Sunday, 16 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1292

Eu persigo, tu persegues, nós perseguimos

Se você tem um ou uma ex, então você tem um “stalker”. Se o seu ou a sua ex tem uma nova companhia, então já são dois stalkers em potencial. Some a eles paqueras, gente que não gostava de você na escola ou que gostava até demais. Todas essas pessoas e outras que você nem imagina podem estar acompanhando seus passos de maneira sistemática.

O termo “stalking” (do inglês “espreitar”) passou a ser usado nos anos 1980 para se referir a fãs que perseguiam celebridades, invadindo suas casas e forçando contato.

A chamada web 3.0 -definida por Reid Hoffman, fundador do Linkedin, como uma rede com presença maciça de dados pessoais- fez com que muita gente se transformasse em pequena celebridade de nicho só por ter um site conhecido ou muitos seguidores no Twitter.

Resultado: a preocupação com a perseguição migrou para a realidade de gente anônima, que anda pelas ruas sem segurança e é conhecida só por um grupo.

Mas, se o “cyberstalking” é definido como o hábito de buscar informações sobre determinada pessoa na internet, fica bem difícil separar as pessoas entre perseguidores e alvos de perseguição.

“A forma como assediamos a vida uns dos outros hoje tem tudo a ver com o processo de celebrização da sociedade. Há um impulso de consumir a vida do outro, de usá-la como entretenimento, semelhante a um filme”, explica Eugênio Trivinho, professor do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da PUC-SP.

“Se as pessoas não fossem todas stalkers, o Facebook não seria tão acessado”, provoca a estudante de direito Gabriela Assis, 23.

Ela conta que, na adolescência, desenvolveu o hábito de conferir a vida dos colegas pelo Orkut. “Se gostava de um menino, queria saber se tinha namorada, o que fazia. Para isso, acompanhava as conversas do 'scrapbook' dele.”

Gabriela não vê nada de errado em seu comportamento: “Apenas faço uma análise detida do que as pessoas escolheram publicar, não roubo dados de ninguém”.

Há perseguidores e perseguidores. Alguns se limitam a investigar a vida de pessoas que já conhecem, outros se encantam por desconhecidos e procuram meios de se aproximar deles.

Uns mantêm suas atividades apenas no campo virtual, outros passam a frequentar os mesmos lugares de seus objetos de atenção, montando um cerco presencial.

Sem lei

O Brasil não tem leis específicas para regular a vigilância virtual, mas há casos em que cabe uma ação civil, afirma Victor Haikal, especialista em direito digital.

“Não é porque escolhi compartilhar minhas informações que as pessoas podem fazer o que quiser com elas. Há abusos de direito que fogem do uso regular das redes sociais”, explica Haikal.

Para o advogado, seria abuso, por exemplo, enviar fotos constrangedoras que a pessoa postou em sua rede social para seus chefes ou colegas de trabalho, tentar contatos insistentes por e-mail ou usar informações do geolocalizador dela para persegui-la pela cidade.

“Os danos da vigilância nem sempre são mensuráveis. Mesmo que a pessoa não lhe faça mal, não é saudável se sentir vigiado por alguém”, defende Breno Rosostolato.

Para Heloisa Pereira, docente do curso sobre redes sociais e “novos paradigmas do ciberespaço”, da PUC-SP, a vigilância é uma consequência natural da aura de importância que as pessoas criam em torno de si mesmas.

“Cada um se vende como alguém muito especial. O stalker é um ingênuo que comprou essa história e se obcecou por ela.”

No Orkut, a busca de dados era ativa: era preciso entrar na página da pessoa, vasculhar fotos e mensagens. No Facebook, essas informações são atiradas na cara do usuário: uma barra lateral que avisa o tempo todo quem ficou amigo de quem, quem curtiu a foto de quem.

“A nova estrutura dos sites é feita para estimular essa curiosidade pela vida alheia. Progressivamente, as redes sociais tiraram nossa opção entre ser ou não ser stalker”, diz Vinícius Andrade Pereira, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura.

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“Sou uma perseguidora assumida”

“Aos 14, tive uma paixonite por um menino que vi na rua. Na época, não tinha internet em casa nem celular no bolso. Comecei a seguir o menino de maneira analógica: ligava para a casa dele, inventava desculpas loucas para a empregada.

Um amigo meu era colega do irmão dele. Usei meu amigo para me aproximar do irmão e, finalmente, dele. Quando a gente se conheceu, eu sabia até o horário do inglês dele. Não deu em nada, no fim das contas. Hoje somos muito amigos.

Com a internet, o hábito de pesquisar a vida dos outros só se acentuou. Hoje eu vasculho a vida de bastante gente, sou stalker assumida. Amigas até pedem consultoria. Dizem: 'Estou saindo com Fulano, me diz se tem algo que eu deveria saber sobre ele'. Acho graça.

Minha chefe sabe da minha vocação e até chegou a pedir para eu investigasse candidatos a estágio.

Quando simpatizo muito com alguém, sempre olho se temos amigos em comum. Se tivermos, eu peço para ser apresentada.

Se vejo alguém legal numa festa, reparo se conheço alguma das companhias da pessoa, daí encontro no Facebook. Recife é um ovo, então essas coisas não são tão complicadas.

Nunca fiz nada ilegal: invadir computador dos outros, roubar senha, fazer perfil 'fake'. Quando fico amiga das pessoas, conto para elas: 'Olha, eu acompanhava sua vida quando a gente não se conhecia'. Elas dão risada.” [Milena Andrade, 26, produtora cultural]

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“A ex do meu noivo faz da minha vida um inferno”

“A ex-mulher do meu noivo é uma 'stalker' daquelas capazes de parar a vida para ir se intrometer nos assuntos alheios. Há um ano e meio ela faz da minha vida um inferno.

No começo, eu achei que fosse uma pessoa de boa fé. Ela me ligava, mandava e-mails, queria porque queria me encontrar.

De certo modo, eu achava aquilo normal: eles têm dois filhos pequenos juntos. Ela tinha o direito de saber quem passaria a conviver com os filhos dela.

Com o tempo ficou claro que não era preocupação de mãe o que movia a pessoa, mas sentimentos como ciúme e obsessão. Ela faz uma marcação cerrada da minha vida na tentativa de me prejudicar. Já me prejudicou muitas vezes, inclusive.

Atualmente, meu noivo só tem autorização judicial para visitar os filhos dentro da casa dela. Ele não pode levar as crianças para tomar um sorvete na esquina.

Ela conseguiu isso alegando que eu era uma 'má influência'. Para isso, usou fotos minhas, frases do meu Twitter e Facebook que, descontextualizadas, passavam uma péssima impressão sobre minha pessoa.

Manipulando os dados, é muito fácil fazer qualquer um parecer perigoso usando piadas e fotos de momento, que a gente tira sem pensar.

Hoje eu entro na internet completamente travada. Tem horas que me vejo numa mesa com amigos tomando champanhe e pedindo para que ninguém poste aquilo no Instagram, para que não digam que eu estou ali.

Eu sou fotógrafa e fazia alguns trabalhos na escola onde os filhos dela estudam. Eu e minha sócia íamos lá fotografar cerca de 30 crianças a pedido das mães.

Pois um belo dia ela chegou na escola aos berros, fazendo um escândalo. Foi até a diretora falar absurdos sobre mim. Perdi o trabalho, minha sócia teve que fazer tudo sozinha.

Meu noivo e eu chegamos a ter um rompimento por conta de tanto estresse. Chega uma hora que essas coisas envenenam a relação.

Reatamos pouco tempo depois: escolhemos não deixar que uma pessoa de fora decidisse o que faríamos da nossa vida.

Faz tempo que meus perfis em redes sociais são todos trancados, mas ela sempre arranja artifícios para me perseguir. Pede senha de amigos em comum, consegue acesso às coisas, eu nem sei como.

Agora, meu noivo está lutando na Justiça para conseguir ver os seus filhos de um jeito normal. Quando terminar esse pesadelo e ele puder ver as crianças, vou pensar com calma sobre tudo e lutar pelos meus direitos.

Há pessoas que são rancorosas demais, acham que o fato de terem dinheiro ou qualquer coisa assim as coloca acima das demais.

Gente assim usa a internet porque é o que tem mais à mão hoje em dia, mas são pessoas que fariam o mal de um jeito ou de outro.” [Olivian Moioli, 32, fotógrafa]

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Caçador virtual pode acabar sendo o mais prejudicado

A designer Lorena Dias, 31, manteve, dois anos trás, um blog sobre beleza onde compartilhava fotos das roupas que usava. Recebia cerca de 50 visitas diárias. Segundo ela, eram amigos reais e virtuais e suas irmãs.

Quando terminou um namoro longo, o blog ganhou uma nova leitora: a namorada de seu ex. “A garota ia todos os dias na minha caixa de comentários para me chamar de gorda. Usava coisas que ficava sabendo pelo meu Facebook para me atacar”, diz. Os comentários eram anônimos, mas Lorena descobriu a autora pelo IP (número de identificação de computadores).

“Ela escrevia coisas horrorosas do computador do trabalho dela, aparecia lá o nome da empresa. Um dia liguei para a chefe dela. Não foi demitida, mas levou bronca.”

“Somos todos 'stalkers' de fases, o problema é quando desenvolvemos técnicas apuradas e perdemos muito tempo nisso”, explica Luciana Ruffo, psicóloga do Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática, da PUC-SP.

Para ela, fases como o começo ou fim de um relacionamento são propícias a acessos de curiosidade, mas é preciso ficar atento. “As pessoas ao redor são um termômetro de quando o interesse no outro excede a normalidade. Quando seus amigos disserem 'você ainda está nessa?' é hora de parar.”

“O stalker é o maior prejudicado da história. É ele quem dedica seu tempo numa busca inútil”, opina Loraine Pivatto, analista de sistemas e autora de “Perseguição Digital” (Novos Peregrinos, 202 págs., R$ 29). “A internet nos dá um poder muito grande sobre os outros, mas nem todos estão dispostos a abusar desse poder”, conclui.

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[Juliana Cunha, para a Folha de S.Paulo]