Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Cannes, cinema iraniano e mulheres iranianas

Quando li no site Variety e no Le Monde a escolha de um novo filme do cineasta iraniano Mohammad Rasoulof para a competição no Festival de Cinema de Cannes, A Semente da Figa Sagrada, me lembrei imediatamente do Festival de Berlim em 2020, do lugar onde estava sentado com minha esposa, do cinema repleto e da projeção do filme iraniano There is no Evil, de Rasoulof. E me lembrei também da mochila que alguém colocou ao meu lado no corredor – eu estava na ponta de uma fileira de lugares – me deixando tenso com receio da mochila explodir. O filme ganhou o Urso de Ouro!

Mohammad Rasoulof não pôde estar presente à projeção do seu filme e nem pôde ir a Berlim para receber o prêmio máximo do Festival, o Urso de Ouro. Como recompensa a essa conquista, Mohammad foi preso alguns dias depois e a imprensa internacional publicou, eu inclusive no Brasil, o risco de Rasoulof ser contaminado com o vírus do Covid na prisão.

Naquele Festival havia um filme brasileiro, um dos últimos a participar de competição internacional nos festivais de cinema, em consequência da censura ou cortes de verba para a Ancine e para produtores. Era Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, sobre a importação de negros da África para serem escravos no Brasil.

Nos corredores, me encontrava com a produtora Sara Silveira, inquieta com o futuro do cinema brasileiro sob o presidente Jair Bolsonaro, decidido a acabar com as subvenções para a cultura e forçar a privatização desse setor, sob o controle dos evangélicos dispostos a censurar toda manifestação cultural fora das quatro linhas da Bíblia. O cinema brasileiro vai se recuperar dos anos bolsonaristas. E o Irã deixará Mohammad Rasoulof ir a Cannes mostrar a semente sagrada?

Nos meus primeiros anos de exílio em Paris, quando frequentava a rue Saint Guillaume, onde fica a Sciences Po, ia sempre encontrar amigos na livraria Maspero, almoçar em um dos restaurantes universitários e discutir política brasileira, francesa e internacional nos cafés do Quartier Latin. Todos nós éramos contra o Xá Rheza Pahlevi do Irã. Longe estaríamos de imaginar que a entrega do Irã ao aiatolá Khomeini iria levar à teocracia islâmica ou islamita, à antiga Pérsia, onde se perseguem cineastas e se matam mulheres por não se vestirem e nem cobrirem a cabeça como manda o Profeta.

Uma longa reportagem da BBC News, Liberdade de expressão no Irã, lembrou como era a vida das mulheres no Irã antes da revolução islâmica, onde o uso do véu ou chador havia sido abolido em 1936. Alguém poderá arguir – e daí? A revolta contra o Xá era contra uma ditadura e contra o imperialismo americano.

É verdade, mas naquela época, ninguém pensou nas consequências diretas para as mulheres da chegada do aiatolá ao poder. E nem se imaginava ser uma revolução masculina. Essas consequências foram trágicas e não eram apenas questões de roupas, vestidos compridos, cobrindo braços e pernas, e o chador cobrindo os cabelos e a cabeça. Significou o retorno a uma situação de submissão e dependência total da mulher aos homens e ao sistema religioso. A restrição às mulheres ao acesso ao mundo cultural e profissional. Uma submissão de longe mais grave que a exigida pelos neopentecostalistas norte-americanos e brasileiros.  

Um site francês, Le Grand Continent, publicou logo após o assassinato da jovem iraniana Mahasa Jina Amini, por ter o véu mal colocado na cabeça, um depoimento-reportagem da escritora Sorour Kasmai sobre o tema Ser Mulher no Irã, o prefácio do seu livro Mulher, Sonho, Liberdade (editora Actes Sud) reunindo 12 histórias inéditas de mulheres no Irã. Sem esquecermos de Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz, apodrecendo na prisão de Evin, no Irã, por seus combates contra a opressão das mulheres no Irã e pela promoção dos direitos humanos para todos.

Cineastas, mulheres… Outro dia, me surpreendi ao ver num dos canais do Youtube, num debate, três universitárias brasileiras falando do Irã mas se esquecendo ser uma teocracia onde as mulheres perderam todos seus direitos. Tive vontade de deixar uma mensagem, comecei a escrever, mas apaguei…

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.