Tuesday, 28 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Solidariedade no câncer

Lula raspou a barba e o cabelo para evitar os efeitos deprimentes da quimioterapia. Mais uma vez, o Brasil se comove diante da doença de uma figura pública. Foi assim com a diverticulite de Tancredo Neves, com o câncer do vice-presidente José Alencar e com a luta aguerrida da então ministra Dilma, contra a mesma terrível doença.

Poderosas ou não, as vítimas de qualquer tipo de enfermidade merecem toda solidariedade. Afinal, como escreveu o poeta John Donne, “a morte de qualquer homem me diminui porque sou parte do gênero humano”. O câncer é um mal silencioso e geralmente devastador, que pode atacar qualquer pessoa na hora em que menos se espera.

O curioso no sofrimento de ricos e famosos é o seu efeito junto à opinião pública, principalmente entre pessoas das classes menos favorecidas. Justamente aqueles que têm parentes nos corredores de hospitais públicos ou aguardando atendimento na imensa fila do Sistema Único de Saúde (SUS) são os que mais se comovem com a dor alheia.

Baixa qualidade do sistema público

Quando a doença de Lula foi noticiada, teve gente que usou de ironia para dizer que ele deveria se tratar pelo SUS. Não chego a tanto, mas penso que os políticos deveriam ser obrigados de alguma forma a frequentar escolas e hospitais públicos para melhor entenderem as aflições do povo que os elege. Desde a década de 1960, o fosso que separa os ricos e os pobres em nosso país tornou-se ainda mais largo e mais fundo, na medida em que os sistemas públicos de saúde e educação foram sendo sucateados. E isso não ocorreu por mero descaso ou pela incompetência dos governos, mas para forçar a privatização dos dois setores. De uns tempos para cá, tem ocorrido o mesmo na área de segurança.

Quando essa política se tornou clara, durante a ditadura militar, a classe média estava amordaçada e preferiu aderir à ideia. Dessa forma, quem podia pagar pelo ensino de qualidade matriculava os filhos em escolas particulares, ignorando a injustiça praticada contra os cidadãos de baixa renda. Ocorreu a mesma coisa no setor de saúde, com a proliferação dos planos privados de assistência familiar.

A mesma prática é observada no sistema previdenciário, cujos recursos têm financiado obras faraônicas desde a construção de Brasília. Se o Estado brasileiro cumprisse o papel constitucional de garantir saúde e educação de qualidade para todos, dificilmente as escolas, os planos de saúde e a previdência privada teriam se tornado negócios lucrativos. O problema, no entanto, não é o atendimento privado em si, mas a baixa qualidade dos sistemas públicos que deveriam servir de referencial. A má qualidade desses sistemas acaba contaminando a atividade particular. Basta ver a situação dos planos de saúde, que já não dispõem de médicos e hospitais para atender à demanda com rapidez.

Um dia no corredor

Desde os tempos da ditadura, temos assistido à total falência dos serviços públicos em nosso país. Os mais velhos devem se lembrar de quando o então general-presidente João Figueiredo se submeteu a uma operação cardíaca em Cleveland, nos Estados Unidos. Aquele fato já sinalizava a desconfiança dos poderosos com relação ao atendimento médico então praticado no Brasil. Com o tempo, a privatização estimulou investimentos e fez surgir clínicas particulares de padrão internacional em várias capitais. No entanto, a falta de recursos oficiais inibiu a mesma qualidade nos hospitais da rede pública.

O SUS é um belo projeto no papel. O problema são os gargalos. Os municípios pequenos, por exemplo, não dispõem de bons hospitais e transferem pacientes para as grandes cidades, onde as instituições de saúde sequer conseguem atender a população local. Não há investimento em saúde pública justamente porque os poderosos podem pagar hospitais particulares aqui ou lá fora.

Francamente, eu não gostaria que Lula se tratasse pelo SUS. Um homem da sua importância histórica merece todo o nosso respeito. No entanto, seria bom se um ex-presidente passasse pelo menos um dia no corredor de um hospital da rede pública. Ele teria que fazer isso anonimamente, misturado aos pacientes pobres que aguardam atendimento sem conforto nem privacidade. A mídia certamente faria um estardalhaço e talvez assim nossas autoridades começassem de fato a pensar no povo e a devolver os impostos que nos cobram para bancar suas mordomias.

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[Jorge Fernando dos Santos é jornalista e escritor]