Tuesday, 18 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Há fronteiras entre o lazer e o trabalho?

Em uma era de acontecimentos tecnológicos, lidar com o uso excessivo de mídias virtuais parece quase impossível. Estudos recentes apontam que dois terços dos usuários de smartphones não conseguiriam viver sem o aparelho (ver aqui). No que diz respeito à psicologia, os dados da pesquisa da Online Publishers Association mostram que há um novo hábito no comportamento das pessoas e dos profissionais que interagem virtualmente em busca das “facilidades” geradas pelos meios eletrônicos.

Embora o uso de tecnologias seja uma das principais características da modernidade, há indícios no documentário “da servidão moderna“ revelando que nem tudo são “flores” no mundo do imperialismo tecnológico. O documentário denuncia que as “facilidades” criadas pelos meios eletrônicos podem ser, na verdade, um grande “presente de grego”. O medo da ascensão de uma forma de “escravatura moderna” pode estar deixando trabalhadores de “cabelos em pé”, ou seja, ansiosos, doentes e até mesmo levando ao suicídio por causa do trabalho (ver aqui e aqui).

Pelos motivos elencados acima, e por discordar da maneira pela qual o trabalho tem-se apoderado das novas tecnologias para empregar uma “pressão” constante na vida das pessoas, principalmente pela política de ter responder questões de trabalho em casa, é que os trabalhadores têm buscado na justiça o direito de obter uma remuneração extra. A 5º Vara do Trabalho de Porto Alegre, em recente análise, concluiu que ficar de sobreaviso fora do expediente, mas ao alcance do telefone, é motivo para ter direito a hora-extra (ver aqui). Infelizmente, é provável que a decisão da justiça seja peremptoriamente contestada por aqueles que se utilizam dos poderes vigorosos, pegajosos e encantadores dos meios eletrônicos para transformar pessoas em funcionários 24hrs. A arraigada hostilidade do sistema legal brasileiro pode gerar um desequilíbrio no que se pretende por jornada de trabalho e, além disso, a criação de um novo perfil profissional ainda não nomeado pelos especialistas e sem a demarcação de fronteiras entre o lazer e o trabalho.

Redes virtuais

Todavia, a fim de caracterizar os limites entre o lazer e o trabalho, faz-se necessário buscar as fontes para identificar tais fronteiras. No entanto, a momentânea escassez de fontes primárias para iniciar um estudo sobre os antecedentes das novas tecnologias no Brasil impõe ao menos duas tarefas fundamentais: 1) reunir dados sobre o surgimento das redes virtuais (motor de estreitamento entre as relações de trabalho e lazer), para isso utilizamo-nos da própria experiência e do depoimento de Khaled Mardam-Bey. 2) Analisar o processo de miscigenação entre o lazer e o trabalho.

Convém começar com a minha própria história, no que refere as novas ferramentas de comunicação eletrônica, pois acredito que os celulares e, principalmente os computadores, representam uma experiência distinta na vida das pessoas. Digo isso, no sentido de que não faz muito tempo e apenas algumas poucas famílias tinham acesso a meios tão poderosos, não apenas de comunicação, mas de transformação da sociedade. Em 1998, ano em que o computador chegou à casa dos meus pais, em Bagé (RS), estávamos na expectativa pela chegada daquela máquina estranha que permitia o acesso à modernidade. Naquela época, o computador era uma máquina valiosíssima, caríssima e quase intocável. Por certo, na escola onde estudei era intangível; já que como o governo havia subsidiado apenas um laboratório de informática para toda a escola (mais de 3.000 mil alunos), os computadores eram como “máquinas sagradas” que só podíamos ver, e olhe lá.

Nesta época, no Rio Grande do Sul não era comum se falar da internet e nem dos celulares. O máximo que se tinha acesso era ao telefone fixo da CRT (Companhia Rio-grandense de Telecomunicações) e, mesmo assim, esse era muito caro e poucas famílias tinham acesso. Mas em 2002 as coisas começavam a mudar, não apenas para a minha família, que garantiu o acesso à internet e ao telefone celular, mas também para os meus colegas de aula e para suas famílias respectivamente.

Os anos sequentes foram de grandes mudanças na vida das pessoas e na sociedade brasileira em geral. No entanto, se me permitem, gostaria de frisar o período específico do surgimento das redes virtuais. Pois acredito que a comunicação virtual assumiu o papel de motor de estreitamento entre as relações de trabalho e o lazer. Explico: em termos objetivos, a comunicação virtual atualmente é o porta-estandarte das ideologias capitalistas baseadas no desenvolvimento de uma sociedade hegemônica que prega a submissão e a exploração voluntária daqueles que acreditam estar vivendo em liberdade.

“IRC é sobre gente”

Em todo o caso, no seu surgimento a comunicação virtual acontecia apenas com a finalidade de estabelecer relações pessoais em salas de bate-papo, mas ao longo dos anos se tornou muito mais do que isto. Possivelmente foi o IRC (Internet Relay Chat), originalmente concebido e escrito por Jarkko Oikarnnen em 1986, na Finlândia (no Brasil, o IRC começou a ganhar visibilidade no final da década de 90), que deu o pontapé inicial na popularização dos espaços virtuais de encontro, os chamados “canais”. Estes espaços, subordinados a determinados tópicos ou assuntos, oportunizavam debates ou conversas, em grupos ou privativamente.

Para obter acesso ao IRC era necessário acessar um sistema que era constituído de milhões de clientes-computadores do mundo inteiro, interligados pelos servidores (servers), conectados à internet, sendo esta conexão proporcionada pelos provedores (providers). O servidor funcionava como uma máquina que executava a função de interligar os laços dessa fabulosa rede de clientes. (mais informações podem ser encontradas no livro mIRC sem segredos 2, de autoria de Ivan Borba, ed. Brasport:2001). Cabe destacar que o cliente era o programa, que permitia, quando instalado no computador e com este conectado à internet, a participação no sistema IRC. Sem dúvida, o cliente mais utilizado em todo o mundo, chegando a ocupar uma faixa entre 60% e 70% do universo de programas de acesso ao IRC, é o chamado mIRC.

O mIRC foi criado por Khaled Mardam-Bey em 1995 e sobre a sua criação destacamos o seguinte: “O mIRC tem possibilidades comerciais significativas e eu acho que poderia ter ganho muito dinheiro se tivesse tentando; mas se eu o tivesse feito comercial e impessoal, penso que não seria feliz para continuar nele trabalhando, IRC não é sobre competições, atrações ou para ganhar dinheiro, é sobre gente”(frase destacada do livro mIRC sem segredos 2, página 32, ed. Brasport:2001).

Conversas simultâneas

Na sua página pessoal, Mardam-Bey define o IRC da seguinte forma: “A rede de IRC é um lugar de reunião virtual, onde pessoas de todo o mundo podem se encontrar e conversar. O IRC derruba as tradicionais barreiras sociais e preconceitos relacionados com idade, raça, posição social, aparência, etc. Você encontrará um gigantesco número de pessoas de todos os continentes, de todas as idades, de todas as religiões e crenças; pessoas vivendo em países ricos e pobres, em paz ou em guerra, em bonança ou famintos; você conversará com alguém que poderá ter 12 ou 90 anos de idade, podendo ser marrom, branco ou multicolorido. Você não saberá até que tenha conversado.”

Num primeiro olhar, quem lê as palavras de Mardam-Bey pode dizer da sua inocência em acreditar que o IRC derruba as tradicionais barreiras sociais e preconceitos relacionados. No entanto, o criador do mIRC tem razão no sentido de que antes das redes virtuais baseadas nos perfis de imagens (Orkut, Facebook etc.) o IRC era baseado na comunicação de textos escritos, o que jogava por terra, ao menos num primeiro momento, os usuais preconceitos sociais relacionados com a idade, raça, posição social, aparência etc. Além das conversas sem compromissos, simples papos a títulos de lazer e divertimento, organizavam-se os “IRContros” (espaços onde as pessoas que utilizavam o IRC se encontravam para confraternizar). Em Bagé, eram tradicionais os IRChurras e até mesmo o Festival de Rock do Canal #bage (apresentação de bandas formadas por pessoas que utilizavam o IRC).

A título de informação, em meados de 2002 no canal #bage da rede Brasnet reuniam-se em média mais de 300 pessoas conectadas simultaneamente. No Brasil, O ápice do IRC foi em 2003, quando mais de 60 mil pessoas conversavam simultaneamente na estrutura mantida por parceiros como Telemar, BrasilTelecom, Unisys, Interdotnet e Mandic, além de outros grandes provedores brasileiros de abrangência regional. Os registros dessa época podem ser encontrados no artigo “Era uma vez o IRC brasileiro“.

Até aqui foi apresentado um pequeno registro do surgimento das redes virtuais no Brasil. A seguir será feita uma análise do contexto em que a tecnologia e as ferramentas eletrônicas influenciaram na miscigenação entre o lazer e o trabalho, na verdade, estes foram transformados numa coisa só, a ponto de causar uma grande confusão quando se tenta estabelecer as fronteiras dessa relação.

A verdadeira identidade

Um dos principais objetivos deste artigo é fazer um contraponto, ou melhor, um acréscimo a reportagem do programa Profissão Repórter, da Rede Globo (28/8), que tratou da ansiedade e da tensão que toma conta dos jovens no mercado de trabalho. As pessoas que assistiram o programa puderam constatar um fenômeno cada vez mais comum na sociedade: a mesclagem entre o lazer e o trabalho.

O papel desempenhado pela psicologia na análise das consequências do estreitamento entre o lazer e o trabalho tem revelado que para essa nova geração de profissionais tensos e ansiosos a natureza global dos interesses econômicos é o principal fator de sedução no mercado de trabalho.

Aos poucos, a busca pelas melhores colocações no ranking dos empregos começou a colocar em risco a segurança interna das pessoas. De tempos em tempos, o poder econômico seduz tanto quanto coage os profissionais a admitir suas regras e torná-las como próprias para o seu desenvolvimento. Nesse sentido, o poder vigoroso, muito prático e nada sentimental das novas tecnologias tem um papel fundamental no processo de miscigenação do lazer e do trabalho.

Explico: o poder tecnológico, sob o controle do poder econômico, não se baseia na coerção como método básico, mas também não se fundamenta numa simples coincidência de vontades. Por exemplo, a planta carnívora seduz sua presa por meio de um tipo de poder não coercivo – um aroma agradável que atrai insetos para a sua seiva. Mas uma vez que a vítima tenha tocado a seiva, fica paralisada; não pode escapar. Este é o poder dos novos meios de comunicação eletrônica, um tipo de poder manipulado pelos que se especializaram em controlar o regime de prioridades dos jovens profissionais.

Concluindo, os leitores deste artigo talvez experimentem, como eu, o sentimento de encontrar-se frente a um labirinto abismal de possibilidades interpretativas. Com justificável pressa, muitos intentarão o silêncio e o mais rápido esquecimento. Outros verão aqui refletidas de imediato as analogias fundamentais do Discurso Sobre a Servidão Voluntáriade Etienne de La Boétie. Outros voltarão a interrogar-se sobre a verdadeira identidade das novas tecnologias na sociedade atual. Para nós, resta simplesmente voltar a ressoar a mensagem de Antoine de Saint-Exupéry: “Apenas com o coração pode-se ver corretamente o que é essencial e invisível ao olhos.”

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[Marlos Mello é jornalista e psicólogo, Porto Alegre, RS]