Thursday, 25 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Mídia busca esconder a luta de classes em favor de uma suposta unidade nacional

(Foto: Unsplash)

No primeiro capítulo de O Manifesto Comunista, Marx e Engels escreveram a clássica frase: “A história da humanidade é a história da luta de classes”. Para muitos indivíduos, inclusive da própria esquerda política, trata-se de uma colocação restrita ao século XIX, anacrônica, que, segundo tais visões, não explicaria a complexidade do mundo atual, onde pautas identitárias seriam mais importantes do que questões classistas.

No entanto, sobretudo em momentos de crise como o que estamos atravessando, a realidade nos mostra que as ideias de Marx e Engels soam atuais e coerentes para interpretarmos o andamento das relações sociais. Como comprovam recentes mobilizações populares em vários países, interesses de explorados e exploradores são inerentemente irreconciliáveis.

No caso brasileiro, a luta de classe se manifesta por meio da chamada “polarização”, exacerbada após as jornadas de junho de 2013.

No cenário político, a polarização está simbolizada nas figuras de Bolsonaro (representante das elites, embora a contragosto) e Lula (que, apesar de seu histórico conciliador, devido às atuais circunstâncias, canaliza os anseios populares).

Diante dessa realidade, torna-se fundamental para a classe dominante eliminar qualquer indício de polarização, pois ela explicita todos os tipos de exploração às quais são submetidas as classes populares.

Nesse sentido, a grande mídia, principal porta-voz da elite, tem intensificado as narrativas sobre a necessidade de surgir uma nova liderança que esteja além da dicotomia Lula/Bolsonaro, o que, na prática, significa alguém que seja capaz de aplicar a mesma agenda neoliberal de Bolsonaro, porém “sem incentivar a polarização”.

Além do mais, os grandes grupos de comunicação do país sabem perfeitamente que a crescente queda de popularidade de Bolsonaro favorece justamente ao seu antípoda: no caso, Lula. E o fortalecimento de uma esquerda estilo lulista, para um contexto pós-pandemia, em que os capitalistas irão correr atrás de todos os prejuízos recentes, é tudo o que elites e mídia não querem.

Já as manifestações ocorridas no dia 31/05 na Avenida Paulista também demonstraram a intensidade da polarização. De um lado, representando as classes populares, torcidas organizadas de futebol protestavam em defesa da democracia e contra o fascismo. No outro lado, parcela da classe média (a serviço dos interesses das elites) defendia o presidente Jair Bolsonaro e levantava pautas anticonstitucionais.

Conforme pudemos perceber em imagens de telejornais, houve provocações e trocas de hostilidades entre os dois grupos. A polícia militar interveio lançando bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha somente contra os manifestantes favoráveis à democracia, que prontamente revidaram com pedras. Afinal de contas, membros de torcidas organizadas não moram em Alphaville. Por outro lado, aos militantes bolsonaristas, a PM concedeu a proteção adequada.

As cenas de violência e “vandalismo”, que sempre assustam a moralista classe média, foram o pano de fundo para articulistas da mídia hegemônica reforçarem o discurso contra a “radicalização da sociedade”. “Em princípio, a Rede Globo apoiou os torcedores da Paulista, mas, ao primeiro sinal de uma vidraça quebrada, recuou, subiu no muro e, de lá, começou a falar em dois lados”, escreveu o ativista Cassemiro Silva em postagem no Facebook.

Enquanto as cenas do confronto entre manifestantes e policiais eram exibidas, a GloboNews convidou ninguém menos do que Kim Kataguiri, coordenador do ultrarreacionário Movimento Brasil Livre (MBL), para comentar sobre os atos em favor da democracia: “Eu dou a mesma credibilidade quando a palavra democracia sai da boca de Jair Bolsonaro como quando ela sai da boca de torcidas organizadas. […] Durante minha campanha para deputado federal fui agredido por torcidas organizadas que também se diziam pró-democracia e antifascistas, mas que, no final das contas, só defendiam o pensamento próprio”, afirmou Kataguiri.

Aliás, a violência classicamente associada às torcidas organizadas pela mídia foi o principal argumento para deslegitimar o movimento pró-democracia. Segundo Merval Pereira – conhecido como “a voz de Deus”, por ser o interlocutor preferido da família Marinho – “essa mistura de torcidas organizadas com política é preocupante, diante da violência que caracteriza esse tipo de manifestação”. Para Paulo Mathias, da Jovem Pan, é incoerência colocar as torcidas organizadas como gente que defende a democracia há séculos e que, por um acaso, “nem matou, nem brigou em estádio de futebol”.

Também não poderiam faltar os discursos que buscavam igualar os dois grupos que se manifestavam na Avenida Paulista. “Torcidas organizadas são o bolsonarismo com uma camiseta de time: pregam o ódio ao rival, a desunião e a submissão do adversário”, apontou Igor Gielow na Folha de S.Paulo.

Tratam-se de realidades bastantes distintas. Não faz sentido comparar os protestos de trabalhadores – que têm suas condições de vida cada vez mais deterioradas pela política neoliberal do atual governo e, mesmo em período de quarentena, enfrentam transporte público superlotado para manter a economia funcionando – com indivíduos que defendem a reabertura total da economia em pleno auge da pandemia do coronavírus, pedem a volta da ditadura militar e querem acabar com o mínimo de democracia que ainda existe no Brasil. Apenas mentes preconceituosas, como Igor Gielow, são capazes de tamanho absurdo retórico.

Não é preciso um extenso e fastidioso exercício hermenêutico para verificar a tendência da grande mídia em reverberar apenas notícias negativas sobre as torcidas organizadas, por meio de chavões como “pelo fim da violência nos estádios” e “pela volta da família às arquibancadas”. Ações positivas desses torcedores são estrategicamente negligenciadas pelos principais veículos de comunicação do país.

Recentemente, a Mancha Alviverde, maior organizada do Palmeiras, arrecadou mais de 100 toneladas de alimentos, máscaras e outros produtos em live solidária no YouTube. Como não foi uma atitude ligação à violência, teve pouco destaque midiático. “Provenientes da classe trabalhadora, as torcidas organizadas são um importante exemplo de organização popular, o que naturalmente desperta o terror na sua classe social antagônica”, apontou uma matéria do Diário Causa Operária, elucidando sobre o porquê de as torcidas organizadas serem retratadas negativamente na mídia.

E assim vão se construindo falsas narrativas: “Lula é igual a Bolsonaro”, “Torcidas organizadas são iguais ao bolsonarismo”. Além de escamotear a luta de classes, o objetivo desses discursos é concentrar a oposição ao bolsonarismo em torno de iniciativas suprapartidárias, que possam unir adversários ideológicos sob a liderança da elite.

Tratam-se de movimentos inócuos, que pouco mencionam os direitos perdidos da classe trabalhadora nos últimos anos; entre eles “Estamos Juntos”, “Basta”, “Frente Ampla” e “Somos 70%”; verdadeiros balaios de gato que reúnem direita tradicional, ex-bolsonaristas e setores da esquerda pequeno-burguesa.

Em outros termos, isso significa que elite e mídia, que depuseram Dilma Rousseff e colocaram Bolsonaro no poder, agora querem monopolizar a oposição e liderar um futuro governo; sem participação popular, é claro.

Não por acaso, os movimentos citados anteriormente foram elogiados por Merval Pereira no artigo intitulado “A sociedade se mexe”. “O manifesto ‘Estamos Juntos’ lançado […] por defensores da democracia de várias correntes políticas […] estimula a se acreditar na viabilidade de uma grande aliança democrática, repetindo o que já aconteceu com êxito na saída da ditadura militar […] A cada dia fica mais necessário este grande entendimento entre direita e esquerda democráticas”, enfatizou o editorial de O Globo na terça-feira (2/6).

Tais posicionamentos são emblemáticos. Lembrando o pensamento de Leonel Brizola, se o Grupo Globo é favorável a determinado direcionamento político, deve-se, no mínimo, ficar em alerta.

Já vimos esse filme em um passado não tão remoto. O movimento “Diretas Já” também reuniu nomes de várias tendências ideológicas. Como sabemos, não atingiu o fim colimado (a Emenda Dante de Oliveira foi derrubada no legislativo) e ainda tivemos o primeiro governo da chamada Nova República sendo liderado por José Sarney, político historicamente ligado ao regime militar. Transições “dentro da ordem” são questões corriqueiras em nosso país.

Na França pré-revolucionária do final do século XVIII, camponeses também se uniram a burguesia em uma “Frente Ampla” para derrubar a nobreza. Concretizada a Revolução, a primeira medida tomada pela burguesia foi desafazer qualquer possiblidade de participação popular nas principais decisões da nova ordem política. Mais uma vez, temos que admitir a veracidade das palavras do velho Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Coordena a área de Geografia da Vicenza Edições Acadêmicas. Autor do livro 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático, lançado pela editora CRV.