Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Mídia busca apresentar Lula e Bolsonaro como dois lados da mesma moeda

(Foto: Depositphotos)

Nas últimas décadas, o ex-presidente Lula – por sua origem humilde, defesa de políticas sociais e capacidade de mobilizar as massas populares – tem sido um dos principais alvos das manipulações dos grandes grupos de comunicação do país (porta-vozes dos interesses das classes dominantes).

A perseguição midiática a Lula remete ao final dos anos 70, quando ele liderou os clássicos movimentos grevistas dos metalúrgicos da região do ABC paulista, em pleno regime militar. Nas campanhas presidenciais de 1989, 1994, 1998 e 2002, Lula continuou sendo um dos alvos preferenciais dos ataques da imprensa hegemônica. Também não foi diferente em seus dois mandatos presidenciais e no processo político que culminou em sua prisão, em abril de 2018.

Na última semana, o ex-presidente voltou a ser notícia nos principais jornais do país por ter feito a seguinte declaração em entrevista por videoconferência à Carta Capital:

“Quando eu vejo essas pessoas acharem que tem que vender tudo que é público e que tudo que é público não presta nada. Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus, porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar, que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises”.

Retirada de seu contexto, a declaração foi utilizada pela mídia hegemônica como pretexto para criar a falsa narrativa de que Lula, assim como Bolsonaro, seria indiferente aos milhares de vítimas da covid-19. Isso significa colocar no mesmo balaio duas propostas políticas diametralmente opostas.

Enfim, a mídia teria encontrado o equivalente lulista ao “e daí?” bolsonarista. “Lula e Bolsonaro são criticados juntos nas redes por frases polêmicas no dia em que Brasil tem 1.179 mortes”, noticiou a Folha de S.Paulo.

Segundo Camila Yunes da Jovem Pan, “no mesmo dia em que o Brasil confirmou o recorde de mortos por coronavírus, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou para enaltecer o que entende ser um efeito positivo da pandemia”. Para Mariana Muniz da Veja, “Lula comemorou impacto do coronavírus na política liberal de Paulo Guedes”. Reinaldo Azevedo (ultraconservador que agora posa de progressista) escreveu em sua coluna no UOL que “o diabo e o anjo disputam Lula; chifrudo leva melhor; Bolsonaro agradece”.

Também as redes sociais foram tomadas por uma enxurrada de postagens que igualavam Lula e Bolsonaro. No Facebook, uma internauta escreveu: “Bolsonaro acha que o corona é cria da Globo, da esquerda, uma conspiração para tirá-lo do poder. Lula, acha que até foi bom tal criação da natureza. Olha os líderes do fanatismo, como eles se acham acima do bem e do mal”. Já uma imagem bastante compartilhada no Instagram apresentou Bolsonaro e Lula sobre pilhas de cadáveres com os dizeres “e dai?” e “ainda bem!”.

Em seu perfil no Twitter, a ex-apresentadora da Rede Globo, Carla Vilhena, igualou as falas de Lula e Bolsonaro a respeito da pandemia coronavírus. “Meu ouvido não é penico, senhores”, disse a antiga âncora substituta do Jornal Nacional.

“Lula comemora a existência do coronavírus que matou milhares. Vale tudo no jogo de poder desse psicopata. […] Eu digo que infelizmente o diabo criou esse monstro chamado Lula”, escreveu o deputado federal do Partido Social Cristão, Paulo Eduardo Martins, no Twitter.

No entanto, ao contrário dos articulistas midiáticos, dos lacradores das redes sociais e dos “isentões” de plantão, assistimos a todo o conteúdo da videoconferência. Basta uma simples análise hermenêutica para compreender que a fala de Lula buscou dar ênfase na importância do Estado e na ineficiência do mercado para o bem-estar da população.

Como bem frisou o jornalista e editor-responsável pelo jornal Brasil 247 Leonardo Attuch, “qualquer pessoa alfabetizada é capaz de compreender o sentido desta frase. Foi o necessário que surgisse uma pandemia para que a humanidade começasse a enxergar o desastre neoliberal e corrigisse seu curso. Mas, não. Na imprensa […] Lula comemora o vírus como se celebrasse as milhares de mortes que estão ocorrendo no Brasil”.

No site Antropofagista, Celeste Silva fez uma oportuna comparação entre os recentes ataques realizados pela Rede Globo a Lula e a manipulação sobre o debate entre Collor e Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 1989, feita pelo Jornal Nacional com o intuito de prejudicar o petista. Para a articulista, é bastante óbvio que os Marinho entenderam o que Lula quis dizer quando mencionou a frase “ainda bem que a natureza criou o coronavírus”. “Se Lula estivesse elogiando o mercado, jamais a Globo pinçaria uma frase, tirando-a de contexto, para parecer o oposto do real significado”, concluiu Celeste.

Evidentemente, ao dizer “ainda bem!”, o ex-presidente foi bastante infeliz (aliás, ele próprio fez questão de se retratar sobre isso). Bastava utilizar algo como “precisou vir um coronavírus para nos mostrar a ineficiência do modelo neoliberal em lidar com hecatombes sanitárias”. Teria evitada todo esse imbróglio semântico.

Apesar do equívoco, sabemos perfeitamente que não houve uma intenção de Lula em defender ideais genocidas. Podem rotular o ex-presidente de “pelego”, “conciliador” ou “moderado”; mas, em sua longa trajetória política, ele jamais exaltou torturador do regime militar, defendeu uma guerra civil para matar trinta mil pessoas ou o fuzilamento de um presidente da República.

Até o youtuber Felipe Neto, conhecido crítico do PT, admitiu que é um erro querer colocar Bolsonaro e Lula no mesmo nível, como se estivéssemos em período eleitoral. “Estamos no meio da luta contra um fascista mau caráter e criminoso, com um plano de poder e controle do país. Este homem está lá, ele não está disputando o poder, ele já o tem. Não sou lulista, não viso o crescimento de popularidade do Lula, mas a luta é contra algo muito maior”, apontou Felipe.

Diferentemente de Bolsonaro, que geralmente reforça suas declarações equivocadas, Lula se retratou imediatamente. Além do mais, não vemos por aí simpatizantes de Lula agredirem jornalistas ou profissionais de saúde como têm feito frequentemente os bolsonaristas.

Já há algum tempo, articulistas tendenciosos tentam associar as figuras de Lula e Bolsonaro como se fossem dois lados da mesma moeda: o extremismo. Em um artigo de apenas três parágrafos, que mais parece um panfleto de quinta categoria, Josias de Castro insinuou que bolsonarismo e lulismo são extremos que se tocam. Opinião análoga é compartilhada pelo jornalista Mauricio Huertas, do blog conservador Cidadania 23, que considera “o bolsonarismo e o lulismo fenômenos idênticos, siameses, espelhados à direita e à esquerda, que se retroalimentam e contaminam a democracia com muito ódio, preconceitos, intolerância e ideologias igualmente ultrapassadas”.

Também não faltam aqueles que buscam colocar na conta de Lula a ascensão de Bolsonaro e do bolsonarismo. Para a anteriormente citada Mariana Muniz, “não fossem os escândalos de corrupção e os descalabros na política econômica na era PT, talvez agora o caixa estatal não estivesse tão quebrado, e talvez agora o país não tivesse Bolsonaro no Planalto”.

Nada mais falacioso. Bolsonaro e seus seguidores são, justamente, consequência do ódio ao PT. Conforme destacou um dos autores deste artigo, aqui mesmo no Observatório da Imprensa, ao lembrar Bertolt Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio. No Brasil, ela foi retirada da coleira para reforçar manifestações antipetistas (com total anuência da mídia), saiu do controle, e agora pede intervenção militar, a volta do AI-5 e quer o fim do isolamento social para conter a pandemia do coronavírus”.

Mas, afinal de contas, quais são as intenções dos articulistas da grande mídia em associar as figuras de Lula e Bolsonaro? Trata-se de uma questão meramente ideológica de apontar pontos em comum de dois homens públicos que eles consideram “extremistas”?

A resposta é simples. Após as jornadas de junho de 2013, houve uma grande polarização ideológica no Brasil, o que é perfeitamente normal em uma sociedade capitalista como a nossa. Assim, enquanto os setores da esquerda buscaram consolidar seus posicionamentos, o apoio popular à direita tradicional migrou para a extrema-direita.

Portanto, eliminar do jogo político tanto a esquerda (a quem Lula representa) quanto a extrema-direita (cujo principal nome atualmente é Bolsonaro) poderá abrir o caminho para o ressurgimento eleitoral da direita tradicional (neoliberal como Bolsonaro, porém não tão grosseira intelectualmente como o ex-capitão do exército).

Criar essa alternativa é uma questão urgente para as elites brasileiras. Lembrando mais uma vez Felipe Neto, em sua entrevista ao Roda Viva, trata-se de viabilizar eleitoralmente um nome que esteja no arco político situado nem à esquerda de Ciro Gomes (como Lula) nem à direita de Amoêdo (como Bolsonaro).

Aliás, reconduzir as forças políticas da direita tradicional ao poder máximo da nação foi o principal objetivo da campanha antipetista e do impeachment de Dilma Rousseff; porém, parafraseando Mané Garricha, faltou combinar com a extrema-direita.

Em última instância, a imprensa brasileira faz o possível para eliminar a chamada “polarização” porque ela simboliza a luta de classes, motor da economia de mercado.  Por mais conciliador que possa ser, o histórico político de Lula faz com que ele seja o único nome da esquerda brasileira capaz de canalizar as demandas populares e ofereça, de fato, uma oposição consistente à política neoliberal de terra arrasada colocada em prática pelo atual governo. É justamente isso que elite e mídia temem.

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Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ. Autor dos livros A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes (parceria com Vicente de Paula Leão) e 10 anos de Observatório da Imprensa: a segunda década do século XXI sob o ponto de vista de um crítico midiático, ambos pela editora CRV.

Maria Fernanda Oliveira Bispo atua no comércio de acessórios automobilísticos. Participou da pesquisa “Projeto de Mobilidade Urbana no bairro Castelo”, trabalho que surgiu da necessidade e da luta por mais qualidade e eficiência no serviço de transporte público na região do Castelo (Belo Horizonte) e entorno.