Wednesday, 29 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1289

Telecentros são subutilizados

Importantes para a inclusão digital no início dos anos 2000, os chamados telecentros públicos gratuitos – para acesso a computadores e internet – chegam a 2013 com um dilema. Numerosas, mas subutilizadas, com problemas de infraestrutura e mal sinalizadas, essas salas vêm perdendo importância, devido ao barateamento dos computadores e ao maior acesso a eles. É o que indica pesquisa do Centro de Estudos sobre Tecnologias de Informação e da Comunicação (Cetic.br) e visitas feitas a nove telecentros do Rio.

Salas difíceis de encontrar, pouco uso dos espaços pela população, ar-condicionado com defeito, máquinas quebradas e até completa inoperância foram alguns dos problemas encontrados. Para pesquisadores, é preciso rever o modelo: a simples oferta de máquinas e internet não é suficiente para a inclusão.

De acordo com a pesquisa TIC Domicílios e Usuários 2011, feita pelo Cetic.br, 36% dos domicílios brasileiros têm computador de mesa – em 2005, eram 16,6%. Pela última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, relativa a 2011, 42,9% tinham computador. Segundo a TIC, do total de usuários brasileiros da internet, 67% acessaram a rede em casa nos últimos três meses e 6% o fizeram pelos telecentros públicos gratuitos, atrás de acesso por celular (15%), na escola (16%), na casa de outra pessoa (28%), em lan house (28%) e no trabalho (29%).

– No início, o acesso da população, principalmente de baixa renda, era muito difícil. Hoje, essa população já usa computadores e internet de casa ou em outros espaços. O telecentro vem perdendo protagonismo na inclusão digital – diz Nicolau Reinhard, da USP.

Ociosidade, calor e máquinas quebradas

O município do Rio tem 54 telecentros públicos gratuitos, divididos em três projetos: o Telecentros.BR, sob responsabilidade do Ministério das Comunicações; o Internet Comunitária, do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj); e o Casa Rio Digital, mantido pela Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia da prefeitura.

Nos telecentros do Proderj na Associação de Moradores do Santa Marta, em Botafogo; na Ceasa, em Irajá; e na Penha, nenhum usuário foi encontrado. Segundo monitores dos locais, a média de uso diário não chega a dez. Nenhum dos três telecentros tinha cronogramas regulares de atividades ou sinalização que facilitasse o acesso. Em dois havia máquinas com defeito.

Apesar de movimentado, com cerca de cem usuários por dia, o telecentro do Proderj na Central do Brasil estava com o ar-condicionado quebrado. Como consequência, os computadores travavam por causa do calor. O local também não contava com aulas regulares. No mesmo dia, problemas com ar-condicionado foram encontrados em Copacabana e no prédio do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), no Centro.

Na Penha Circular, um telecentro informado pelo Ministério das Comunicações como operacional e que faz parte do Telecentros.BR tinha seus computadores guardados em caixas. Segundo Julia Costa, responsável pela ONG Espaço Cultural Brincadeira é Coisa Séria, que deveria sediar o telecentro, o espaço nunca funcionou porque aguardava adequação física de uma de suas salas. Atualmente, a ONG está desativada, e os computadores e mobiliário estão sem uso.

Paulo Coelho, presidente do Proderj, disse que o programa está reavaliando a localização e a infraestrutura de alguns dos espaços e reconheceu a necessidade de repensar o funcionamento dos telecentros. Já o Diretor do Departamento de Articulação e Formação da Secretaria de Inclusão Digital do Ministério das Comunicações, Rogério Macedo, explicou que a entidade responsável seria a Fundação Banco do Brasil, que se desligou recentemente do projeto sem atualizar o ministério sobre o telecentro.

O programa do Proderj investe R$ 3.200 mensais por cada um dos 17 telecentros – R$ 652.800 ao ano. O Casa Rio Digital, da prefeitura, gasta R$ 15 mil ao mês em cada um dos 25 telecentros, R$ 4,5 milhões por ano. E o Telecentros.BR entrega kit de R$ 19 mil a cada telecentro – R$ 228 mil para os 12 do Rio.

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Thiago Jansen, do Globo