Tuesday, 05 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

A crise que abalou o mundo fez renascer o interesse pelo jornalismo como fonte de informação: notícias da Alemanha

(Foto: Freepik)

Em artigo veiculado dia 25 de março no site de análise de mídia MEEDIA, o título revela: “A crise do coronavírus gera audiência surpreendente”. O maior exemplo da retomada de interesse pode ser constatado pelos números de audiência do principal noticiário da Alemanha, o Tagesschau (Espelho do Dia), entre 20h e 20h15 na TV aberta ARD (Canal 1), um conglomerado de rádios e estações de TV.

Só no período entre 14 e 23 de março, o Tagesschau alcançou 8,38 milhões de espectadores. No mesmo período de 2019, foram 5,42 milhões, resultando em considerável aumento de 55%. Se a esses números forem somados os espectadores dos chamados “terceiros programas”, de foco regional, também pertencentes à ARD, somam-se 19 milhões de espectadores. “Números como estes só são alcançados em intervalo de primeiro e segundo tempo durante Copas do Mundo de Futebol”, garante o autor do artigo, Jens Schröder.

A procura pelo jornalismo-notícia não fica restrita “somente” à ARD, mas também à concorrente direta, a ZDF. O segundo principal telejornal, Heute (Hoje), às 19h, teve um aumento de 59% de audiência, contabilizando 6,10 milhões de espectadores. O carro-chefe do noticiário jornalístico, o Heute Jornal (Jornal de Hoje), exibido diariamente às 21h45, teve aumento de 37% de audiência, alcançando 4,87 milhões e espectadores.

Surpreendente, afirma o autor, é que o aumento de audiência vem de onde menos se esperava: do grupo-alvo entre 14 e 49 anos que, há tempos, havia virado as costas “para a televisão linear”.

Os programas exclusivamente de notícias (hard news) tiveram um aumento de 65%. Todos os formatos contabilizam aumento considerável.

O jornal Berliner Morgenpost (Correio Berlinense da Manhã), com seu infográfico sobre o alastramento do vírus pelo mundo, tirou os treze pontos na loteria. Seus leitores chegaram a 1,95 milhão, um plus de 680% que levou o jornal a integrar o ranking dos vinte principais portais de notícia – e logo na cidade de Berlim, onde a competição e a luta pela sobrevivência de jornais são as mais acirradas de toda a república.

Berliner Zeitung, Morgenpost e Tagesspiegel traçam uma briga de anos para se manter como a voz da capital, mas, nesses últimos tempos, o Morgenpost deixou os concorrentes para trás.

Manchete x conteúdo

Certa vez, um político de alto escalão disse: “Se você quer saber o que está acontecendo, puxe lá o site do Bild; mas se você quiser saber por que, precisar verificar outra fonte”.

O tabloide que “se espremer, sai sangue” vem fazendo uma cobertura que se assemelha a tempos de guerra. Ininterruptamente, corre uma fita digital avisando o início da próxima coletiva. O ritmo é quase de hora em hora: o diretor do Instituto Robert-Koch ou o ministro da Saúde ou a chanceler ou algum virólogo com a dica perfeita para minimizar os perigos em torno do vírus mortal. Nas redes sociais, há quem constate que, no âmbito da pandemia, “a imprensa mostrou a sua verdadeira face”.

Ajustamentos e puxadas de tapete

O fato da chanceler ter colocado na área o seu protegido, Peter Altmaier, foi um tapa na cara do ambicioso Jens Spahn, que tem planos para voos muito altos na carreira política.

Ao contrário da imprensa brasileira, que pautava constantemente o ex-ministro da Saúde, Mandetta, focando nas diversas humilhações feitas a ele pelo chefe, o caneteiro capitão-corona, o ministro alemão engoliu o sapo, fez vista grossa, manteve a postura e exibiu maturidade política. Até mesmo um político vaidoso, como Jens Spahn, ao mesmo astuto o suficiente para saber quando é preciso dar um passo atrás, ficou quieto. O denominador comum, sobre a importância de se manter focado na redução da pirâmide epidêmica para evitar o colapso do sistema de saúde. Apesar de todas as diferenças, as disputas pela simpatia dos eleitores e articulações políticas, estão em fogo brando, ou seja, é possível conter vaidades masculinas no antro do poder.

Vaidades lá e cá

Enquanto o tabloide Bild pautou durante dois dias que o ministro da Saúde teria sinalizado que os critérios da quarentena seriam afrouxados depois do feriado da Páscoa – e com isso, deixou a população ainda mais ansiosa, já que o feriadão é um momento de grandes deslocamentos em forma de viagens -, o balde d’água não demorou a chegar. A chanceler puxou o freio de mão e deixou o ministro em saia-justa, mas vista grossa também é uma ótima ferramenta no jogo político.

Maestria

É de grande ironia o fato de Merkel, que já determinou a data do fim de sua carreira política, em 2022, ter aumento vertiginoso de aprovação de eleitores dos mais diferentes partidos. Perto do seu grande finale, a chanceler exibe sua maestria em alinhavar caminhos, administrar crises, falar ao país o que ele precisa ouvir e mobilizar eleitores quando explica por que e para quê.

“O andamento dos números referentes ao alastramento do vírus oferece motivo para uma esperança tímida. A pirâmide exibe leve achatamento. O número de infectados também apresenta redução, se subtrairmos os que estão curados e os que perderam suas vidas através dessa pandemia”, disse, em timbre de voz que combina discernimento e empatia.

“O chefe do Instituto Robert-Koch acaba de dizer: ‘Não há motivo para relaxamento, já que podemos destruir tudo o que alcançamos até agora’. Ou seja: concentração e disciplina. Isso significa responsabilidade pelo outro através do distanciamento. Por isso, o apelo para continuar a seguir os regulamentos. É preciso dizer claramente: teremos que viver com essa pandemia a longo prazo. Temos que analisar o cenário em intervalo de duas em duas semanas. Essa ou aquela medida leva à beira do colapso do nosso sistema de saúde ou podemos lidar (bem) com ela? É importante dizer: as regras de não dar a mão para as pessoas, as de higiene e as de manter a distância social irão permanecer enquanto não houver uma vacina ou um remédio. Esses procedimentos irão desenhar o nosso dia a dia.” Ao se despedir, Merkel desejou uma boa Páscoa aos jornalistas, mesmo que “em condições especiais”.

Nas redes sociais, há quem jure que a chanceler irá se candidatar mais uma vez depois de fortificar sua posição em primeiro lugar na lista dos dez políticos com maior aceitação. Na última pesquisa, início de abril, na enquete Deutschland Trend (Tendência Alemanha), realizada mensalmente pelo instituto de pesquisa de opinião Infratest Dimap a pedido da emissora WDR, o quadro mostra um aumento de 11% (em relação a março) de contentamento com a política da chanceler, especialmente como a líder no empresariado da crise em torno do coronavírus. O segundo lugar da lista é ocupado pelo ministro das Finanças, o social-democrata Olaf Scholz, que nutre ambição de se candidatar a chanceler em 2022. Envolvidos no empresariado da crise, seja em âmbito das regiões administrativas (Länder) ou em âmbito federal, estão visivelmente em campanha, querendo causar a melhor impressão, mas isso ocorre de forma discreta, decente e, acima de tudo, séria e responsável. Depois que retornou da quarentena, Merkel exibe, como nunca antes, aura de soberania, ao mesmo tempo serenidade e pulso para delinear o caminho a ser tomado no momento que ela classificou como o “maior desafio desde a II Guerra Mundial.”

Jens Spahn, ministro da Saúde, ocupa o terceiro lugar na lista dos políticos de maior aceitação. Porém, esses dados foram contabilizados antes da chanceler mexer os pauzinhos e subtrair poderes de Spahn, delegando-os para o ministro da Economia.

Nas redes sociais e nos programas de sátira política, Spahn foi, desde sempre, motivo de chacota. A revista Titanic, de sarcasmo ácido, postou no Facebook uma foto com a legenda: “Temos todos que morrer por causa desse cara imbecil?”. A resposta de Spahn é: “siiiim!”.

Brasil-Chacota XXL

No contexto de sátira política, o Brasil em desgoverno não poderia faltar. O programa extra 3, da emissora NDR, de Hamburgo, oferece um “Diploma Bolsonaro da Universidade de Brasília” para quem denominar o vírus de “histeria” ou “uma gripezinha”.

“Bolsonaro conseguiu o que nem mesmo Trump almejou. Dois posts dele foram deletados pelo Twitter Brasil por terem violado “informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais e que possam colocar as pessoas em maior risco de transmitir a covid-19”.

Na semana depois da Páscoa, Merkel brilhou mais uma vez durante a coletiva de imprensa. Empatia nunca foi uma característica nem de sua personalidade, nem de seu estilo de governo, mas a maestria em administrar crises, até das mais imprevisíveis, ela tem. Como uma cientista para berlinense nenhum botar defeito, ela delineou um processo complexo de corrente de infecção da forma mais clara e simples além de exibir o regozijo de conhecer a matéria. Nenhum governante no continente europeu, além de Merkel, possui tal portfólio que angaria tantas virtudes e tantas qualidades. Nem é preciso olhar para o desabamento político e de saúde pública no Brasil para se sentir aliviado em viver num país onde os governantes sabem o que falam e, na maioria das vezes, sabem o que fazem. Merkel sendo cientista e doutora em Física – e casada com Joachim Sauer, doutor em química -, além de exímia em administrar crises, é um privilégio. E muita sorte.

Ao contrário do que divulga grande parte da imprensa brasileira, exigem medidas diversas adotadas pelas regiões administrativas (Länder). Enquanto a Renânia do Norte-Vestfália, para desagrado da chanceler, decidiu abrir grande parte do comércio, como também escolas, o governo da Baviera se mostra bem mais cuidadoso. Em discurso no parlamento, na manhã de segunda-feira (20 de abril), o ministro-presidente Markus Söder delineou a estratégia do seu gabinete e, em indireta para seu maior concorrente na luta pelo título “quem administra melhor?”, declarou que abrir escola primária e jardim de infância requer muito mais cuidado, já que é mais “difícil controlar os procedimentos de higiene nas crianças do que nos adolescentes e adultos”. A partir do dia 20, abrirão na região lojas com superfície de até 800 m². Também oficinas, lojas de bicicleta, livrarias, mercados de construção e lojas de artigos para bebês poderão abrir se cumprirem certos procedimentos de higiene e distanciamento. O ministro-presidente Laschet, que está na competição para suceder Merkel no comando do partido, segue um caminho perigoso. Se as novas medidas resultarem em um efeito de aumento das infecções, isso lhe terá custado mais do que a candidatura para chefiar o partido, o CDU. Vai lhe custar a carreira política se a fatura não fechar.

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Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim desde 1988 e testemunha ocular da queda do Muro de Berlim. Formada em Letras (RJ), tem curso básico de Ciências Políticas pela Universidade Livre de Berlim e diploma de Gestora Cultural e de Mídia da Universidade Hanns Eisler, Berlim. Atua como jornalista freelancer para a imprensa brasileira e como curadora de filmes.