Tuesday, 23 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

No Rio não têm bloquinho: antropologia das ruas e dados para cobrir o carnaval

(Foto: Reprodução)

Uma pesquisa do Torabit que mapeou o carnaval nas redes revela curiosidades e pode servir de estratégia para a produção de conteúdo editorial ou acadêmico. Demonstra como o uso de dados nos ajuda a entender essa grande festa popular, que segue se reinventando como força econômica, antropológica, cultural. As menções ao sintagma carnaval na rede já atingiram a incrível marca de 1.383.255 citações.

A pesquisa informa uma ligeira vantagem para os que têm alguma expectativa em relação à festa (58,1%) em relação ao bloco da antifolia (41,99%), que prefere retiros espirituais e Netflix ao burburinho. O assunto de maior interesse são os blocos de rua, mais do que viagens, bebidas, comidas. A aposta musical é para Predadora, de Mc Loma, seguido de Verdinha, de Ludmilla, e Amor de que, de Pabllo Vittar. Os tutoriais de maquiagem e customização de fantasia estão entre os preferidos no YouTube. Os códigos das paqueras incluem carimbos com o número do WhatsApp e a recomendação para não descuidar do desodorante e não esquecer de escovar os dentes.

São Paulo é a cidade com maior número de foliões: doze milhões, prevê a pesquisa. Mas o Rio domina as redes. Beija-Flor é a escola mais citada, seguida da Mangueira. Na Pauliceia, houve comoção com a Pérola Negra, que perdeu grande parte das fantasias na enchente.

Os dados fornecem um olhar panorâmico sobre essa relação rede/rua no carnaval. Mas, na hora de entender os seus ritos, é possível buscar também as referências de quem vivencia e conhece a folia por dentro. Luiz Antonio Simas é historiador, compositor e babalaô, autor de livros sobre a história do Rio a partir do ponto de vista dos marginalizados, além de consultor para o acervo de música de carnaval do Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ). Seu último livro, O corpo encantado das ruas, foi a obra de não-ficção mais vendida da editora Record na última Bienal, informa reportagem de Dodô Azevedo na Folha de S.Paulo. O título evoca João do Rio, mas o corpo dá lugar à alma e o subúrbio é descrito como “uma região/conceito que resiste às imposições do ‘mercado’.”

Em thread no Twitter, Simas escreve sobre um conceito que criou para pensar as origens da escola de samba e a própria antropologia urbana da cidade: pelintração. É melhor deixar ele explicar, segue o fio:

“Pelintrações é um conceito que brinca (brincadeiras são experimentos de mundo e precisam estar mais presentes no campo do pensamento) com a ideia de ações Pelintras, a partir de pontos, aforismos, histórias exemplares, performance e indumentária de Seu Zé Pelintra. Zé Pelintra foi o catimbozeiro nordestino que, chegando ao Rio, trocou as roupas simples de mestre do catimbó e vestiu terno de linho e panamá. Mudou a indumentária para ser reconhecido e – ao se despir dos ícones do catimbó – continuar sendo catimbozeiro.

Vestir o terno do Pelintra é, em larga medida, o que as comunidades do samba fazem com os ranchos, que a imprensa carnavalesca chegou a tratar como “cordões civilizados”. As escolas se adequam à estrutura disciplinar de desfile dos ranchos com seus enredos, comissões de frente, alegorias, alas, porta-estandarte para tocar o samba carioca, que irá codificar o samba de enredo. Usam instrumentos de bandas marciais – como a caixa de guerra e os taróis – para percutir sonoridades oriundas das macumbas cariocas.

Uma das táticas pelintras é exatamente a da “adequação transgressora”, outro conceito que ando desenvolvendo.

Outra: um dos pontos mais conhecidos de Seu Zé – Balanço da Lagoa – fala da viagem encantada de Zé em direção ao Rio de Janeiro.

Zé vive dentro de uma canoa que balança e, por isso, um de seus princípios ontológicos é o do ser que vive em estado de “equilíbrio gingado” para não cair dentro d´água. Instituições que o tempo todo negociam com instâncias que estão fora dela – o Estado, a indústria do turismo, a contravenção etc. -, as agremiações dependeram em suas origens, e continuam dependendo, desse equilíbrio gingado constituinte das pelintrações.

O Pelintra sabe ficar na moita. Levar o jogo para o seu terreiro é um princípio da pelintração. A lógica do malandro não é derrotar o oponente, tarefa impossível, mas jogar com o oponente e assumir o protagonismo do jogo, lidando com gramáticas corporais e sonoras que o oponente é incapaz de dominar.

Se adequar para transgredir, gingar para se equilibrar, levar o jogo para seu terreiro são pelintrações presentes no processo de formação das escolas de samba cariocas.

No atual contexto, em que as escolas de samba vivem as consequências de aceitar o jogo na casa do adversário (e estenderam tapete para o adversário, diga-se), urge pelintrar o processo: adequações que não são transgressoras, equilíbrio que não é gingado, falta de reconhecimento do inimigo – para saber exatamente onde e como jogar – representam o contrário de tudo aquilo que, pelintramente, criou a maior aventura civilizatória do Rio de Janeiro.”

Em tempo: Simas, com humor das ruas, explica uma diferença útil também para quem vai cobrir a festa. “Não existe bloquinho no Rio, é bloco.” E promete vingança ao inimigo da civilização momesca carioca que resolveu chamar bloco de bloquinho.

Diferenças culturais à parte, a pauta estará entre os antifolia e aqueles que alimentam alguma expectativa para os dias de festa. O filósofo russo Bakhtin pensava os antigos carnavais da Idade Média, que duravam meses, como uma lógica da inversão da cultura popular, um movimento de subversão em relação ao mundo oficial. Os grandes são destronados, os inferiores são coroados, dando lugar à permutações dos papéis sociais. O movimento crescente de interesse pelos blocos, bloquinhos e blocões é um indício de que o corpo e a alma das ruas quer pelintrar, adequação transgressora para tempos sombrios.

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Pedro Varoni é jornalista.