Wednesday, 10 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Em programação de carnaval, Globo oculta pontos polêmicos de desfiles históricos

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Neste ano, devido a pandemia de Covid-19, não tivemos os tradicionais desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, a Rede Globo, detentora exclusiva dos direitos de transmissão desses eventos, exibiu, no último final de semana, uma programação especial com desfiles históricos das agremiações pertencentes às elites dos carnavais carioca e paulistano. A escolha dos sambas foi realizada por curadores especializados, ligas independentes e pelas próprias escolas.

“Alguns desfiles foram escolhidos por terem sambas-enredo inesquecíveis, daqueles que são assoviados na esquina, cantados até hoje nos blocos e salões, imunes ao passar do tempo […] Outros desfiles renderam imagens que até hoje estão gravadas na retina do grande público, lembradas mesmo fora do ambiente carnavalesco”, escreveu Leonardo Bruno, em artigo publicado no jornal O Globo.

A iniciativa é interessante, porém, como quase tudo que se relaciona à emissora da família Marinho, não deixou de apresentar algumas questões controversas e polêmicas. Já na seleção dos desfiles que seriam exibidos, duas escolas do Grupo Especial carioca foram sumariamente excluídas: Paraíso do Tuiuti e São Clemente.

Um telespectador menos atento poderia pensar que a exclusão ocorreu porque se tratam de agremiações menores, sem títulos ou maior expressão em relação às demais. Entretanto, nada na Rede Globo acontece por acaso. Os desfiles mais famosos de Tuiuti e São Clemente apresentaram na Marquês de Sapucaí temáticas incômodas aos setores conservadores da sociedade brasileira, a quem a família Marinho representa.

No longínquo 1990 — assim como já havia feito a Império Serrano na década anterior, com o clássico “Bum bum, pra ti cum bum, pro gurundum” — a São Clemente, com seu provocativo enredo “E o samba sambou”, denunciou a crescente mercantilização e espetacularização do carnaval, uma festa popular capturada pelo capital. Moradores de comunidades cariocas saiam de cena para dar lugar às chamadas celebridades. “É fantástico/Virou Hollywood isso aqui/Isso aqui/Luzes, câmeras e som/Mil artistas na Sapucaí” […] E sambou nosso povão/Ficou fora da jogada/Nem lugar na arquibancada ele tem mais pra ficar”, apontam alguns dos versos do samba da São Clemente.

O incômodo global com essa letra é compreensível, pois esses “mil artistas na Sapucaí”, em sua esmagadora maioria, pertencem ao quadro da emissora.

Já o histórico desfile da Paraíso do Tuiuti está mais presente na memória do público brasileiro. Em 2018, a escola escancarou para o mundo o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, com um enredo que fazia ligações entre o período escravocrata e o desmonte da CLT promovido pelo governo Temer.

Personagens como “Guerreiros da CLT”, “Vampiro Neoliberalista” (alusão a Temer) e “Manifestoches” (referência à classe média alienada) entraram para a história do carnaval e constrangeram narradores e comentaristas da Rede Globo que comandavam a transmissão dos desfiles na Sapucaí.

Na época, em sua página no Facebook, a Tuiuti destacou que “a ala ‘Manifestoches’ representou a manipulação do pensamento articulada pelas potências empresariais e políticas para enfraquecer a consciência do poder que a massa trabalhadora e menos favorecida tem, fazendo com que até muitos pobres sejam ‘patos’ orgulhosos da classe dominante marchando em direção à manutenção do velho ciclo de explorados e explorados”.

Em outros tempos, a ocultação de desfiles carnavalescos indesejados poderia passar como mais uma prática de manipulação bem-sucedida do veículo de comunicação da família Marinho. No entanto, lembrando as palavras da jornalista Cristina Padiglione, “na era das redes sociais, nada passa despercebido”. Na internet, houve forte reação adversa do público às exclusões de Paraíso do Tuiuti e São Clemente da programação especial de carnaval.

Assim, diante da enxurrada de críticas, a Rede Globo não teve escolha: incluiu em sua programação os desfiles icônicos de Paraíso do Tuiuti e São Clemente (não o original, mas a reedição, feita em 2019).

Durante a exibição dos desfiles carnavalescos, a máquina de manipular do Jardim Botânico novamente foi colocada em ação. Conforme anunciado, as apresentações históricas das escolas de samba não foram reproduzidas na íntegra, mas em compactos. Isso significa que determinadas alas, passistas e carros alegóricos, considerados de alguma forma “inconvenientes” para o status quo, poderiam ser mostrados rapidamente, não receber o devido destaque ou, simplesmente, ser ocultados. E foi justamente o que aconteceu.

No compacto do desfile da São Clemente, a temática central do enredo foi citada apenas uma única e breve vez. “Uma crítica à profissionalização do carnaval”, afirmou o apresentador Milton Cunha, sem entrar em maiores detalhes.

Questões mais espinhosas foram evitadas. Cunha e seu colega de narração — o ator Aílton Graça — descreveram a escola como “irreverente” e “criativa”. Uma das alas mais polêmicas (denominada “Toda poderosa”), que apresentava seus componentes fantasiados de televisão, em uma clara referência à Rede Globo, até foi exibida, porém não foi comentada.

Diante dessa narrativa, que ocultou pontos-chave para compreensão da ousada proposta da São Clemente, boa parte do público pode ter sido induzida a acreditar que, no desfile, a menção a Marilyn Monroe, Michael Jackson e Madonna foram homenagens às celebridades estrangeiras e não críticas à espetacularização do carnaval.

É importante lembrar que, na sinopse do desfile da São Clemente, dois anos atrás, a menção a ala “Toda poderosa” dizia: “E a mídia ‘toda poderosa’ controla tudo a seu bel prazer. Até mesmo a opinião pode ser comprada! Como não?”.

Naquele carnaval, “coincidentemente”, a Globo não exibiu o desfile da São Clemente, optando por manter sua programação normal, com a telenovela O Sétimo Guardião e a décima nona edição do Big Brother Brasil.

Diferentemente das coberturas de outras escolas, em que os enredos foram explicados e contextualizados para o telespectador, no tocante à apresentação da Paraíso do Tuiuti prevaleceu uma narrativa evasiva por parte de Aílton Graça e Milton Cunha, que ressaltaram mais a beleza do desfile do que propriamente seu conteúdo crítico. “Eu estava lá. Foi uma catarse coletiva”, comentou Aílton Graça.

O compacto se concentrou na primeira parte do desfile (sobre a escravidão). A outra metade, que trazia o desmonte da CLT, foi ocultada. Os famosos “Manifestoches” e o carro alegórico com a “mão” manipuladora da mídia, como era de se esperar, foram ignorados. Somente o “Vampiro Neoliberalista” apareceu na tela da Globo. É mais fácil rifar Temer do que assumir a participação da emissora no golpe de 2016.

Evidentemente, não seria plausível creditarmos o ônus dessa cobertura carnavalesca tendenciosa a Milton Cunha e Aílton Graça, pois se trata da linha editorial historicamente adotada pela Rede Globo. Pautas contrárias à ideologia da família Marinho não devem ter visibilidade.

Não é difícil entender o porquê de alguns setores conservadores condenarem o carnaval. Uma alegoria que associe poder e televisão talvez leve a audiência a refletir sobre o alcance e a influência da mídia hegemônica.

Enquanto livros, teses, dissertações ou artigos acadêmicos, devido à rigidez científica e argumentação intrincada, podem soar inteligíveis para o grande público; um desfile de escola de samba, ao demonstrar como a “mão” midiática manipulou a classe média a vestir amarelo e a servir como massa de manobra, torna bastante claro para todos nós o que foram os recentes retrocessos democráticos no Brasil.

A maior festa popular de nosso país não é apenas folia e reinado de Momo (que, aliás, em sua origem, na mitologia grega, era uma deusa). É fato: mesmo cancelado, o carnaval não perde seu caráter subversivo.

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Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Unicamp. Coordenador da área de Geografia da Vicenza Acadêmica. Autor do livro Crônicas no jornal o tempo: o olhar de Francisco Ladeira sobre o mundo contemporâneo (Vicenza Acadêmica).