Quinta-feira, 16 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1384

A quem interessa o desmonte da Revista Pesquisa FAPESP?

(Foto: Blair Fraser/Unsplash)

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciou recentemente a criação de uma nova plataforma integrada de divulgação científica, que reunirá a revista Pesquisa FAPESP, a Agência FAPESP e o boletim Pesquisa para Inovação sob a gerência de comunicação da fundação.

Trata-se de um movimento institucional de grande impacto, que atualiza a forma como a ciência paulista se apresenta ao público e reorganiza os fluxos internos de produção de conteúdo.

No entanto, qualquer transformação editorial e operacional envolvendo esse conjunto de veículos precisa levar em consideração a história, a relevância e o papel singular que a revista Pesquisa FAPESP conquistou no jornalismo científico brasileiro ao longo de mais de duas décadas. Além, claro, de preservar a integridade, o trabalho e a produção intelectual dos profissionais que se dedicam noite e dia à revista — trabalhando em sistema de pessoa jurídica, cabe ressaltar.

Deve-se levar em consideração os princípios da transparência, da publicidade e da participação e controle social, previstos na legislação brasileira em matérias de interesse público e com financiamento do Estado. Qualquer redesenho responsável precisa dialogar com essa trajetória e com as comunidades que se formaram em torno dela, orientado por uma diretriz clara: fortalecer — e não enfraquecer — a contribuição da Fapesp para uma esfera pública mais informada, crítica e comprometida com a ciência.

No caso de uma reorganização, qualquer movimento deveria ser feito com escuta ativa, ainda mais quando se trata de um espaço de excelência que contribui com análises jornalísticas e ajuda a internacionalizar e divulgar ainda mais a ciência que é produzida no Brasil.

A Fapesp tem uma função social no estado de São Paulo e no Brasil de suma importância, não apenas para a pesquisa que financia, mas para a aproximação entre ciência e sociedade. A agência, vinculada ao governo do Estado de São Paulo, tem sido pioneira no país no fortalecimento do jornalismo científico, inclusive por meio de bolsas destinadas à comunicação científica de seus projetos.

A revista não é apenas uma fonte propulsora desse movimento: é um canal que estabelece conexões entre diferentes atores sociais, em defesa do interesse público.

Desde sua origem, na década de 1990, a revista Pesquisa FAPESP é fruto de uma construção cuidadosa de jornalismo especializado em ciência e ajudou a moldar a maneira como a ciência brasileira é narrada e pensada no espaço público.

Ela se caracteriza por reportagens analíticas e interpretativas sobre a ciência nacional e internacional, dando especial ênfase à produção científica em São Paulo, mas abrindo espaço para fontes de outras regiões brasileiras e de outros países.

Ou seja, é influente no mercado brasileiro e projeta uma ciência mais plural, a partir de diferentes centros de pesquisa por aqui e lá fora.

Já a Agência FAPESP também tem uma equipe própria e prioriza reportagens sobre as pesquisas financiadas pela Fapesp, sendo inteiramente on-line. Por último, o boletim Pesquisa Para Inovação foca em divulgar os resultados de pesquisas de empresas inovadoras apoiadas pela fundação.

Preservar o legado da Pesquisa FAPESP — e, mais do que isso, projetá‑lo para o futuro — é condição para que uma nova plataforma cumpra seu potencial e não represente um recuo na qualidade da informação científica oferecida à sociedade. Tanto quanto a ciência precisa de investimento e apoio para atingir altos níveis de qualidade e resultados, a sua comunicação tem a mesma necessidade.

Investimentos incluem profissionais com expertise específica nas particularidades dos métodos científicos, que compreendam as distinções entre as áreas de pesquisa, e que, assim, façam jus à variedade existente como vitrine da produção científica brasileira. Não restringindo a apenas algumas áreas da ciência ou de maneira superficial.

História construída em torno da aproximação entre ciência e público

A trajetória da Pesquisa FAPESP começa antes mesmo de se tornar revista e se funde ao compromisso da fundação de fortalecer o jornalismo científico. Sua raiz está no boletim Notícias FAPESP, criado nos anos 1990, com o objetivo de aproximar o universo da pesquisa científica financiada pela Fapesp de um público mais amplo.

Ao longo do tempo, esse boletim foi ganhando densidade, equipe especializada e ambição editorial, até se transformar, em 1999, na revista Pesquisa FAPESP, com projeto gráfico próprio, edição profissionalizada e foco em reportagens de fôlego — sob a liderança da jornalista Mariluce Moura, idealizadora do projeto.

Essa transformação marcou a passagem de um simples informativo institucional (“house organ”, no jargão técnico) para um produto de jornalismo científico que combina autonomia editorial, rigor na apuração e atenção sistemática ao contexto institucional da ciência.

Em 25 anos de existência, a revista se consolidou como referência nacional, com conteúdo publicado em outras línguas (inglês, espanhol, francês), tiragem impressa significativa, circulação em acesso aberto e ampla presença digital, tornando‑se leitura regular de pesquisadores, gestores, estudantes, jornalistas e formuladores de políticas públicas.

A credibilidade foi construída especialmente na interseção entre o fato de ser vinculada a uma agência de fomento à pesquisa de peso e reconhecimento internacional e, ao mesmo tempo, operar segundo critérios profissionais de jornalismo, pautando também debates críticos sobre política científica.

Essa história não se resume a datas e mudanças de formato. É preciso entender que ela expressa uma concepção de comunicação pública da ciência como política de longo prazo, e não como ação pontual ou estratégia de marketing institucional.

A Pesquisa FAPESP formou leitores, formou fontes, formou jornalistas e contribuiu para que temas complexos de ciência e tecnologia ganhassem uma linguagem mais acessível, sem perderem nuance e profundidade.

Uma plataforma de divulgação que pretenda integrar esse legado precisa reconhecê‑lo como patrimônio acumulado, e não como um componente qualquer de uma reorganização estrutural e administrativa.

O tempo de reportagem como política pública

Um dos traços mais distintivos da Pesquisa FAPESP é a defesa do “tempo de reportagem” na ciência. Ao apostar em textos densos, interpretativos e tecnicamente verificados, a revista permite ao leitor compreender não apenas os resultados das pesquisas, mas também seus processos, controvérsias, condições de financiamento e contextos institucionais.

A revista conta histórias sobre ciência e cientistas; demonstra preocupação com a qualidade do texto, dos relatos e do encadeamento dos fatos.

Mais do que uma escolha editorial, trata-se de uma decisão de política pública de informação: oferecer profundidade e contexto em um ambiente marcado pela velocidade e pela fragmentação.

Ao longo dos anos, esse modelo consolidou um núcleo de jornalistas especializados, capazes de dialogar em alto nível com pesquisadores de diferentes áreas e de tratar com rigor temas como avaliação da pós-graduação, políticas de fomento e governança científica — além de história, literatura e educação.

O capital humano e simbólico acumulado pela revista ultrapassa suas páginas e contribui de forma decisiva para o ecossistema brasileiro de comunicação científica.

Agências de fomento e comunicação pública da ciência

A relevância de um veículo como Pesquisa FAPESP está diretamente ligada ao papel institucional da fundação que o mantém. Hoje, consolida-se internacionalmente a visão de que as agências de fomento não são apenas gestoras de recursos, mas também atores centrais na articulação entre ciência e sociedade.

Em diversos países, financiadores adotaram políticas explícitas de comunicação pública, com editais, estruturas dedicadas e estratégias próprias de mídia.

A promoção do engajamento de cientistas com públicos não especializados passou a ser entendida como parte da responsabilidade pública de quem financia pesquisas — não apenas para prestar contas, mas também para fortalecer a transparência, a legitimidade e o diálogo social.

Nesse contexto, manter veículos próprios — revistas, portais ou plataformas multimídia — tornou-se uma estratégia estruturante, complementar ao apoio a iniciativas independentes e ao uso de redes sociais.

Equipes profissionais, continuidade editorial e presença institucional nas mídias próprias são elementos centrais para produzir memória, contextualizar temas complexos e sustentar debates públicos qualificados.

Em paralelo, redes de financiadores de comunicação científica surgiram em diferentes contextos para compartilhar experiências, discutir métricas de impacto e defender abordagens de longo prazo na aproximação entre ciência e sociedade.

A FAPESP é reconhecida como referência nesse campo, com iniciativas como SciELO e a Biblioteca Virtual FAPESP, que ampliaram o acesso aberto e a circulação internacional da ciência brasileira.

A manutenção da Pesquisa FAPESP insere-se nessa mesma lógica: integrar o fomento à produção científica ao fomento à circulação qualificada do conhecimento como uma política de longo prazo.

Transformar preservando o que é essencial

Diante desse quadro, a criação de uma nova plataforma integrada de divulgação científica pela Fapesp deve inspirar preocupação — não por um reacionarismo ao digital (que é indispensável) —, mas por ser feita de forma pouco dialógica, aparentemente sem uma reflexão profunda sobre a função social da Fapesp e o legado que ela já tem e construiu no jornalismo científico.

Cabe a reflexão: o que isso significa em tempos de inteligência artificial, em que a homogeneização e a falta de contexto são a tônica?

A integração de diferentes produtos sob uma mesma gerência pode gerar sinergias, racionalizar processos, ampliar o alcance digital e facilitar a experimentação de novos formatos e linguagens — o que é extremamente necessário para que novos produtos jornalísticos sejam criados e atendam a novas demandas do público.

No entanto, para que essa transformação represente um avanço, é fundamental que ela reconheça a Pesquisa FAPESP como ativo estratégico e preserve as características estruturais que fizeram da revista um marco do jornalismo científico brasileiro.

Isso significa, entre outras coisas, manter o compromisso com o tempo de reportagem e com a profundidade analítica, assegurar condições para que o trabalho jornalístico continue a pautar temas estruturalmente relevantes — inclusive quando esses temas dizem respeito às próprias políticas de fomento —, garantir que qualquer mudança organizacional não dilua a identidade e independência editorial construídas ao longo de décadas e, igualmente, respeitar a equipe nos bastidores da revista.

Em uma sociedade atravessada por desinformação e ataques à ciência, enfraquecer um espaço consolidado de cobertura aprofundada significa empobrecer não apenas a comunidade científica, mas também o debate público como um todo.

Transformar não é interromper. Mudanças institucionais bem conduzidas podem atualizar linguagens, ampliar públicos e renovar equipes sem romper com o legado acumulado.

No caso da Pesquisa FAPESP, trata-se de reconhecer que a revista não é um elemento acessório, mas parte constitutiva do papel que a própria Fapesp construiu no ecossistema de comunicação científica.

O texto foi escrito a convite da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (RedeComCiência).

A RedeComCiência é uma associação apartidária e sem fins lucrativos, criada em fevereiro de 2018, para reunir profissionais interessados em discutir, amplificar, viabilizar e aprimorar o jornalismo e a comunicação de ciência no Brasil. Ela é composta por profissionais das áreas da comunicação, divulgadores científicos e cientistas de todo o Brasil.

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Ana Paula Freire Artaxo é doutora em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Comunicação, Imagem e Informação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp, é atualmente vice-presidenta da Rede ComCiência e coordenadora-geral de Relações Institucionais da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN).

Bruno de Pierro é doutorando em Ciência Ambiental pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e graduado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi editor-assistente de política científica da revista Pesquisa FAPESP entre 2013 e 2019. Atualmente é editor-chefe do portal Science Arena (sciencearena.org), iniciativa do Einstein Hospital Israelita.

Graciele Almeida de Oliveira é doutora em Ciências (Bioquímica) pelo Instituto de Química da Universidade de São Paulo. Graduada em Química e em Licenciatura em Educomunicação (USP), especialista em Jornalismo Científico (Unicamp). Foi presidente da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência – RedeComCiência na Gestão 2023/2024. Atualmente é pesquisadora no Centro de Estudos e Tecnologias Convergentes para Oncologia de Precisão (C2PO-USP) e no Núcleo de Comunicação e Educação (NCE-USP).

Meghie Rodrigues é doutoranda em Política Científica e Tecnológica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde fez mestrado em Divulgação Científica e Cultural. É formada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH). É jornalista freelancer de ciência e meio ambiente, cofundadora da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência – RedeComCiência – e membro da Oxford Climate Journalism Network.

Renata Fontanetto é professora de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM-Rio). É formada em jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem especialização em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde pela Fiocruz e é também mestre em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde pela mesma instituição. É membro da Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência – RedeComCiência.

Laura Segovia Tercic é bióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em jornalismo científico pela Unicamp. Já foi responsável pela comunicação do Observatório Covid-19 Br e integrou a equipe de comunicação do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Entre 2019 e 2025 escreveu reportagens para veículos variados, incluindo Folha de S. Paulo, Superinteressante, Agência Pública e Pesquisa Fapesp.

Monique Oliveira é pesquisadora no Instituto Nacional de Ciência Cidadã e na Faculdade de Saúde Pública da USP, com pós-doutorado pela Unicamp e período de pesquisa na London School of Economics (LSE). Antes de seguir a carreira acadêmica, atuou por 15 anos como repórter de ciência em veículos como Folha de S.Paulo e Globo. Doutora em Ciências pela USP e com dupla graduação em Ciências Sociais e Jornalismo, sua produção intelectual foca nas intersecções entre Estudos CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), Promoção da Saúde, e Comunicação Pública da Ciência e Saúde. Foi co-diretora da RedeComCiência (2022-2024) e integra redes internacionais de pesquisa como 4S e PCST.