Friday, 14 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Indústria cultural ou medo da democracia?

Foi Theodor Adorno que, com um grupo de pensadores da famosa Escola de Frankfurt, diagnosticou e condenou moralmente os meios de comunicação de massa da era moderna, tidos como alienantes, nocivos, sem qualquer serventia educativa, e pior, que transformavam os receptores em meros objetos, alienados, acríticos, sendo esses receptores meros joguetes e vítimas nas mãos dos impiedosos capitalistas (é bom saber que todos eles, os representantes da Escola de Frankfurt, tinham por formação o viés marxista), sendo a intenção pecuniária seu único interesse. Lembrem-se: todos eles, os críticos de Frankfurt escreveram livros e queriam ser vendidos. Mas condenaram os meios de comunicação.

Os frankfurtianos, no entanto, fizeram ‘escola’ em boa parte do mundo. A corrente terminou ganhando, nos estudos das Teorias da Comunicação, o epíteto de ‘teoria crítica’, porque sua crítica aos meios de comunicação era sistemática. Foram eles também, em especial Max Horkheimer, que cunharam o famoso termo ‘indústria cultural’, cujo objetivo era mostrar que a cultura divulgada, exposta e apresentada pelos mass media (qualquer um deles) era massificadora, nivelando por baixo, obedecendo a critérios industriais e burgueses. Já deu para perceber onde isso vai dar, não? Perguntinha simples, mas importante: e no socialismo, não haveria a massificação? Pensemos em Cuba e no que resultou.

Volta ao misticismo

Para os frankfurtianos, os mass media poriam tudo num mesmo balaio de gatos. Pelos critérios da Teoria Crítica, um artigo de Clóvis Rossi ou de um Millôr Fernandes, e mesmo de Antônio Ermírio de Morais, não teria diferença, muito menos poder de reflexão. Cabe a pergunta: e a teoria ‘salvacionista’ e ‘moralizante’ dos frankfurtianos, teriam que interesse? Na verdade, podemos pensar que o respeito às liberdades individuais (o que implica aceitar diferenças culturais) é sempre unilateral. Na intenção de divulgar suas idéias, os frankfurtianos, não quereriam também alcançar um maior número de ‘consumidores’?

Lembrei agora do grande Bertrand Russel sobre Platão: ‘Quando começamos a ler Platão, vemos logo que muitas das questões levantadas não passam de bobagem’. Mas sinceramente, tentando um olhar crítico, as propostas dos frankfurtianos soam parecidas às idéias de outro filósofo, Wittgenstein, e sua conhecida frase: ‘Sobre aquilo que não se sabe deve-se calar’. Imagine se o mundo tivesse seguido esse critério.

Mas a proposta de Wittgenstein, quando muito, soa como uma volta ao misticismo, ou seja, um estágio anterior ao próprio surgimento da filosofia. Na verdade, o que estaria por trás da frase de sir Wittgenstein, mais uma vez parece ser o temor misturado a um certo desejo de censura, travestido de sutilezas e jargão incompreensível para o grande público. Em outras palavras, podemos reconhecer uma dificuldade de conviver com a democracia. E acredito que só uma alma gêmea para ver no filósofo da linguagem algo de positivo.

Boicote contraditório

Mas, voltando aos frankfurtianos, podemos indagar: como tal escola crítica chegou a elaborar esse diagnostico tão nocivo e radical sobre os meios de comunicação? Primeiro, por serem eles proibidos de continuar suas ‘pesquisas’ na Alemanha nazista. Diante dessa impossibilidade, para onde eles foram, fugindo dos nazistas? Justamente para os Estados Unidos. Incrível, isso, não é? Mas o mais incrível é que foi lá nos EUA que Adorno e Horkheimer, vendo a gama de canais de televisão, rádio, cinema, que eles ‘entenderam’ serem esses meios uma ‘indústria’ tirânica, que homogeneizava os gostos. O que aparece nas fórmulas dos frankfurtianos, mais uma vez, é o desejo salvacionista.

Ora, se é possível perceber ‘produtos’ da pior qualidade nos meios de comunicação, é também possível discernir outros produtos da mais alta qualidade. Acho mesmo que é o valor da democracia que fica encoberto nas críticas e, principalmente, uma percepção falsa e elitista diante das diferenças de gosto pessoal. No entanto, reparem que da parte dos frankfurtianos não há crítica ao totalitarismo cultural e comunicacional dos nazistas: lá, sim, houve uma massificação brutal na comunicação, sem autocrítica.

Mas foi para a indústria cultural americana que eles direcionaram suas baterias. Cabe outra pergunta: e não se pode fazer crítica aos EUA? Não só se pode, como se deve. E na verdade, foi exatamente o que eles fizeram. Sem sofrer uma única manifestação de censura. Contraditoriamente, tentaram ‘boicotar’ o local onde puderam escrever e fazer suas pesquisas.

Nada a acrescentar

A questão de relevo: a democracia incomoda porque nos leva a conviver com gostos diferentes, permite alternância de poder, divergências de opinião. Fica claro que toda tirania salvacionista é apenas uma forma altamente disfarçada de medo dessa democracia, com seu impedimento do pensamento único, admitindo a crítica, em jogo franco, aberto, honesto, sem apelo a moralismo pequeno-burguês, como fizeram os frankfurtianos.

No fundo, o medo da democracia é o medo da crítica. E crítica, claro, não é ódio, é critica. O moralismo maniqueísta dos frankfurtianos foi apenas uma forma de encobrir uma, talvez, real tirania. O mesmo se deu com o moralismo dos nazistas e, por que não?, dos comunistas. Como disse Rosa Luxemburgo, ‘a liberdade é sempre a liberdade de quem discorda de nós’. E é bom lembrar que eles fugiram do nazismo, que usou os meios nascentes, em especial o rádio e o cinema, para impedir a democracia, massificando suas idéias, de caráter persuasivo, total, absoluto e de censura.

No fundo, os frankfurtianos se achavam paradigmas da virtude, e se diziam contra todo e qualquer tipo de violência, exceto, claro, em autodefesa. Hoje, parece certo pensar que se inicialmente fosse possível concordar com algum diagnóstico feito por eles, a cura, no entanto, foi a pior possível. De algum modo, sem cair em excessos, mostraram que seu humanismo e intelectualismo eram, em muito, unilaterais, e que o salvacionismo tinha caráter autoritário e antidemocrático. Pouco ou quase nada tiveram a acrescentar ao mundo, ainda que suas propostas possam e devam ser lidas.

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Jornalista e professor