Thursday, 30 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Madonna no Brasil de sempre

Sábado, 4 de maio de 2024. O Rio de Janeiro em êxtase com o show de marketing, organização, dança e música da cantora Madonna, uma senhora de 65 anos que atrai milhões de fãs e repele falsos moralistas sempre que se apresenta ao público.

Ela é muito boa no que faz.

No Rio Grande do Sul o caos causado por cinco dias seguidos de temporais, com epicentro na região de Porto Alegre.

O Brasil é excelente em catástrofes, em especial as evitáveis. É muito bom no que deixa de fazer.

A prioridade no sábado era salvar vidas. Os que tiveram sorte conseguiram se abrigar no telhado de casa. A contagem total de mortos, desalojados e desabrigados no Sul, seria atualizada aos poucos durante a semana.

Duas capitais brasileiras, duas realidades antagônicas, concomitantes e paralelas.

De um lado, a estrela mundial celebrando 40 anos da exitosa carreira.

De outro, mais uma tragédia brasileira onde não haverá responsáveis, uma espécie de Shangri-La da impunidade.

No Brasil só pobre é culpabilizado.

À noite, a praia de Copacabana aguardava um milhão e meio de pessoas para festejar a cantora, entre fãs vestindo looks da artista, curiosos e jovens com especialidade nos setores de roubos e furtos de telefones celulares, relógios, carteiras, cartões de crédito e cordões de ouro. Basicamente, o que desse para levar e correr ao mesmo tempo.
Tudo ali, na maior pista de dança do mundo.

Na mesma noite de sábado, 317 municípios gaúchos sofreriam com os estragos causados pelas chuvas. 839 mil imóveis não teriam água potável e 421 mil casas passariam a noite sem energia, no mais puro e aterrorizante breu.

Os mortos chegavam a 55. Os vivos expostos ao medo, frio, fome e hipotermia.

Toda dor é inenarrável.

O Aeroporto Salgado Filho fechado devido aos temporais. A rodoviária inoperante, debaixo d’água. A capital, Porto Alegre, literalmente ilhada. Hospitais inundados e desativados. Estradas intransitáveis, pontes de concreto arrastadas como isopor pela correnteza. 113 bloqueios nas rodovias. 70% da capital gaúcha sem água potável.

Tudo ali, na maior tragédia do Rio Grande do Sul.

Quem assistiu televisão no sábado, 4 de maio, se viu diante de uma partida cuja bola, rápida, quicava ora na quadra do espetáculo, ora no campo do horror.

Reportagens intercaladas entre a euforia e a desgraça coletiva.

Raramente o paradoxo se fez tão presente como neste 4 de maio, mesmo para nós que consideramos normal ver, no mesmo farol, um indivíduo maltrapilho pedindo esmola para a senhora do Porsche Cayenne SUV.

Assistir televisão no sábado foi um soco bem dado no estômago de quem ainda tem estômago para levar pancada no Brasil.

A repórter negra no Rio sorrindo, feliz, cabelo black power, segurando um coco, anunciando a chegada da multidão em Copacabana.

A repórter loira, cabelos lisos, visivelmente assustada, narrando o incêndio de um posto de gasolina em Porto Alegre. Ao lado, imagens de caminhões do Corpo de Bombeiros atravessando com dificuldade ruas alagadas para chegar ao fogo.

Não é de hoje que assistimos fogos cintilantes enquanto o Bateau Mouche afunda.

Paulo Renato Coelho Netto é jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas Piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, CLAUDIA/Abril, Observatório da Imprensa e VICE Brasil. Foi repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Diário do Grande ABC. É autor de sete livros, entre os quais biografias e “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.