Thursday, 20 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Para firmar os passos da pesquisa

Entre dos dias 27 e 29 de novembro, Florianópolis reuniu quase duzentos cientistas de todo o país para o 3º Encontro Nacional da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores de Jornalismo, a SBPJor. É isso mesmo: eu disse ‘cientistas’. E embora o uso do termo tenha causado alguma surpresa (ou desconforto) no leitor, a palavra é a mais apropriada, pois se trata de gente que pesquisa, estuda, experimenta, escreve e produz conhecimento sobre jornalismo.

Essas atividades são próprias dos cientistas de qualquer campo, mas entre os da comunicação sempre vigorou um mal-estar, graças a uma intensa informalidade que marca o perfil de seus componentes e a um pudor mal-disfarçado de chamar seu métier de ciência. Besteira. A exemplo dos demais ramos, também se faz ciência entre os comunicadores e entre os jornalistas.

A realização desse terceiro encontro da novíssima sociedade científica do jornalismo delineia bem isso. Criada em 2003, a SBPJor foi a saída para que a pesquisa jornalística se desenvolvesse em margens mais largas: o espaço nos congressos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a Intercom, era insuficiente. Não foi um divórcio. Mais parece o caso do filho que deixa a casa dos pais para morar na sua própria. Não rompe com eles e, de vez em quando, aparece pra almoçar…

Aproveitando a metáfora, a criação da SBPJor equivale mesmo a um marco de maturidade para aqueles que militam na pesquisa científica do jornalismo. O surgimento da sociedade dá mais nitidez e especificidade ao campo; organiza os focos de produção no país; define metas e traça um projeto científico nacional; normatiza práticas burocráticas que ainda são muito levadas a sério pelas agências de fomento; e abre portas para pontes de cooperação internacional. Sem dúvida, é um avanço. Mas nem tudo são flores.

Deficiências

Embora haja muito otimismo entre os pesquisadores do jornalismo, ninguém pode negar que ainda há muito pela frente. Em alguns aspectos, estamos engatinhando. Veja, por exemplo, o mercado editorial de periódicos. Segundo dados da Capes, existem cerca de 200 títulos das áreas de Comunicação e Ciência da Informação e apenas 10% deles alcançam o conceito máximo na avaliação do Sistema Qualis.

Além disso, os próprios pesquisadores não mantêm o hábito de ler e citar periódicos científicos. Levantamento apresentado pelo professor Eduardo Meditsch, coordenador do Encontro da SBPJor, mostrou que é ínfimo o impacto dessas revistas em artigos apresentados nos eventos da área. E mais: os pesquisadores mais citados pelos seus pares são os que mais mencionam revistas em suas referências bibliográficas. Fato que permite supor que esses pesquisadores atuam como tradutores dos periódicos para uma camada mais próxima, gerando pouca inovação e pró-atividade…

Não bastasse isso, dados da Capes e do CNPq – apresentados pelos representantes da Comunicação nessas agências – apontam que os cientistas-comunicadores apresentam poucos projetos para financiamento de pesquisa. Nos programas de incentivo à cooperação internacional e nos editais análogos para intercâmbio interno, há pouca procura. Falta agressividade, concordam todos.

E mesmo nos famosos fundos setoriais, quase ninguém se arrisca. Há quem identifique a razão: não há ligações fortes entre a academia e o sistema produtivo. As empresas do ramo de comunicação ignoram o que se produz nas universidades, e estas torcem o nariz para o mercado, encastelando-se cada vez mais…

Saídas

Mas se as dificuldades são imensas, a ânsia por um cenário melhor é maior. Nesse sentido, o 3º Encontro da SBPJor serviu também para sinalizar uma importante linha de ação para professores, alunos e pesquisadores: a formação de redes de pesquisa, esforços capazes de arregimentar iniciativas distantes geograficamente, mas afinadas nos objetivos.

Como em outras áreas, o jornalismo começa a perceber que trabalhar coletivamente é uma saída para os poucos recursos, a defasagem tecnológica, a dependência teórica externa, entre outros problemas.

No final do evento, três redes foram oficialmente formadas: uma sobre telejornalismo, capitaneada pelo professor Alfredo Vizeu; outra sobre cibercultura, liderada por Elias Machado e Marcos Palácios; e uma terceira englobando iniciativas sobre crítica de mídia.

Esta última, a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi), é uma idéia surgida no âmbito do Observatório da Imprensa no final dos anos 1990 e que só pôde tomar forma agora, reunindo nomes como Luis Martins da Silva, Josenildo Guerra, Luiz Gonzaga Motta, Victor Gentilli, Allan Novaes, Danilo Rothberg, entre outros. São mais de quarenta pesquisadores, vindos de treze estados das cinco regiões brasileiras. São pelo menos 18 focos de atividade, e a mais recente é o site Análise de Mídia, da Universidade do Sagrado Coração (USC), de Bauru.

É claro que as redes de pesquisa não são a panacéia para a produção científica nacional. Entretanto, essas tramas possibilitam um punhado de ações que dão mais corpo e força à investigação do ramo. Redes podem agregar projetos diversos e racionalizar esforços para iniciativas maiores; redes facilitam o tráfego das informações, a transferência de tecnologia, e a troca de experiências; redes têm capilaridade e penetram com mais facilidade nos mais diversos cantos; redes amparam os projetos mais frágeis e robustecem os mais antigos. Nesse sentido, podemos enxergar nas redes um princípio viável para a pesquisa brasileira em jornalismo na medida em que elas permitem que os pesquisadores da área deixem de engatinhar, passem a se apoiar mutuamente e firmem suas bases para passos mais firmes e decisivos.

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Jornalista e responsável pelo projeto Monitor de Mídia, um dos articuladores da Rede Nacional de Observatórios da Imprensa