Monday, 22 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Joelhaço no Pescoço da Democracia

(Foto: Fotos Públicas/Governo da província de Cordoba)

Saramago nos ensinou, eles querem guerra, nós não vamos deixá-los em paz. Reagimos. Mas o Brasil estava tão tóxico que até o silêncio deste Bolsonaro 2 nos preocupa. Uma semana sem Jair. Ele está descrito na poesia do amigo de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, “eu não sou eu nem sou o outro / sou qualquer coisa de intermediário”. O presidente agora é um duplo do Bolsonaro 1 e ninguém duvida das razões deste camaleão. As Cortes Supremas enjaularam seu Zero 1, prenderam a peça-chave Fabrício Queiroz, cortaram as asas do Anjo: o advogado Frederick Wassef, que escondia o assessor das rachadinhas do então deputado Flávio Bolsonaro. Segundo ele, escondia do próprio Bolsonaro.

Agora são dois homens-bomba nas mãos da Justiça. Há dias não se ouve um palavrão, um acesso de raiva, um ataque de ódio, nenhum broche na lapela com uma caveira cravada por uma faca, uma das audiências de lobistas de armas comuns no governo.

Não sabemos até quando Zelig se vestirá de Bolsonaro 2. Flávio já conseguiu que seu processo corra na segunda instância, o que é ilegal, porque está sendo julgado em 2020 como se ainda fosse deputado estadual – com o fim do mandato em janeiro do ano passado, acabou o foro privilegiado. A competência para apuração é da primeira instância. Como conseguiu isso foi um milagre que o só o Anjo poderá explicar. Mas deu um respiro na aflição de Bolsonaro, um elo pode respingar nele. Até conseguir contornar a Justiça, sabe-se lá com quais privilégios, Jair está uma doçura. Fez o primeiro ato em lembrança aos mortos por Covid-19. Agradeceu a harmonia dos Poderes ao lado de Dias Toffoli. Até se parece com os demais presidentes do mundo civilizado.

O Brasil é que perdeu a parada. O Gigante da América Latina se dissolveu em absurdos. Tornou a terra plana, desmatou a Amazonia, desconheceu a identidade dos povos indígenas, condenou ao ostracismo as universidades e escolas nos três graus, colocou no IPHAN uma blogueira formada em Turismo e na Fundação Palmares um presidente que desconhece Zumbi, retirou do edital do CNPQ a área de humanidades.

O Brasil emudeceu a Cultura. Na inserção mais importante de Regina Duarte – a entrevista na CNN em maio –, a então Secretária levou um processo de R$ 70 mil. Regina cantou o hino da ditadura Prá Frente Brasil e ao ser questionada sobre tortura respondeu, “todo mundo tortura”. A autora do processo, Lygia, é filha do diplomata José Jobim que desapareceu em 1979 após revelar que denunciaria o superfaturamento na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Seu corpo foi encontrado dias depois pendurado pelo pescoço numa árvore baixa e pequena perto da Ponte da Joatinga, no Rio. Como no suicídio de Vladimir Herzog, suas pernas tocavam o chão. A usina custou dez vezes mais do que o previsto (US$ 30 bilhões).

Para o descrédito do Brasil, pior foi o governo renegar mais de 1 milhão de mortos pelo vírus e cortar os elos com o resto do mundo e com a Organização Mundial da Saúde. Dos quase R$ 40 bilhões liberados para Saúde, a pasta não usou nem 30%. Bolsonaro é visto como um pária.

Onde mais doeu foi na economia: 29 grandes fundos estrangeiros que administram US$ 4,1 tri alertaram em carta as incertezas de se investir num Brasil onde as boiadas de Ricardo Salles provocam o aumento descontrolado do desmatamento. A ala ideológica do governo, liderada pelo chanceler Ernesto Araújo e a inacreditável ministra Damares Alves dos Direitos Humanos, derreteu nossa dignidade do exterior. O governo estuda um plano para melhorar a imagem lá fora onde está o ex-ministro Abraham Weintraub, o que dificulta tudo.

A revista The Economist, bíblia para esses fundos bilionários, alertou na edição de 13-19 de junho, “todos estão certos em se alarmar, a democracia do Brasil corre perigo”.

Foi por este e outros sustos que Bolsonaro 2 surgiu.

Ousou desagradar os olavistas e escolheu um Ministro da Educação ao gosto do Centrão e da ala militar. Carlos Decotelli é um técnico que, comparado com o antecessor, poderia ser uma dádiva. Mas traz nas costas o edital de R$ 3 bilhões para a compra de 1,3 milhão de computadores quando presidia o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação: 355 colégios receberiam mais de um computador por aluno e o edital foi cancelado. Decotelli já chegou no MEC mentindo sobre seu pós-doutorado na Alemanha segundo a própria Universidade alemã de Wupertal, e o reitor da Universidade Nacional de Rosário desmente o doutorado. Franco Bartolacci diz que ele não defendeu a tese e não levou o título que incluiu na sua plataforma Lattes. É acusado de plágio em três largos parágrafos da dissertação de mestrado que apresentou na FGV-Rio. Aliás, nem o novo Coordenador Nacional de Saúde Bucal do Governo Federal, Vivaldo Guimarães Junior, é dentista. Nada demais, o Ministro da Saúde Eduardo Pazuello é um general.

Fazer de conta é uma prática do governo. Ou alguém acredita que Wassef escondeu Queiroz em Atibaia por razões humanitárias, para que o presidente não fosse chamado de assassino? Segundo ele, o ex-assessor de Flávio estava ameaçado de morte por forças ocultas.

Wassef mentiu antes ao dizer que não sabia onde estava Queiroz, e agora é alvo dos Bolsonaro como o homem-que-sabe-demais. Foi substituído na defesa das rachadinhas de Flávio por Rodrigo Roca, que sempre defendeu os militares por torturas como no caso do deputado federal Rubens Paiva em 1971. E na defesa dos militares acusados de planejar o atentado frustrado no Riocentro em 1981, quando a bomba que explodiu no colo do sargento atingiria 20 mil pessoas no espetáculo organizado pelo Centro Brasil Democrático.

A democracia corre perigo, sim. Para revirar o caso das rachadinhas aposta-se na delação premiada de oito servidores da ALERJ entre os 22 lotados no gabinete de Flávio. E na derrubada, nos tribunais de Brasília, da decisão da corte fluminense que, ao mandar a investigação contra ele para o Órgão Especial, desrespeitou a jurisprudência atual do STF.

Até lá, teremos Bolsonaro 2 na presidência, a arruaceira Sara Winter de tornozeleira, Weintraub boicotado mas insistindo para assumir uma cadeira no Banco Mundial. E com cinco processos nas costas, Arthur Lira liderando o Centrão com nove partidos e apoio de 206 deputados, robotizando Bolsonaro 1. Daí o Bolsonaro 2 obediente para não cair.

Mas nem depois de baixar as calças para Trump, o Brasil de Bolsonaro mereceu mais do que seis menções no livro The Room Where it Happened: a White House Memory (A Sala onde tudo Aconteceu: Memórias da Casa Branca). Em todas as menções, para apressar a saída de Nicolás Maduro da Venezuela. No livro, o ex-assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, relata os 453 dias em que esteve nesta Sala, e em 588 páginas cita Bolsonaro apenas duas vezes.

Ernesto Araújo abalou as estruturas do Itamaraty com sua guinada ideológica. Nem com reembolsos de 20 a 30% dos valores gastos a produções internacionais, São Paulo consegue atrair diretores para filmar no Brasil. As pessoas têm medo do Brasil. Em parte pela negação da ciência e os 60 mil mortos por Covid-19. Em parte pela péssima imagem do governo. Os brasileiros emigram, só em Portugal já há mais de 151 mil residentes mas cerca de 80% ou 5 mil pessoas foram barrados no país ano passado.

Aqui, a retração será a maior em 40 anos, a economia pode encolher 9,1% este ano, segundo o FMI. A renda per capita despenca 14%. Com a pandemia, a desigualdade e o desemprego aumentam, os mais velhos e vulneráveis sofrem preconceito.

Mesmo sob nova capa, 54% dos brasileiros consideram Bolsonaro pouco inteligente segundo pesquisa da Datafolha realizada entre os dias 23 e 24 de junho. A rejeição ao governo oscila entre 43% e 44%, e para 46% nunca é possível confiar no que ele afirma. Mas os mesmos 32% continuam apoiando o presidente e integrantes das classes C e D explicam “não deixam o homem trabalhar”. No estudo Bolsonarismo em Crise, publicado pela Friedrich Ebert Stiftung Brasil, a socióloga Esther Solano identifica as críticas pela confusão sobre o que é Estado de Direito e Democracia. O nível educacional é baixo ou nenhum, o abandono do governo é imenso e os amparos recaem sobre a Igreja ou na crença no populismo que elegeu Bolsonaro.

Mas mesmo com o joelhaço do governo sufocando a nossa democracia de apenas 35 anos, a pesquisa Datafolha identifica 75% no Brasil a favor dela. O Brasil está estagnado, com má distribuição de renda, exclusão social e a pior crise de saúde em 100 anos. O governo oscila entre a ala militar e a ideológica, Bolsonaro 1 e Bolsonaro 2. O Brasil aguarda o julgamento que corre no STF e TSE das fake news ajudando a eleição da chapa Bolsonaro-Mourão para celebrar um futuro que não chega.

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Norma Couri é jornalista.