Tuesday, 23 de April de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1284

Regina Duarte no papel de marionete

(Foto: Roberto Castro/Mtur – Fotos Públicas)

Quando mulheres entram na política, terreno hostil e ocupado por uma esmagadora maioria masculina, precisam ser casca grossa, porque a avalanche de ataques será certeira. Mas isso não é privilégio do zeitgeist. O discurso de ódio é o vírus letal que habita na internet.

A roupa, o penteado, o cabelo, até a forma de andar, a cor da pele, religião, todos esses itens se tornam importantes como ferramentas de classificação e legitimação. Foi assim com Angela Merkel, especialmente com seus ternos do mesmo corte, foi assim com Marielle, que era uma mulher lésbica que teimava em ocupar terrenos não designados a ela, na regente mentalidade de casa-grande e senzala que domina o Brasil.

Mulheres, quando querem se transformar em condutoras, em sujeito nos patamares “lá em cima”, precisam ter um plano e ferramentas: para Angela Merkel, foi a paciência, a capacidade de observação e a maestria analítica da doutora em física para esperar seu momento e, enquanto ele não chegava, ela preparava o terreno e começava a demolir um obstáculo após o outro como numa partida de xadrez.

Marielle teve como suas principais ferramentas a perseverança e o espírito de luta diários, eficientes aliados. O sorriso era sempre presente no semblante de Marielle. De Merkel, nunca.

Mulheres e ditadores

A cinegrafista preferida de Hitler, Leni Riefenstahl, tinha meticuloso plano para deixar para o mundo, um legado como cineasta, depois fracassar com seus filmes – segundo ela, por culpa de críticos de cinema judeus, que teriam arruinado sua carreira. Leni Riefenstahl tinha alinhavado um plano meticuloso, desde a infância, quando, para não decepcionar seu pai, jurou nunca ficar no âmbito do medíocre, o que a fez desenvolver uma ambição incontida. A subserviência de sua mãe perante o pai no ambiente do lar a ensinou a nunca deixar o “barco correr“ e desenvolver a obsessão de ter sempre o controle de tudo à sua volta. Quando conheceu Hitler, deu-se uma química perfeita. Em 1934, ela coordenou filmagens com uma equipe de 170 homens sob o seu comando. O foco principal de sua aliança e amizade de unha e carne com Hitler não tinha como pilastra maior a identificação com a ideologia nazista, mas a real perspectiva de subir muito alto. Como cineasta, autora da estética e da narrativa que se tornaram o cartão de visitas do nacional-socialismo, a transmissão dos Jogos Olímpicos em Berlim (1936) seria só o início.

Apesar de todas as diferenças culturais, políticas e geográficas, há denominadores comuns entre Merkel, Marielle e Riefenstahl: a emancipação do papel da mulher em terreno hostil, dominado por homens, e o claro intuito de serem arquitetas do fatos, protagonistas, poderosas. No caso da cineasta alemã, ela conseguiu isso muito mais do que servindo, mas tornando-se aliada de um ditador, formando uma situação win-win recheada de grande pragmatismo. Hitler, por sua vez, tinha o álibi de Riefenstahl como representante da arte cinematográfica, que ele tanto amava. Em tempos de regimes antidemocráticos, a arte é sempre um atenuante para quem vislumbra o regime de fora.

Enterrando o gigante

Uma das pilastras do plano diabólico do Messias Bolsonaro em enterrar o Brasil foi usar a visibilidade midiática, a vaidade e a ingenuidade de Regina Duarte, chamando-a para o cargo de Secretária Especial da Cultura. A mesma atriz que protagonizou Malu Mulher, minissérie dirigida por Daniel Filho e exemplo para tantas mulheres nos anos finais da ditadura militar – período de ânsias por grandes mudanças e por abertura política – mostra-se, hoje, uma subserviente politicamente analfabeta ao mesmo tempo orgulhosa por “servir ao presidente” e “servir à pátria“. Num momento nostálgico e patético de sua entrevista à emissora CNN, Regina entoa a música cantada durante a Copa de 1970, no México, usada para dar injeção de otimismo com tom ufanista, enquanto contrários ao regime estavam sendo levados para a “ponta da praia“ para serem executados, enquanto os gritos de gol do Brasil faziam a cortina de fumaça para o sistema bárbaro e pérfido.

Entre subserviência e protagonismo

Regina Duarte traz na bagagem a radicalidade ideológica somada ao analfabetismo político, uma combinação terrível. A classe artística, em peso, se distanciava da Secretária Especial enquanto ela, na entrevista, noticiava as medidas para ajudar a população circense – com medidas irrisórias, como o cancelamento da cobrança do aluguel do terreno onde estão as companhias – ao mesmo tempo que anunciou o apelo dos governos e prefeituras para os moradores doarem cestas básicas para os circenses e vendendo seu peixe como se isso fosse um grande ato. Em tom nostálgico, declarou que foi ao assistir um espetáculo circense que decidiu se tornar atriz, enquanto ia lendo em sua “colinha” os feitos da sua secretaria durante os últimos meses.

Vaidade não é privilégio nem de homens nem mulheres, mas a empossada Secretária Especial falou sobre as medidas como algo digno e virtuoso enquanto, de fato, os projetos estão parados, as verbas bloqueadas e/ou canceladas. Artistas estão passando necessidades e seus projetos, ameaçados. O rosto bonzinho de Regina Duarte, que remete a mocinhas de novela, vai ao encontro da retórica retrógrada da ministra Damares Alves, que jura ter visto Jesus na goiabeira e que, em regozijo, pregou que meninos devem vestir azul e meninas, rosa. O discurso raso se espalha por quase todas as pastas do governo Bolsonaro – e, com Regina Duarte, não é diferente.

O despreparo da ex-namoradinha do Brasil teve seu ápice na entrevista exclusiva concedida à emissora CNN quando elogiou Daniel, o entrevistador, sobre a “maneira” como ele a abordou num voo de São Paulo para Brasília, como se isso o fizesse refém de suas obrigações jornalísticas, entre elas a de fazer perguntas desconcertantes, apurar os fatos e informar. Regina ainda se mostrou emocionada com a homenagem feita a ela, no dia anterior, pelo comentarista Caio Coppola falando sobre entrega, amor à pátria.

O abismo intransponível entre a Secretária Especial e a classe artística foi exibido da forma mais grotesca possível quando a ex-atriz foi confrontada com a falta de notas de condolência pela morte de gigantes da cultura brasileira, expressada pela sua ex-amiga, Maitê Proença. Tentando amenizar o “clima”, ela começou a cantar músicas da época mais cruel do golpe militar de 1964. “Vamos todos juntos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção!”. Durante o período em que a seleção canarinho fazia jogo bonito na Copa do México, brasileiros e brasileiras eram levados para a “ponta da praia”. Sem alcançar intelectualmente a dimensão histórica de uma ferida ainda aberta, ela tentava desviar o clima deprê para a tão por ela elogiada leveza.

Depois da exibição do vídeo da atriz Maitê Proença, Regina, acuada, mostrou que não tem nervos, não é casca grossa para se manter no cargo. Depois de acompanhar o vídeo, e ainda com o semblante consternado, começou a transferir a responsabilidade para quem está “carregando os mortos nas costas”, frase que não poderia fazer arder mais a ferida de um país que está sendo literalmente enterrado: são mais de 12 mil biografias com famílias, sonhos e esperanças perdidas.

Depois do que ela mesma denominou de “chilique”, à beira de um colapso nervoso e muito irritada, foi “auxiliada” pelos seguranças de sua Secretaria.

Cada mulher que ousa não “só” entrar, mas protagonizar o jogo político, independente da ideologia, tem um plano – muitos deles, como os de Merkel e Riefenstahl, meticulosamente articulados e executados. Marielle tinha a visão da necessidade de existir uma voz para representar não “só” a favela da Maré, mas as mulheres negras, pobres, da periferia. Merkel e Riefenstahl estiveram sozinhas em seus planos, Marielle apostou na solidariedade de companheiros de luta. Já Regina Duarte chegou “somente” com a sua subserviência para “servir a pátria” e o presidente sem ter ideia de como ela foi e está sendo usada. Nem mesmo as artes são sua motivação, mas a vaidade equivocada e a pueril crença de que, realmente, pode fazer algo pelo Brasil.

Sobre a briga entre Bolsonaro e Moro, ela se disse “muito triste” e ficou em cima do muro, alegando que os dois devem ter tido seus motivos. Seu herói, o carro-chefe da Lava Jato, largou o barco e, com ele, some a aura de centrão, deixando o governo mais radical, escorregando cada vez mais para fora do escopo constitucional.

Os comentários de Regina sobre reuniões com o presidente, que teria se mostrado “super animado, feliz, leve, rindo”, exibem o teor raso de sua percepção intelectual, seu analfabetismo e sua temerosa ingenuidade sobre qual é o seu papel.

Ao contrário de Merkel, Marielle e Riefenstahl, a ex-namoradinha do Brasil não tem a mínima ideia de que é só mais uma peça no jogo sórdido de um desgoverno. Sua reação às críticas do “pessoal” reclamar da falta de condolências oficiais frente à morte de gigantes da nossa cultura e sua promessa de veicular um obituário no portal da Secretaria de Cultura arredonda o abismo de dúvidas e incertezas que a ela acometem. Regina Duarte é uma marionete escolhida para representar a burguesia branca e bonitinha do Brasil, negando a diversidade e as necessidades do setor já antes de estourar a epidemia de covid-19.

A fatura de Bolsonaro fechou e dispensar a Secretária Especial é só uma questão de tempo. E, quando a hora chegar, ela será a última a saber.

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Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim desde 1988 e testemunha ocular da queda do Muro de Berlim. Formada em Letras (RJ), tem curso básico de Ciências Políticas pela Universidade Livre de Berlim e diploma de Gestora Cultural e de Mídia da Universidade Hanns Eisler, Berlim. Atua como jornalista freelancer para a imprensa brasileira e como curadora de filmes.