Sunday, 21 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Um país rumo à teocracia

Foto: Isac Nóbrega/PR

Vocês me desculpem, mas parece não haver mais jeito. O Brasil vai acabar. Vai acabar o Brasil da época de minha mocidade e de ainda há alguns anos. O Brasil da alegria solta e descompromissada, que fez nosso sucesso no estrangeiro. O Brasil do Ary Barroso, Dorival Caymmi, Chico Alves, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e tantos outros cantando nossa maneira livre de viver, nossa irreverência, nosso gosto pelo sabor do pecado, pelo rebolar das cabrochas, pelas morenas dengosas, nossas gargalhadas gostosas, nosso riso incontido, nossa inconsequência, nosso samba, nosso Carnaval…tudo isso acabou, vivemos agora uma quarta-feira de cinzas sem fim.

E de onde nos vem essa desgraça, essa maldição, essa tristeza constante, esse olhar perdido de condenados, esse medo do além, esse desejo de submissão, essa vontade covarde de criar calos nos joelhos dobrados, esse remoer de novenas, esses cantos soturnos de salmos e hinos de condenados, anestesiados de tanto ouvir o repetir de mentiras, sem coragem e nem força de se rebelar? Quem nos roubou nossa consciência de povo feliz, mesmo na pobreza mas sempre na luta por conquistas sociais, aqui, agora, para nossos filhos e nossos netos. Quem promete o paraíso em troca de uma vida no inferno?

É uma praga, que se alastra, corrói e destrói. Mais forte que o coronavirus porque justifica o genocídio, rejeita as vacinas, se opõe ao confinamento e aceita esse tipo de holocausto como uma vontade divina indecifrável ou castigo mesmo imerecido ou ainda sinal de fim do mundo, que nega existir um culpado. Essa praga tem um nome chama-se fanatismo e só cresce e se desenvolve em terrenos incultos, regados pela ignorância. É um degenerescência da mensagem de paz e amor, no contato com o cultivo do ódio, adubado com o mais baixo populismo, por aproveitadores, hipócritas, e enganadores da pior espécie.

Quem poderia prever que o protestantismo, um dos elementos detonadores e inspiradores, no século XVI, dos movimentos de ruptura com as trevas medievais do absolutismo religioso e político, dos quais decorrreram a liberdade de interpretação das Escrituras antes intocáveis e, por tabela, a liberdade de expressão e a democracia, iria sair essa excrecência evangélica dos nossos dias?

Hoje os evangélicos são cerca de 70 milhões de pessoas, cerca de um terço da população, e a principal coluna de apoio do governo Bolsonaro. Difícil de entender como o programa de governo do candidato Bolsonaro atraiu os evangélicos, mais difícil ainda de compreender como essa base de apoio se manteve fiel diante da crise do coronavírus, tornando-se negacionista com relação às vacinas e ao confinamento, sendo envolvida pelas teorias de conspiração de QAnon, acreditando piamente nas notícias falsas ou fake news distribuídos pelo chamado gabinete do ódio.

O evangelismo brasileiro deixou de ser um movimento religioso reacionário, um subproduto de seitas populares evangélicas norte-americanas, para se transformar num movimento neofascista de sustentação do governo Bolsonaro. Como isso ocorreu, e tão rapidamente, a ponto de logo suplantar o tradicional culto católico, merece uma pesquisa aprofundada. Os evangélicos seguidores de Bolsonaro, pouco diferem dos evangélicos seguidores de Trump, mesmo se existe uma contradição doutrinária com o credo político e com o comportamento desses dois políticos.

Fator novo na política brasileira, a fidelidade política decorrente de um fanatismo religioso teleguiado por redes de Internet e dirigido por pastores, na maioria sem formação teológica, na verdade espertos vendedores de planos de salvação post-mortem, vai conduzir o Brasil a um retrocesso social ditado por princípios religiosos. E, caso prossiga o aumento dos fiéis evangélicos, o Brasil acabará abandonando sua tradição republicana, democrática e laica para ser catalogado como país religioso, teocrático, como são os países muçulmanos e budistas.

A reabertura das igrejas para os fiéis, por decisão do mais recente juiz do STF, nomeado por Bolsonaro, é mais que sintomática. Hoje os demais juízes reagem, porém estão previstas novas substituições por Bolsonaro, uma delas já prometida aos evangélicos. Serão novos juízes que, durante algumas décadas, sedimentarão os novos comportamentos sociais defendidos pelo populismo evangélico.

Será o fim do teatro de críticas sociais e de certa liberdade, assim como será o fim da música brasileira irreverente e crítica substituída por canções próximas do gospel evangélico. Será o fim de todas as artes. Se os partidos da oposição abrirem mão de um próximo pedido de impeachment de Bolsonaro, aceitando esperarem as eleições do próximo ano, será tarde demais. Perderemos nossas grandes empresas, perderemos nossas liberdades e perderemos nosso jeito brasileiro de viver, de cantar e de rir. Bolsonaro e os evangélicos terão acabado com o Brasil.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.