Monday, 24 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

Arrogância do ministro Rosário na CPI da Covid lembrou os construtores do Titanic

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

A história é velha e muito conhecida. Lembrei-me dela na quinta-feira (21/09), quando vi o depoimento do ministro Wagner Rosário, da Controladoria-Geral da União (CGU), na Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 no Senado, a CPI da Covid. Ele respondeu as perguntas dos senadores misturando arrogância, cinismo e grosseria. A arrogância do ministro lembrou-me a dos construtores do Titanic, que venderam a ideia de que o navio não poderia afundar. Na primeira viagem, entre Southampton, na Inglaterra, e Nova Iorque, Estados Unidos, entre a noite de 14 e a madrugada de 15 de abril de 1912, o luxuoso transatlântico bateu em um iceberg, no Atlântico Norte, e afundou matando 1.496 dos 2.228 passageiros e tripulantes. Graças à arrogância dos construtores o Titanic tinha apenas metade dos botes salva-vidas necessários e a isso deveu-se a maioria das mortes desse que foi um dos maiores naufrágios da humanidade, e que rendeu inúmeros filmes de Hollywood — a última versão foi em 1997, estrelada por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet — além de uma enorme quantidade de documentários na internet sobre os construtores e a construção do navio.

O ministro Rosário é funcionário de carreira da CGU, foi capitão do Exército por mais de duas décadas e tem vários cursos de especialização. Aos 45 anos, é um típico burocrata de Brasília (DF) que esperava uma chance de progredir na carreira. Foi nomeado para o cargo pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) e aguardava uma oportunidade para mostrar serviço para o seu novo chefe, o atual presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Tanto que insistiu em ir depor na CPI da Covid. Qual era a sua intenção? Por tudo que li e conversei com fontes e colegas a respeito do ministro, ele tem um bom domínio de como funcionam as entranhas da CGU. Aqui darei uma explicação que considero importante. A maior dificuldade que o repórter tem é entender como funcionam as máquinas administrativas federal, estadual ou mesmo a municipal. Lembro que quando aconteceu a tragédia da Boate Kiss, um incêndio na noite de 27 de janeiro de 2013 que matou 242 pessoas e feriu 680 em uma casa noturna em Santa Maria (RS), eu e outros repórteres ficamos quase um mês batendo cabeça para entender como os órgãos da prefeitura e do Corpo de Bombeiros funcionavam para podermos compreender o tamanho do problema que tínhamos nas mãos e como encontrar os culpados. Voltando a contar a história. O ministro colocou o seu conhecimento sobre a CGU à disposição do presidente Bolsonaro com o objetivo de “mostrar que os senadores da CPI da Covid não sabem o que aconteceu”.

Os senadores queriam saber sobre a atuação da CGU no caso das vacinas Covaxin, da Índia, que envolveu a empresa Precisa Medicamentos e os irmãos Miranda. Houve uma tentativa de superfaturamento da empresa e o caso foi levado ao presidente Bolsonaro pessoalmente pelos Miranda — há matérias na internet. Outro caso foi o da vacina AstraZeneca, do Reino Unido, que ficou conhecido como “um dólar por vacina” — há reportagens na internet. Arrogante e cínico, o ministro Rosário brincava com os senadores, esquivando-se de responder as perguntas com argumentos do tipo: “Eu não tenho que saber”. Quando era apertado pelos inquisidores para dar uma resposta precisa, dizia que o processo estava em andamento e que chegaria nela quando estivesse pronto. Brincou de esconde-esconde com os senadores durante uma boa parte do dia. Até que a senadora Simone Tebet (MDB-MS) jogou uma isca e o ministro a mordeu. Fez-se acreditar que não sabia como as coisas andavam da CGU.

Aos poucos, como quem degusta um bom vinho, ela começou a explicar como as coisas acontecem dentro da Controladoria. Tomou o cuidado de separar os funcionários da CGU do ministro. Ela mostrou as datas e pelas mãos de quem os processos tramitaram. E finalmente disse o seguinte: “O senhor é fiscal do governo. Não advogado do presidente”. Rosário perdeu o controle e foi com tudo para cima da senadora. Disse que ela deveria ler tudo novamente porque não tinha entendido nada. Tebet se irritou. Ele a chamou de “descontrolada”. O pau fechou e a sessão foi interrompida — há matéria na internet. Aqui o que nós jornalistas precisamos ficar atentos. A senadora teve o cuidado de colocar a sua assessoria a descobrir como as coisas funcionam dentro da CGU.

No final, Rosário, que havia ido depor como testemunha, saiu de lá como investigado. E colocou um pedido de desculpas nas suas redes sociais por ter ofendido a senadora. O ministro entrou como caçador na história e saiu de lá como caça. Foi inteligente porque tratou de se desculpar e com isso ficar longe de uma ação na Justiça que poderia custar o seu emprego, ele que é funcionário de carreira. Seguiu o caminho do auditor do Tribunal de Contas da União (TCU) Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques. O auditor entregou para o pai dele, Ricardo Silva Marques, que foi colega de presidente Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras, um rascunho com anotações que questionavam o número de mortos pela Covid. E insinuava que os governadores e prefeitos estão inflando o número. As anotações foram parar nas mãos de Bolsonaro como se fossem um relatório do TCU. Na CPI da Covid, Marques contou toda a história para os senadores — há matérias na internet. No final, salvou o emprego e foi punido com um afastamento, sem salário, de 45 dias. O ministro Rosário começou a pensar no seu emprego.

Texto publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais.