Monday, 04 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Da #fiqueemcasa para a #usemáscara, o discurso do retorno à normalidade

(Foto: iStock)

Para identificar os posicionamentos da elite econômica brasileira (e, consequentemente, da classe média) frente à pandemia do coronavírus, é preciso compreender as movimentações discursivas de seus principais porta-vozes: os grandes grupos midiáticos.

Na segunda quinzena de março, quando o Brasil já começava a registar números consideráveis de infectados, a premissa de que o isolamento social era a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus era predominante entre a elite, o que foi devidamente reverberado pela mídia hegemônica.

Não se tratava de um posicionamento altruísta, pois, além das trágicas imagens que nos chegavam de países europeus (que contabilizavam seus mortos aos milhares), havia um grande temor de que o (sucateado) sistema de saúde brasileiro não fosse capaz de suportar uma possível explosão de pessoas adoentadas em um intervalo curto de tempo, fator que certamente geraria um caos social.

Desse modo, medidas de governadores e prefeitos determinaram que somente os setores econômicos considerados como “essenciais” permaneceriam em seu funcionamento normal. Surgia, então, a campanha “fique em casa”.

No entanto, em nosso distópico país, “somos todos iguais, mas alguns mais iguais do que os outros”. À exceção de médicos e profissionais da imprensa, as pessoas que não poderiam ter a prerrogativa de permanecer em quarentena estavam nos estratos inferiores da pirâmide social. Por outro lado, muitos profissionais liberais continuaram suas atividades em regime de home office, a expressão estrangeira da moda.

A campanha “fique em casa”, então, foi direcionada basicamente para as classes média e alta. Nas principais emissoras de televisão, jornais impressos e na internet surgiram vários tutoriais sobre como enfrentar a quarentena: lave bem as mãos, faça um curso online, mantenha a mente ativa, leia vários livros, medite, torça por seu brother favorito no BBB, desenvolva novas habilidades, invente pratos diferentes, aproveite a live de seu cantor preferido ou assista jogos clássicos de copas do mundo no SporTV.

Mas nem todos os indivíduos das classes mais abastadas podem manter seus rendimentos por meio do home office ou viver de especulação financeira. Muitos obtêm seus ganhos a partir da mais clássica das relações capitalistas: a exploração da mão de obra alheia.

Não obstante, a segunda data comercial mais lucrativa (Dia das Mães) se aproxima e, o que é mais preocupante, comércio e indústria relativamente paralisados colocam em risco o próprio andamento da economia de mercado.

Portanto, nos últimos dias, intensificou-se a campanha pela reabertura total do comércio, sob eufemismos como “retorno à normalidade”, “vamos salvar a economia”, “flexibilização” e “afrouxamento da quarentena”. Até mesmo governadores e prefeitos que, a princípio, adotaram políticas favoráveis ao isolamento social paulatinamente foram mudando de ideia. A voz do mercado fala mais alto do que a voz da ciência.

E daí se o número de contaminados pelo coronavírus esteja crescendo a passos largos? E daí que milhões de pobres coloquem suas vidas em risco ao usar transportes coletivos superlotados? E daí se milhares, ou mesmo milhões, poderão morrer? E daí se o Brasil já ultrapassou a China em número de óbitos por covid-19? Nosso Messias não faz milagres. Todos vão morrer um dia.

Muitos negros também perderam suas vidas na travessia entre os continentes africano e americano e nem por isso o sistema escravista não obteve êxito. Trabalhadores são facilmente substituídos: para isso existe o exército industrial de reserva. Além do mais, o brasileiro está acostumado a pular no esgoto e não pegar nada. Não é uma gripezinha que vai nos derrubar (sobretudo aqueles que têm histórico de atleta).

Conforme afirmou um empresário do ramo de alimentação, ao invés de estar com medo de pegar o vírus, os trabalhadores deveriam estar com medo de perder o emprego.

Diante dessa urgente necessidade de determinados setores econômicos em retornar à normalidade, surgiu uma nova campanha, abraçada, principalmente, pelos noticiários locais. Saiu a hashtag “fique em casa”, entrou a hashtag “use máscara”.

Os tutoriais midiáticos da vez não estão mais relacionados a ficar em casa, mas sobre como “ir às ruas de maneira segura”: use máscara, cubra boca e nariz, não se esqueça de passar álcool gel nas mãos, mantenha-se distante de outras pessoas, retire seus calçados ainda na porta de casa, tome banho ao chegar da rua, etc.

E, assim, boa parte da mídia brasileira vai tentando convencer a população para que a vida continue normalmente, como se não estivéssemos mais sob a ameaça de um terrível vírus. Segundo o dono da CNN Brasil, “o isolamento total e prolongado vai dizimar pequenas e médias empresas no Brasil”. Para a comentarista da Jovem Pan, Denise Campos de Toledo, a possibilidade de flexibilização da quarentena anima o mercado.

Evidentemente, não defendo o fim do isolamento social, tampouco sou contra o uso de máscaras. No entanto, é importante frisar que tais medidas são inócuas se não forem acompanhadas de outras ações, como garantir a segurança dos trabalhadores nas fábricas, realizar testes em massa para o coronavírus e colocar em práticas políticas públicas consistentes que possam assegurar um rendimento básico para aqueles que devem ficar em casa.

Também é preciso denunciar que defender o chamado “retorno à normalidade”, quando ainda nem chegamos ao pico da pandemia do coronavírus, não é uma mera escolha econômica, mas um posicionamento genocida e criminoso (o triste caso da região italiana da Lombardia não nos deixa dúvida sobre essa questão). Como dizia o velho Marx: no capitalismo, os trabalhadores são meras mercadorias, passíveis de serem trocadas por outras, assim como é feito com uma máquina quando ela não dá mais conta de operar satisfatoriamente. Afinal de contas, lembrando as palavras do dono de uma famosa rede de restaurantes: o Brasil não pode parar por cinco ou sete mil mortes.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Autor dos livros A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes (parceria com Vicente de Paula Leão) e 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático, ambos pela editora CRV.