
(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)
O presidente brasileiro, Inácio Luiz Lula da Silva, preparou tudo com muito cuidado em Belém, de 10 a 21 de novembro passado, para a COP30, Conferência Anual das Partes na qual são definidos objetivos ambientais, neste caso, de combate às mudanças climáticas. Além de sua agenda, com questões universais, este encontro tinha como objetivo destacar-se internacionalmente no âmbito diplomático e dar exemplo no âmbito ecológico no Brasil.
Os resultados corresponderam às ambições do anfitrião do Palácio do Planalto? Isso abre espaço para discussão, tanto em relação às decisões concretas do encontro quanto aos resultados que eram esperados pelo Brasil. O presidente, em seu discurso na abertura da COP30, em 10 de novembro, deixou bem claras suas ambições e demandas: “É o momento de impor nova derrota aos negacionistas”, que rejeitam “não apenas as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo”. “Estamos andando na direção certa”, acrescentou, “mas na velocidade errada. No ritmo atual, vamos ultrapassar o limite de um grau e meio de aumento na temperatura global”, limite que tinha sido estabelecido em Paris pela CO 21. Seria melhor para todos nós investirmos em um fundo “para a luta contra o aquecimento global do que para a guerra”.
A conferência reconheceu incontestavelmente a urgência climática global. Registrou a ambiciosa doutrina do Brasil, sintetizada em uma palavra-chave, “mutirão”. E respondeu positivamente às demandas feitas por todos aqueles que se preocupam com a degradação conjuntural. O aumento do esforço financeiro foi validado, com horizonte para 2035. Os indicadores necessários para a realização desse esforço coletivo foram registrados. No entanto, contrariamente ao que o Brasil desejava, os compromissos materiais suscetíveis de conter ou mesmo de reverter o aquecimento global não foram adotados. A análise de duas páginas com orientações elaboradas pelo Brasil para garantir a viabilidade foi adiada para a próxima COP, que será organizada pela Turquia e pela Austrália em 2026. Apesar de tudo, o Fundo da Amazônia recebeu mais recursos. A União Europeia anunciou uma doação de 20 milhões de euros, confirmando assim um compromisso para 2026. O governo alemão indicou que contribuiria com 15 milhões de euros para um novo fundo criado em Belém, com o objetivo de proteger as comunidades indígenas e seus territórios.
Quanto ao multilateralismo, ele não marcou tanta presença assim no evento. 57 chefes de Estado e de governo compareceram. Os europeus foram bons alunos, com os principais líderes da Alemanha, Espanha, Finlândia, França, Mônaco, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Pela primeira vez, um presidente sírio participou de uma COP. No entanto, a ausência de chefes de Estado foi significativa, com 18 a menos do que na COP anterior. A ausência também afetou, de forma inesperada, a América Latina. Apenas três mandatários viajaram para Belém: os presidentes do Chile, da Colômbia e de Honduras. Quase todas as delegações foram reduzidas, anunciando assim a indefinição final da Conferência. O déficit global de uma COP (Azerbaijão) para outra (Brasil) foi de 34,8%. Em números absolutos, 11.500 pessoas credenciadas em 2025 contra 17.600 em 2024. Em Baku, para a COP anterior, Pequim enviou 190 pessoas. Os chineses eram apenas 114 em Belém, embora a China seja associada ao Brasil no BRICS.
A Indonésia, novo membro do BRICS, reduziu sua presença em 37%. O Azerbaijão, sede da COP29, enviou 135 pessoas, embora sua delegação no ano passado tenha sido de 995 pessoas. A Etiópia, sede da COP32 em 2027, também reduziu sua participação de 161 representantes para 79. O mesmo se aplica à União Europeia, cujo número passou de 1.456 para 790. No entanto, há três exceções: França, Eslovênia e Irlanda. Por outro lado, a queda foi radical para a maioria dos outros países: -31,3% para a Espanha; -50,8% para a Alemanha; -54,1% para a Itália; -90,7% para a Hungria; -95,8% para a Letônia.
Os Estados Unidos, representados em Baku por 247 delegados sob a presidência de Joe Biden, estiveram totalmente ausentes em Belém, por decisão do novo presidente Donald Trump.
Afeganistão, Mianmar e San Marino também optaram por não participar. No entanto, é importante notar, e isso deve ser creditado ao Brasil, que um número considerável de governadores norte-americanos — da Califórnia, Novo México, Wisconsin — e prefeitos norte-americanos — como o de Phoenix — viajaram para Belém. Em contrapartida, alguns países e instituições não pouparam críticas. Donald Trump, que havia apostado na cadeira vazia, criticou severamente em sua rede Truth Social, em 9 de novembro, a construção de uma rodovia de acesso a Belém, considerando-a antiecológica: “Eles devastaram”, escreveu ele nessa rede, “a flora amazônica do Brasil para construir uma rodovia de quatro pistas […]. Um escândalo.”.
Mais surpreendente ainda foi o chanceler alemão, Friedrich Merz, que elogiou a qualidade de vida alemã em detrimento da brasileira. Ao primeiro, o governador do Pará, Helder Barbalho, respondeu: “Em vez de falar de rodovias, o presidente norte-americano deveria buscar meios para combater as mudanças climáticas”. E ao segundo, Lula aconselhou que voltasse para visitar os bares do Pará. […] “Ele deveria ter dançado e provado a gastronomia local para ver que Berlim não oferece nem 10% da qualidade de vida de Belém” [1].
A aposta verde e multilateral feita por Lula funcionou parcialmente. O contexto internacional sem dúvida tirou muito do apelo do evento. China, Índia, Indonésia e Rússia estavam claramente com a cabeça em outro lugar. Conflitos militarizados e guerras comerciais os desviaram, parcialmente, de Belém. Os produtores africanos, do Oriente Médio e latino-americanos de petróleo e gás natural, duvidando das compensações anunciadas há muito tempo e nunca concretizadas, frearam a adoção de compromissos vinculativos para o fim da exploração das energias fósseis. A ascensão, por trás de Trump, de políticos antiambientalistas ou céticos em relação às mudanças climáticas, da Argentina à Hungria, fez o resto.
Ainda assim, permanecem obstáculos locais, que nada têm a ver com o aquecimento global e o multilateralismo, e que não favoreceram a conferência. Realizar um grande encontro internacional em Belém, cidade amazônica, tinha, sem dúvida, um forte valor simbólico. Mas como a cidade não possui infraestrutura hoteleira, vários gargalos rapidamente impuseram sua realidade. A insegurança, questão crônica e recorrente no Brasil, foi objeto de advertências por parte dos serviços das Nações Unidas, seguindo as questões climáticas. Com a alta dos preços de hospedagem, 39 pequenos países, ameaçados pela elevação do nível dos oceanos, informaram que não tinham recursos financeiros para participar devido aos preços anunciados pelos hoteleiros locais. Eles acabaram vindo, mas reduziram o número de membros de suas delegações, apesar de uma ajuda financeira da ONU e do auxílio de um grupo ad hoc criado em agosto pelas autoridades brasileiras para ampliar a oferta e regular o calendário dos trabalhos. A conferência dos líderes políticos foi realizada alguns dias antes da abertura oficial da COP. Mas isso resultou em uma sobrecarga de trabalho para os diplomatas brasileiros, especialmente os mais jovens, que reclamaram publicamente, por meio de seu sindicato, de terem jornadas de trabalho de até 16 horas e, às vezes, mais, sem intervalos para descanso.
O mais surpreendente é que, após o término da conferência, Lula, em visita oficial a Moçambique em 24 de novembro, defendeu o Brasil como campeão das energias fósseis. “O Brasil”, declarou ele em Maputo, diante de uma plateia de empresários, “precisa de muito gás”, “e não vejo porque não enviarmos engenheiros da Petrobrás aqui [a Moçambique] para assinar um acordo e definir quando e onde poderemos extrair gás”. Em 27 de novembro, o Congresso brasileiro aumentou a confusão ecológica ao afrouxar, contra a opinião do presidente Lula, restrições administrativas impostas por razões ambientais à abertura de grandes obras consideradas estratégicas do ponto de vista econômico (procedimento denominado LAE, Licença Ambiental Especial).
Texto publicado originalmente em francês, em 09 de dezembro de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Cop 30, Lula entre deux eaux ? Les attentes diplomatiques et l’exemplarité écologique du Brésil”. Disponível em: https://www.espaceslatinos.org/archives/130824. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.
[1] Publicado na Folha de São Paulo, em 19 de novembro de 2025, p. A45.
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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
