Saturday, 02 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

E chegou o Natal nas favelas…

Esta semana, eu me prometera não escrever sobre os evangélicos. Mesmo vivendo num outro continente, poderia ser um texto sobre a vitória do jovem Gabriel Boric, da esquerda chilena, derrotando o extremista de direita José Antonio Kast. Não faltaria assunto: Kast tem muito do nosso presidente, pois, durante a campanha eleitoral, se confessava um admirador do ditador Augusto Pinochet, assim como Bolsonaro sempre elogiou a ditadura militar e em especial os torturadores. Farinhas do mesmo saco…

Outra opção poderia ser a vacinação das crianças, para evitar o fechamento de classes, aconselhada pela Organização Mundial da Saúde, mas rejeitada pelo presidente Bolsonaro com o apoio do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga. Bolsonaro, responsável pelo atraso das vacinas no Brasil e por rejeitar as medidas sanitárias protetoras, causador de centenas de milhares de mortes, responsabilizado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito, reincide sem apresentar quaisquer razões científicas. Como se lhe causasse orgulho voltar a ser chamado de genocida com a especificação “infanticida”.

Foto: Roberto Parizotti

Porém, quem decidiu foi o calendário. Estamos nos dias natalinos, termina o solstício de inverno e o sol ressurge para tornar os dias mais longos na Europa e no Oriente Médio. Por isso, não me restou outra opção senão a de sair correndo em busca do Cristo histórico, me inspirando nisso nas buscas do teólogo, médico e pioneiro em medicina humanitária, Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz com seu hospital em Lambarène, no Gabão.

Com sua metodologia crítica, Schweitzer, sem pôr em dúvida sua fé, achava ser impossível uma reconstituição fiel da figura humana de Jesus. Os elementos informativos de que dispunha não eram documentos ou depoimentos rigorosos, mas testemunhos escritos por seus discípulos anos depois dos acontecimentos, interpretando-os segundo as profecias existentes no Velho Testamento e sem a preocupação de uma exatidão histórica.

Para se ter uma ideia do começo do cristianismo é preciso se recorrer aos textos dos quatro Evangelhos, e mesmo de textos não incluídos na coletânea de livros bíblicos, rejeitados por terem sido considerados como apócrifos. Outras informações existem nos Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, relatando a vocação universal do cristianismo, depois da festa de Pentecoste aberto a todos, ao contrário do judaísmo.

Paulo, um dos primeiros convertidos, que se tornou o primeiro missionário da nova crença, faz algumas revelações sobre Jesus, nas suas Cartas ou Epístolas, apreendidas de Lucas, do qual teria se tornado amigo. Tanto Lucas como Paulo se referem ao ponto nevrálgico do cristianismo, o da ressurreição de Jesus depois da crucificação, rejeitada pelos não crentes, mas razão básica da aceitação de Jesus como o Cristo e da propagação do cristianismo.

Outras fontes sobre Jesus são citações de frases ditas por ele, transmitidas aos seus fiéis, mas que poderiam ter sido modificadas com o passar do tempo. Existe farto material desse tipo, que circulou do século II ao VII século. Durante o período em que Jesus teria vivido, predicado e crucificado, nada existe, que tenha sido encontrado, nos documentos das autoridades romanas que dominavam a Palestina e Jerusalém na época.

O primeiro documento não religioso é de um romano de origem judaica, Flávio Josefo, considerado um testemunho válido ou sujeito a erros, o Testemunho de Flávio. Flávio Josefo nasceu em 39 AD, ou seja, alguns anos depois da morte de Jesus, e, no seu relato confirma a existência de um homem autor de milagres e seguido por muitas pessoas, tanto judeus como gregos, conhecido como Cristo. Em decorrência de uma denúncia, o cônsul da época, Pilatos, o condenou à crucificação, porém os que o seguiam continuaram seguindo porque, diz Flávio Josefo, Cristo lhes teria aparecido depois de ressuscitado, como previam antigos profetas. Quando Flávio Josefo escreveu, já devia ser no fim do século I, mas o grupo por ele descrito como cristãos não havia ainda desaparecido.

Plínio, o Jovem, numa carta ao imperador Trajano, escrita em 111 AD, pede instruções sobre como agir com relação a um grupo de pessoas chamadas de cristãs. Tácito, nos seus Anais, em 116 AD, cita a acusação contra os cristãos de terem incendiado Roma, em 64. Na verdade, Nero era acusado de ter ateado o incêndio. Os cristãos, segundo consta, foram presos, torturados e supliciados nos próprios jardins do imperador.

A lista é longa e corrobora ter realmente existido um Jesus considerado o Cristo por seus seguidores. A crença crescia principalmente entre os escravos e os pobres, a mensagem era de paz e amor, e seus seguidores, embora tantas vezes perseguidos, não pregavam uma revolta contra os romanos.

Essa situação se prolongou até o século III, pois com a propagação do cristianismo, já não só entre os escravos e pobres, mas entre soldados, ricos e políticos, o Império Romano acabou se convertendo também, no ano 380 AD. Porém, houve antes muita perseguição e mesmo cristãos lançados aos leões nas arenas para divertimento dos romanos.

Vamos resumir. A chegada do cristianismo ao poder mudou a situação. A Igreja cristã passou a conviver com os imperadores. Como o cristianismo era principalmente uma religião de espera do retorno do Messias, quando viria um reinado de paz, de justiça e de proteção social para todos, disso decorreu a visão paternalista de um Deus que, num determinado momento, desceria dos céus e criaria um mundo novo, o Paraíso terrestre.

Enquanto isso não acontecia, os cristãos deveriam observar a prática da ética, moral e bons costumes. Mesmo porque com a crença na sobrevivência da alma depois da morte, como uma recompensa, os bons fiéis esperariam já nos céus o Paraíso. Não havia, portanto, necessidade de uma pregação revolucionária em favor dos pobres, pois o sofrimento na vida terrena seria breve, diante da vida eterna reservada aos salvos por Cristo.

Essa visão se tornou insuportável na Idade Média com o cristianismo nas mãos da Igreja Católica que, paradoxo dos paradoxos, passou a perseguir os maus cristãos ou não cristãos. Esse domínio, inclusive econômico, se tornava sufocante até surgir a ruptura com Lutero e Calvino, contando com o apoio de setores importantes e dominantes da sociedade. Sem romper com o cristianismo, os reformadores mantiveram a estrutura das igrejas, renovaram o clero e abriram as portas e janelas da sociedade, principalmente com o livre acesso do povo cristão às Sagradas Escrituras (a Bíblia) e permitindo-se a livre interpretação dos textos sagrados.

Essas duas conquistas, aparentemente mínimas, provocaram o surgimento da imprensa, pois todos queriam ler e ter em casa sua Bíblia; permitiram o surgimento da liberdade de expressão e da separação do Estado da Igreja. Mais um pouco, e não podemos esquecer a Revolução Francesa, chegamos à democracia. E o cristianismo? Forneceu a base ética e moral dessa nova sociedade que surgia. O novo mundo descoberto foi colonizado por esse novo cristianismo. A América do Norte pelos protestantes, e a do Sul pelo catolicismo ainda zeloso dos antigos poderes.

E chegamos ao século XXI com numerosas outras conquistas, muitas delas vindas do cristianismo, outras tantas sem origem religiosa. Assim, o Natal para uns, com cânticos e corais, velas e pregações nas igrejas é um reencontro com o nascimento de Jesus e sua família, Maria e José. Para outros, os símbolos, hábitos e tradições vindos do cristianismo, mas também do paganismo e da própria data do Natal, que comemora o retorno do sol depois dos dias curtos do inverno.

Para uns e outros, se valoriza o reencontro das famílias; a ceia é um momento de confraternização e de entendimento. Cristãos, ateus, indiferentes se abraçam, mostram serem movidos pelo amor, sem rancores e, se diferenças existem, são esquecidas nestes dias. Nas igrejas, se falará muito na manjedoura, em Belém, haverá presépios com meninos Jesus de rostos diferentes.

Aqui me personalizo e dou meu testemunho, como se costuma dizer neste Brasil recristianizado pelos evangélicos. Gostei muito de ter visto um vídeo no qual o nosso querido Caetano Veloso conversa com um pastor evangélico, Henrique Vieira. E me emocionei, quando se falou na hipótese de Jesus ter sido negro. Pensei em tantos negrinhos hoje nas favelas ou nas ruas, com Maria ou sem Maria, com José ou sem José. Quem sabe um deles é o Cristo, tão prometido.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.