Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Quando nossa esquerda fala como Bolsonaro

Estávamos perto da reta da chegada das eleições norteamericanas. A CNN ia juntando, ao vivo, o total dos votos dos grandes eleitores para Trump e Biden, à medida que avançavam as apurações. Faltando ainda contar os votos em seis Estados, percebia-se, pouco a pouco, ir aumentando a vantagem de Biden e tornando impossível a Trump recuperar a diferença. Já se via a vitória de Biden, embora ainda faltassem as viradas ocorridas na apuração dos votos da Georgia e Pennsylvania.

Foi nesse momento que recebi pelo WhatsApp uma curta mensagem coletiva, de um conhecido grupo de esquerda, dizendo para ninguém se entusiasmar com a próxima vitória do Biden, porque (para não usar o linguajar chulo) tanto Biden quanto Trump eram farinha do mesmo saco. E a mensagem vinha seguido de um tweet #ForaBiden. No dia seguinte, num WhatsApp, alguém queria me explicar porque Biden e Trump eram a mesma m… ou farinha do mesmo saco.

Minha primeira impressão foi de desolação por constatar que nossa esquerda falava quase igual como Bolsonaro, num discurso populista sem profundidade, sem inteligência, destinado a alimentar o fanatismo de seguidores desprovidos de qualquer visão de política internacional. Esse recurso à repetição de chavões, me lembra mesmo a descrição do totalitarismo, descrito por Orwell no livro 1984, com seus minutos de ódio. Tudo muito elementar. Um populismo delirante.

Bolsonaro não queria a vitória de Joe Biden, e continua não querendo, tanto que até agora não reconheceu a vitória do democrata, como os dirigentes russo e chinês. Por quê? Porque sua desastrosa política até agora aplicada no Brasil copiava a do desastroso Donald Trump. Como um cachorrinho amestrado, vinha imitando seu dono e já via o Brasil participando de um grupo de países conservadores, reacionários e retrógrados europeus, liderados pelos Estados Unidos de Trump.

Não é à-toa que a catástrofe do coronavírus no Brasil se assemelha à dos Estados Unidos. Trump ria das máscaras e Bolsonaro mandava seu gado tomar cloroquina para se curar da gripezinha. Tanto um como o outro são responsáveis pelo grande número de mortos registrado nos EUA e no Brasil e pelo abandono da Organização Mundial da Saúde. Bolsonaro com seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles queriam prosseguir com a benção de Trump na devastação da Amazônia, dando o dedo do meio para quem fala em aquecimento global e necessidade de se salvar o planeta com a aplicação do Acordo de Paris sobre o Clima. Bolsonaro seguia Trump por se sentir livre de qualquer perseguição ao mandar às favas os chamados direitos humanos.

E o que significa, no Brasil, a vitória de Biden? A necessidade do Brasil levar a sério as recomendações da OMS de proteção à população e de combate à propagação do coronavírus. Ou existe um nacionalismo verde-amarelo contra a OMS, em favor da cloroquina e de um recorde mundial em número de mortes? Será antipatriótico se apagar o fogo na Amazônia sob pressão norteamericana?

Nossos coleguinhas dessa esquerda delirante queriam mesmo a derrota do Trump, dentro daquele argumento de que quanto pior é o inimigo melhor é para se fazer a Revolução? E se sentem agora decepcionados com a perspectiva de terem um inimigo diferente com propostas aceitáveis, capazes de comprometer o impacto das campanhas anti imperialistas, esquecendo-se de que vivemos todos numa comunidade global, onde cada avanço, em cada país, contribui para o avanço em todo o planeta? Enquanto escrevo, me chegam por WhatsApp acusações, distribuídas por setores da esquerda, também contra a vice-presidente Kamala Harris, dando as razões pelas quais nos devemos opor a ela. Daqui a pouco, vai circular outro tweet #ForaKamalaHarris ou será o filho do Bolsonaro quem está atacando Biden e Kamala, na esperança de um vitória tardia de Trump?

Fora das repercussões no Brasil, no que o governo de Biden será diferente do dirigido até agora pelo Trump? Ele pretende engajar toda força dos EUA na defesa do clima e dotar o país de geradores eólicos de eletricidade, limpos e sem combustíveis, acionados pelo vento. Isso é ruim ou bom para o socialismo? E manterá os EUA no Acordo de Paris sobre Clima. Essa diversificação criará centenas de milhares de empregos, diminuirá a poluição atmosférica e será mais saudável para quem vive nos centros urbanos. Ou serão ações anti-revolucionárias?

Biden pretende baixar os impostos para a classe média e aumentar para os mais ricos e para as grandes empresas. Com isso também poderá aumentar de duzentos dólares o salário mínimo federal.

Outro setor visado por Biden é o da saúde. Existem nos EUA 21 milhões de pessoas sem seguro de saúde e, por isso, sem médico e sem hospital, no caso de doença. Os EUA, mesmo com o Obamacare, não têm um seguro de saúde para todos como o SUS, no Brasil, que Bolsonaro queria acabar.

Nos EUA, é necessária a participação em convênios de saúde, ao qual a camada mais pobre não tem acesso. Biden pretende aplicar milhões de dólares numa expansão do Obamacare, ao qual se terá acesso pagando-se 8,5% do salário. Se aplicada como está no programa de governo, essa medida revolucionará o setor da saúde nos EUA. Biden não é contra o aborto, como os evangélicos, conservadores e a extrema-direita de Trump.

Ele também preconiza um governo sem preferências raciais ou de gênero. A prova é ter feito parceria com Kamala Harris de origem indiana e jamaicana, ampliando o caminho da representação das mulheres brancas ou negras na política. Biden não pretende anular tudo quanto foi feito por Trump, assim será mantido o recente acordo multilateral assinado com Israel e países árabes.

Biden não é um presidente de esquerda, nem fará a Revolução socialista nos EUA, nem fará jogo mole com o Brasil no comércio internacional e nem usará de ameaças nas relações com a China. Mas para o povo norteamericano deverá ser bem melhor que Trump. E as eleições, apesar de todas ameaças e tentativas de pressões de Trump, confirmaram a democracia existente no país. É nesse quadro que nossa esquerda deve propor, com inteligência e sem o uso do populismo e do fanatismo, suas reformas. E se preparar para os shows, comédias e ameaças que Bolsonaro fará dentro de dois anos, quando, por certo, não será reeleito.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.