Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Como separar boatos de fatos

Dick Costolo, atual CEO do Twitter, anda com ideias românticas, bucólicas e irreais sobre a empresa que dirige. Na 11ª conferência da revista AllThings D (29/05), em entrevista com a produtora executiva Kara Swisher, ele disse que o Twitter pode vir a ser grande uma praça mundial global onde as pessoas discutem notícias e eventos cotidianos. Como no passado as pessoas costumavam fazer nas pracinhas das cidades: “Nós estamos construindo essa praça mundial global que orbitará ao redor de eventos planejados e não-planejados. É público, em tempo real e é conversacional”, publicou a ABC News (29/05).

A emissora norte-americana explicou que por evento planejado podemos entender a entrega do Oscar ou o Super Bowl, a final do campeonato daquele esporte que nós aqui no Brasil chamamos de “futebol americano”. Eventos imprevistos são todas as catástrofes e atentados, como o da maratona de Boston.

Há dois grandes problemas nos planos de Costolo: o primeiro é a segurança no Twitter: quem ainda acredita nela? Enquanto o microblog sai em busca de sua utopia sem ainda ter implantado um novo sistema de segurança, Costolo espera que os próprios usuários façam a “moderação” da conversação e separem boatos de fatos. Em outras palavras, os utentes vão ter que monitorar a segurança do Twitter porque este “não é agência de aplicação da lei”, explicou a ABC. Costolo retornou por um segundo a seu passado de comediante (ele já foi um comediante stand up, em anos passados).

Irreal e irresponsável

O segundo grande problema é a própria ingenuidade de Costolo quanto à disseminação de informação falsa no microblog. Não acreditei quando li o que ele declarou na famosa conferência internacional de enorme visibilidade na mídia: “Eu penso que a beleza do Twitter hoje em dia é que, quando os rumores vêm à superfície, a multidão faz um bom trabalho ao decidir o que é real e o que é boato”, explicou o crédulo executivo.

Costolo convenientemente varreu para debaixo do tapete o papel de muitos usuários do Twitter nos Estados Unidos e outras redes sociais na identificação dos suspeitos no atentado à maratona de Boston. Membros do Twitter e outras mídias sociais acusaram um inocente de suspeito das bombas na competição. Investigação não é coisa para multidões. O caso já foi abordado neste Observatório nas edições 743, 744 e 745.

O fato serve para mostrar como irreal e irresponsável é a proposta do presidente do Twitter, que quer os usuários amadores envolvidos na segurança da rede e a separar rumores de fatos.

Amadorismos temerários

Deixar a segurança da rede em mãos de usuários despreparados, e acreditar que eles sozinhos são capazes de separar boato de informação falsa numa rede social é uma ilusão que pode acabar em resultados desastrosos. As redes sociais ainda são focos de disseminação de contrainformação, boatos e rumores perigosos. Estão sujeitas, por essência, ao imediatismo e têm o poder de contaminar outras mídias de transmissão imediata (rádio e TV), que não dispõem do mesmo tempo para verificação de fatos que a imprensa tradicional.

Costolo estava a fazer seu trabalho na Conferência Digital em Rancho Palos Verdes: vender uma boa imagem do Twitter numa hora difícil. Quis passar uma imagem de tranquilidade e confiança ao público, no momento em que a empresa que ele dirige apresenta graves deficiências em segurança e é criticada pela imprensa por irresponsabilidade ao imputar culpa a um inocente.

Enquanto não se livrar de amadorismos temerários como a proposta insensata de seu principal executivo, o Twitter vai continuar como empresa de grande potencial, mas que até agora não realizou tudo aquilo que poderia.

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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor