isso precisasse passar por cima da Constituição.

Com a pressa, não sabendo temperar e modular sua raiva, praticou o que se poderia chamar de perdão por antecipação, falha jurídica que invalida legalmente o ato. Exceto se, diante dos dentes e da fúria do presidente, “o Supremo amarelar e recuar como Chamberlain diante de Hitler” comentou ironicamente o blog Náufrago da Utopia, diante do comentário da jornalista Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo, de que alguns ministros do STF pensam em retomar o diálogo com Bolsonaro em lugar de se isolar ou de se entrincheirar e dar tempo ao tempo, esperar o fim de todos os prazos no processo de Daniel Silveira.  Ou transferir ao Tribunal Superior Eleitoral a questão da inelegibilidade do parlamentar e à Câmara dos Deputados a decisão sobre sua perda de mandato.

A crise tomou maior corpo depois do ministro do STF Luís Roberto Barroso ter feito uma análise (talvez inoportuna) da situação brasileira, num encontro virtual promovido por uma universidade alemã, o Brazil Summit Europe. Uma frase desagradou aos militares: a de que as Forças Armadas estão orientadas para colocar em dúvida a fiabilidade do processo eleitoral brasileiro. Ao externar as constantes citações de Bolsonaro sobre fraudes nas eleições decorrentes do voto eletrônico, na verdade jamais ocorridas, o ministro indiretamente alertou quanto à razão pela qual o presidente Bolsonaro poderá provocar e desencadear uma crise institucional, no caso – evidente no momento – de uma derrota nas eleições. Não falou nomeadamente em golpe, mas no que considerou como uma tragédia para a democracia brasileira.  Barroso citou momentos graves, nos quais se pediu o fechamento do Congresso e do STF com a participação do próprio presidente Bolsonaro.

Barroso externou também sua preocupação com a politização das Forças Armadas, colocando em risco a democracia, mas acentuou que nestas três décadas de restabelecimento da democracia, as Forças Armadas têm mostrado um comportamento exemplar. Mas lembrou que Bolsonaro foi expurgando do governo, coisa nunca antes ocorrida, profissionais militares respeitadores da Constituição, como Santos Cruz, Maynard Santa Rosa e Fernando Azevedo.

O clima ficou tenso quando o ministro da Defesa, general Paulo Sérgio de Oliveira, considerou irresponsável e ofensa grave as afirmações de que as Forças Armadas estão orientadas para atacar o sistema eleitoral. O momento não é dos melhores para uma imagem dura das Forças Armadas, depois do escândalo das compras de Viagra e próteses penianas. Nesta altura, está evidente a intenção do presidente Bolsonaro de rejeitar uma derrota nas urnas em outubro e suas recentes declarações de que possui um exército civil armado, já haviam mostrado suas intenções golpistas.

Os apelos feitos por Bolsonaro, há alguns meses, para que seus seguidores comprassem armas em lugar de feijão, sem se esquecer do símbolo da arminha na campanha eleitoral de 2018, reforçam a atual desconfiança de tente recorrer às milícias e aos seus seguidores mais fanáticos, no caso de derrota. Mesmo porque, caso as Forças Armadas não garantam o resultado das urnas, a oposição a Bolsonaro não se preparou para enfrentar um golpe. A hipótese remota de uma guerra civil no Brasil só pode ser imaginada, no caso dos seguidores bolsonaristas desejarem usar as armas contra o presidente eleito e serem impedidos pelas Forças Armadas em nome da legalidade e do respeito à Constituição.

Não havendo oposição legal militar ao desrespeito do resultado das urnas por Bolsonaro, seus seguidores, em número muito maior que os de Donald Trump no ataque ao Capitólio, poderão criar o caos em Brasília e em outras cidades. Uma aprovação do perdão concedido por Bolsonaro e consequente inocentização do deputado delinquente Daniel Silveira, um dos principais instigadores aos ataques contra o STF e seus ministros, corresponderá a uma autorização expressa, a uma carta branca, para que concretize os atos pelos quais foi condenado.

A contagem regressiva para o golpe já começou e a deputada Carla Zambelli quer também reforçar o caos com sua contribuição de anistia para outros bolsonaristas golpistas como Roberto Jefferson e Allan dos Santos, blogueiro golpista refugiado nos Estado Unidos. Não se trata de um delírio, já não existem mais dúvidas, é esse o objetivo de Bolsonaro, se não for reeleito.

Servir a Deus ou a Bolsonaro?

A semana foi pródiga e, além do perdão, indulto ou anistia concedido por Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira, condenado pelo STF, houve a estreia do ministro André Mendonça, o terrivelmente evangélico, no STF. Ao contrário do ministro Kássio Nunes Marques, também nomeado pelo presidente Bolsonaro, considerado por isso como seus 10% no STF, André Mendonça surpreendeu a todos, negando-se a pedir “vista” para suspender o julgamento do parlamentar e, indo mais além, votou pela condenação do instigador de ações contra os ministros do STF, além de outros tipos de violência.

Ao se negar a ser “pau mandado”, o novo ministro do STF ganhou a simpatia de muita gente não importante, como jornalistas, por exemplo, mas ganhou o ódio de outros como o raivoso presidente Bolsonaro, de diversos pastores, da bancada evangélica e, em especial, do furioso pastor Silas Malafaia, cujo YouTube nada tinha da mensagem de paz e amor cristã. Sentia-se também traído por ter sido um dos apoiadores da candidatura de André Mendonça ao STF. Todos eles achavam que o novo ministro seria um ministro amestrado com coleira e corda curta.

E isso nos leva a um versículo bíblico, Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro”. A frase é de Jesus que atualizo, “Vocês não podem servir a Deus a ao Bolsonaro”.

A quem se dirigem, no Brasil evangélico, as palavras bíblicas de Jesus? Ao ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, à ministra Damares Alves e ao ministro André Mendonça.

Ora, o ex-ministro Milton Ribeiro ao deixar de ser pastor de uma pequena igreja em Santos, com salário minguado, para se tornar o importante ministro da Educação, preferiu seguir Bolsonaro em lugar de Deus. Não acredito que tenha participado das extorsões aos prefeitos feitas pelos pastores Gilmar dos Santos e Arilton Moura. Mas fez vista grossa para ser fiel ao Bolsonaro. Ora, Deus é alguém exigente e exclusivista, não gostou, e deu no que deu. Como dizem: o castigo veio a cavalo e, ainda agora, até seu revólver disparou em Brasília sem ser apertado o gatilho!!! Mas que diabo fazia um pastor com um revólver na sua maleta? As virtudes são difíceis de seguir, mas os vícios logo se aprendem…

E o pastor André Mendonça, também de Santos, como se comportou? Digamos que a tentação de negar Deus foi forte. Subiu como um rojão: foi advogado da União, ministro da Justiça e, cereja no bolo, chegou a ministro no STF. Era o xuxu do presidente Bolsonaro e do pastor Malafaia, o “Rasputin” do presidente.

Até que chegou aquela hora em que sua fé é posta à prova! Não era uma questão de fazer vista grossa ou processar jornalistas ou quem falasse mal do presidente Bolsonaro, como quando ministro da Justiça. Bolsonaro lhe pedia para absolver um delinquente que pregava a maldade. Em outras palavras, mal comparando, queria que absolvesse Barrabás! Mendonça tem jeito de bom, cordato, bom rapaz, incapaz de negar um favor a um amigo, gente boa.

Ele, Mendonça, incapaz de matar uma mosca, obrigado a absolver um sujeito violento, que deseja matar seus colegas do STF, inclusive o Moraes, que conhece há pouco tempo, mas que é boa pessoa. Daí se lembrou da frase de Jesus: você não pode servir a Cristo e ao malvado Bolsonaro. E decidiu: sou de Deus, sou cristão. Salvou a alma, mas perdeu dois amigos, Bolsonaro e Malafaia, e arranjou um inimigo, Daniel Silveira. Se houver golpe, que se tranque no banheiro quando invadirem o STF.

E a ministra Damares Alves? Isso é entre ela e Deus!

*** Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.