Quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1374

O filtro invisível

(Foto: Joshua Miranda/Pexels)

Atualmente, a desinformação emerge como uma verdadeira pandemia que ameaça a essência do nosso 𝘮𝘰𝘥𝘶𝘴 𝘷𝘪𝘷𝘦𝘯𝘥𝘪 coletivo, o qual deveria se fundamentar na factualidade informativa e não em supostas “realidades virtuais”. Em um cenário em que a inteligência artificial (IA) molda nossa interação com a informação, torna-se necessário refletir sobre duas dimensões complementares: a da inovação tecnológica e da inteligência artificial, e a da informação, compreendendo a comunicação como um veículo de transformação social.

Vivemos uma época em que a desinformação se dissemina de forma alarmante, e nossa compreensão do mundo é mediada por algoritmos que, como entidades invisíveis, nos sugerem conteúdos alinhados às nossas preferências. Das redes sociais aos motores de busca, esses sistemas funcionam como filtros que moldam as notícias e opiniões às quais temos acesso. O impacto dessa mediação digital na formação de opiniões é inegável e exige uma análise crítica.

O consumo de informação, que nos mantém atualizados sobre o que acontece no mundo — seja no âmbito político, econômico, científico ou social — transformou-se em um processo digital. Esse processo trouxe vantagens significativas, como escalabilidade e facilidade de acesso, aspectos que aprendemos a valorizar e sem os quais, muitas vezes, já não sabemos viver. Nesse mundo hiperconectado, em que sentimos ter à disposição toda a informação do mundo no bolso, torna-se essencial cultivar a “dúvida” como presença constante em nossos pensamentos. Essa postura crítica nos leva a questionar: será que esta informação é verdadeira? Terá esta imagem sido manipulada?

Os mecanismos digitais que nos auxiliam a navegar e filtrar o vasto oceano de informações disponíveis baseiam-se em modelos matemáticos preditivos que remontam aos primórdios da inteligência artificial. Com o tempo, esses modelos evoluíram e tornaram-se mais eficazes na organização e disponibilização de conteúdos. Entre os diversos modelos existentes, destacam-se os de recomendação e os de aprendizagem por reforço. Ambos operam com base em sistemas de recompensas, orientando os algoritmos na produção de resultados mais relevantes para o usuário. Mas afinal, o que significa essa “recompensa”? Ela se traduz em cliques, likes, sinais de aprovação e interações diversas. É o reflexo do uso que fazemos de nosso livre-arbítrio: aquilo que escolhemos ver, ler, ouvir — e, muitas vezes, não questionar.

Ao navegar na internet, somos constantemente guiados por algoritmos que personalizam a informação de acordo com nossos interesses e comportamentos anteriores. Redes sociais, motores de busca e plataformas de notícias selecionam conteúdos que provavelmente nos agradarão ou que reforçam nossas crenças, criando uma “bolha” informacional. Dentro dessa bolha, estamos expostos a conteúdos semelhantes aos que já consumimos, enquanto opiniões divergentes ou diferentes pontos de vista são limitados ou até mesmo eliminados — fenômeno descrito por Eli Pariser em O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você (2012).

Os mecanismos de busca e as plataformas digitais utilizam algoritmos de personalização para organizar e disponibilizar conteúdos de acordo com padrões de comportamento do usuário. O Google mostra resultados de busca de acordo com o que cada usuário costuma procurar. O Facebook reduz a exibição de atualizações de amigos com quem há pouca interação. Já a Amazon destaca produtos que podem interessar logo na primeira visita ao site. Esses processos exemplificam a lógica algorítmica de recomendação, fundamentada na análise de dados de navegação e interação, cujo objetivo é maximizar a pertinência dos conteúdos apresentados e, simultaneamente, ampliar o engajamento do usuário.

É grande o impacto da manipulação algorítmica na formação da opinião pública. O ambiente digital é essencialmente numérico, pois se estrutura a partir do número, que possibilita a existência do algoritmo como tradutor de ações. No início da história da computação, apenas a matemática estava sujeita à digitalização. Contudo, à medida que passamos a adotar as ferramentas computacionais como principal meio de expressão — não apenas para a matemática, mas para toda a informação digital — o conhecimento e o discurso humano passaram a ser submetidos às lógicas processuais que permeiam a computação.

A capacidade de discernir a verdade e a responsabilidade que temos enquanto consumidores de informação serão determinantes para um futuro em que a desinformação não prevaleça sobre a factualidade. A reflexão crítica, aliada à transparência algorítmica e à educação midiática, constitui um caminho essencial para preservar a pluralidade informacional e fortalecer os valores democráticos em uma sociedade cada vez mais mediada pela tecnologia. Como já havia assinalado Lima Barreto (1881-1922) em Elogio da Morte: “Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas. O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana” (ABC, de 19/10/1918).

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro
𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023). Participante do Coletivo AVÁ e apresentador do Sarau Marcante.